Arquivo de DADOS - Portal Fonte https://portalfonte.com/category/dados/ Escola de Comunicação da Unisuam Mon, 29 Jun 2026 13:57:40 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.2 https://portalfonte.com/wp-content/uploads/2026/04/favicon-coruja-150x150.gif Arquivo de DADOS - Portal Fonte https://portalfonte.com/category/dados/ 32 32 Violência ao redor: impactos na saúde mental de moradores da Zona Norte do Rio de Janeiro https://portalfonte.com/violencia-ao-redor-impactos-na-saude-mental-de-moradores-da-zona-norte-do-rio-de-janeiro/ https://portalfonte.com/violencia-ao-redor-impactos-na-saude-mental-de-moradores-da-zona-norte-do-rio-de-janeiro/#respond Fri, 26 Jun 2026 16:18:56 +0000 https://portalfonte.com/?p=2485 Por Thalita Vieira, Gabriela Araújo e João Franco – OlharAstuto RJ “Eu entrei em um lugar e a passageira não avisou que era comunidade. O lugar, não indicava que era comunidade, não tinha uma barricada ou algo na parede escrito ser de alguma facção, por exemplo. Ao entrar no lugar, um cara me abordou botando a […]

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Por Thalita Vieira, Gabriela Araújo e João FrancoOlharAstuto RJ

“Eu entrei em um lugar e a passageira não avisou que era comunidade. O lugar, não indicava que era comunidade, não tinha uma barricada ou algo na parede escrito ser de alguma facção, por exemplo. Ao entrar no lugar, um cara me abordou botando a arma na minha cara e falando: ´Tu tá maluco? Tira a porr@ do capacete!”

​- João Pedro, 20 anos, motorista de aplicativo

“Eu já acordei assustado às seis da manhã. Tiro ‘comendo’ solto.”

​- Matheus, Morador do Chapadão, 30 anos

Carro de polícia em Bonsucesso – Gabriela Araújo / OlharAstuto

Esses relatos são muito comuns no cotidiano. A violência sempre ocupou um espaço na vida dos cariocas. O que antes surgia apenas em situações extremas agora acompanha trajetos simples do dia a dia, como ir ao trabalho, estudar ou caminhar pelas ruas. No dia a dia, a insegurança ultrapassa os impactos físicos e passa a atingir também a saúde mental da população, alterando hábitos, comportamentos e a forma como as pessoas enxergam a própria realidade. 

“O Brasil nunca foi um país pacífico.” A frase, retirada do artigo Violência que afeta a saúde de Maria Cecília de Souza Minayo, resume parte da história brasileira. Desde o início de sua formação, o país foi marcado por conflitos e episódios de violência: a escravidão indígena e negra, disputas territoriais e conflitos sociais que, em muitos casos, persistem até hoje.

Atualmente, a sensação de insegurança tornou-se cada vez mais presente no cotidiano da população. Não há como sair de casa sem se atentar às precauções que passaram a fazer parte da rotina de muitos cariocas:

• Se a bolsa está bem próxima ao corpo;
• Se o celular está escondido no fundo da bolsa;
• Colocar o dinheiro dentro da calça ou do sutiã;
• E estar sempre atento às pessoas ao seu redor.

Pequenos hábitos deixaram de ser apenas cuidados e passaram a representar tentativas diárias de prevenção. Ainda assim, todo cuidado parece insuficiente. Basta um momento de distração para que alguém se torne vítima de assalto, agressão ou até situações mais graves. De acordo com O G1, houve uma queda nas mortes violentas em comparação ao ano de 2024 – quase 11% e nas mortes causadas por policiais em 39,5% em comparação a 2024. 

A própria personalidade do carioca é frequentemente descrita como “agressiva” ou de “temperamento forte”, interpretação que muitas vezes ignora os contextos sociais e a realidade vivida por cada indivíduo. Diante disso, surge uma questão: seria a violência um dos fatores capazes de influenciar comportamentos da população carioca?

“Por que será que somos assim? De temperamento forte?“. Esse é o questionamento da  Márcia Cristina, de 40 anos, moradora da Abolição. Para além de um traço cultural, alguns especialistas apontam que a exposição contínua à violência impacta diretamente a saúde mental das pessoas. 

Pesquisas realizadas em territórios marcados pela violência urbana mostram que os impactos vão muito além do medo momentâneo. Dados do projeto Construindo Pontes (2019), realizado pela Redes da Maré, revelam que pessoas expostas a situações de violência armada apresentam sintomas específicos para a saúde física e emocional. Entre os entrevistados que vivenciaram episódios de tiroteio, 44% relataram prejuízos à saúde mental e 29% apontaram impactos na saúde física.  Fora os efeitos emocionais apresentando-se ainda mais profundos: 12% afirmaram já ter tido pensamentos suicidas e 30% relataram pensamentos relacionados à morte. 

Os números mostram que a violência vai além de confrontos. Esse medo constante e ameaça frequente de conflitos armados acabam se transformando em um problema de saúde pública que interfere diretamente no bem-estar emocional. Esses estudos realizados na Maré também apontam que um terço dos moradores afirma ter a saúde mental afetada pela violência, enquanto grande parte relata viver um estado permanente de medo.

(INFOGRÁFICO)

Dados recentes do Instituto Fogo Cruzado mostram que a violência armada continua fazendo parte da rotina do Rio de Janeiro. Em fevereiro, confrontos entre facções e milícias resultaram em 14 tiroteios e deixaram 30 pessoas baleadas, sendo 19 mortas e 11 feridas. Apesar da redução no número de ocorrências, especialistas apontam um cenário preocupante: redução dos confrontos e aumento de vítimas, evidenciando uma violência mais letal e intensa. Em regiões marcadas por conflitos frequentes, como a Zona Norte, o impacto interfere no cotidiano e bem-estar emocional da população. 

Os números ajudam a dimensionar o problema, mas os impactos da violência vão além das estatísticas. 

(INFOGRÁFICO)

A população é jogada em uma ´´zona de perigo“, onde  os policiais não conseguem manter a segurança e o Governo demonstra pouca atenção às necessidades dos cariocas e das forças de segurança. Diante das circunstâncias, histórias individuais ajudam a mostrar como a insegurança se manifesta de diferentes formas. Seja no trajeto para o trabalho, dentro de casa ou em momentos considerados comuns, moradores da zona norte convivem com situações de medo. 

Os relatos a seguir reúnem experiências de um motorista de aplicativo e de moradores da zona norte, que preferiram não mostrar o rosto por questão de segurança. Em comum, as histórias revelam cenários marcados pelo desespero, tensão e mudanças.

Trajeto marcado pelo medo

João Pedro, motorista de aplicativo – Thalita Vieira / OlharAstuto

João Pedro tem 20 anos e trabalha como motorista de aplicativo para pagar a faculdade de Gestão Financeira. Ele conta que evita certos lugares como comunidades, e não passa por eles em período noturno.  

“O bandido não é burro, então ele rouba no lugar próximo de comunidade para ter tempo de voltar” Afirma.

Segundo João, a insegurança afeta sua saúde mental. Ele relata sentir ansiedade antes de sair para trabalhar, com receio de não conseguir voltar para casa. “É comum o motorista ser roubado e morto” , diz.

O motorista relata que o medo também é presente entre seus passageiros. O mesmo conta que ao desviar um pouco da rota o cliente fica apreensivo. “Teve uma vez que uma pessoa me perguntou se eu iria sequestrá-la. Estava brigando, falando que iria descer, por medo”, relembra.

Ao final da entrevista, ele deixa um conselho para quem pensa em ingressar na profissão: “Não recomendo trabalhar nesse ramo, a não ser que precise muito.”

Medo em favelas

Paisagem Bonsucesso – Thalita Vieira / OlharAstuto

Os relatos também aparecem entre moradores que convivem diariamente com a violência dentro das comunidades.

Matheus, morador da Penha, relata que evita passar por lugares como Anchieta e Mariópolis, regiões onde já foi vítima de assaltos. Além disso, prefere não sair para trabalhar em dias de jogos de futebol, pois acredita que o aumento da circulação de pessoas e episódios de violência nessas ocasiões elevam a sensação de insegurança. 

“Teve uma vez que o ‘caveirão’ entrou e eu não consegui trabalhar porque ‘tava’ rolando muito tiro e eu não quis descer de casa”, conta.

Matheus utiliza uma bicicleta elétrica como principal meio de transporte, que normalmente alcança cerca de 32 km/h. No entanto, ele afirma ter feito algumas configurações para aumentar a velocidade do veículo. “Se eu ficar andando nessa velocidade qualquer um correndo do meu lado consegue me assaltar”, afirma.

Outra moradora de comunidade, que preferiu não se identificar por questões de segurança, afirma que o receio de permanecer nas ruas aumentou após vivenciar situações de violência e confrontos armados.

Ela também critica a romantização das comunidades. “Tem gente que acaba romantizando: ‘Ah, favela venceu’. Como pode uma favela vencer? É um lugar que não tem estrutura nenhuma de ter pessoas morando ali”, afirma.

Entre as lembranças mais marcantes, a entrevistada relembra o dia em que ela e o pai ficaram no meio de um tiroteio. Segundo ela, os dois se abrigaram em um local que consideravam seguro, mas os disparos começaram a se aproximar e o som dos tiros era tão intenso que a fez esquecer qualquer outro pensamento. 

Pouco depois, ouviram um forte estrondo e perceberam que bandidos haviam entrado na área.  “Depois de alguns minutos ouvimos batidas fortes no portão principal. Eram os policiais. Eles estavam querendo empurrar a porta à força . Nisso, o meu pai estava na porta falando que não encontrava a chave e que eu estava lá dentro também. Os policiais, vendo isso, pensaram que meu pai era envolvido. Percebi que ele estava desesperado, então comecei a gritar para avisar que eu também estava ali.  Na minha cabeça, eles não entrariam atirando, porque havia uma mulher dentro da casa. Eu estava com muito medo de que minha casa virasse uma espécie de carnificina, como já aconteceu em diversos lugares durante operações”, relata. 

Entrevista com moradora 

Embora tenha se mudado do lugar em que vivia, a sensação de insegurança permanece. Ela afirma que qualquer notícia relacionada à violência na região onde mora ainda desperta medo e ansiedade.

Ao final da entrevista, faz um apelo para que as pessoas compreendam a realidade vivida por quem mora em áreas afetadas pela criminalidade. “As pessoas de fora não veem a realidade. Essas pessoas acabam pensando que só aquilo que está sendo mostrado é o que está sendo vivido, mas não é isso. [..] São pessoas que convivem com a criminalidade batendo na porta de casa. Presencia isso todos os dias”, conclui.

Palavra de especialista

Diego Mendonça, Mestre em Psicologia Clínica pela UFPR – João Franco / OlharAstuto

Os relatos apresentados ao longo desta reportagem demonstram como a violência ultrapassa os danos físicos e materiais, afetando também a saúde mental da população. Muitos moradores de centros urbanos procuram frequentemente consultórios de psicanálise e psiquiatria para tratar os sintomas de estresse, justamente por essa insegurança constante.

De acordo com o psicólogo Diego Mendonça, mestre em psicologia clínica e discente do Doutorado em Psicologia Social, a exposição frequente à violência pode gerar consequências psicológicas significativas.  “A normalização da violência é perigosa, tanto quanto a exposição da violência”, afirma.

Segundo o especialista, o contato constante com situações de risco pode desencadear sintomas como ansiedade, depressão, estresse crônico e até transtorno de estresse pós-traumático. No entanto, esses impactos nem sempre são percebidos pela sociedade, que muitas vezes encara a violência como algo comum do cotidiano carioca.

“Se uma pessoa não está com as suas necessidades básicas garantidas, isso compromete seu próprio crescimento como pessoa”, destaca.

Para Diego, um dos principais desafios enfrentados pela população é o acesso aos serviços de saúde mental e a profissionais especializados. “É muito curioso porque o Brasil é um dos países que mais tem psicólogos, mas ainda assim a psicoterapia clínica, muitas vezes, encontram-se inacessíveis para população”, explica.


A violência urbana não se resume aos números divulgados em relatórios ou às manchetes em jornais. Ela se manifesta no silêncio de quem evita sair de casa, na ansiedade antes de ir ao trabalho e no medo que acompanha moradores mesmo após o fim dos confrontos. As histórias apresentadas nesta reportagem mostram que a violência na Zona Norte do Rio de Janeiro ultrapassa os limites da segurança pública e se transforma em uma questão que afeta a qualidade de vida e o bem-estar emocional de toda a população. 

Entre estatísticas e relatos, uma certeza permanece: a violência deixa marcas que nem sempre podem ser vistas. E, enquanto milhares de pessoas continuarem vivendo com insegurança, a busca por uma cidade mais segura e por uma vida com mais tranquilidade continuará sendo um dos maiores desafios da sociedade carioca.

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Sem lugar para parar: a rotina invisível dos motoristas de aplicativo que fazem entregas no Rio https://portalfonte.com/sem-lugar-para-parar-a-rotina-invisivel-dos-motoristas-de-aplicativo-que-fazem-entregas-no-rio/ https://portalfonte.com/sem-lugar-para-parar-a-rotina-invisivel-dos-motoristas-de-aplicativo-que-fazem-entregas-no-rio/#respond Fri, 26 Jun 2026 14:40:07 +0000 https://portalfonte.com/?p=2477 Sem acesso regulamentado a áreas de carga e descarga e vulneráveis a multas, entregadores que usam carros de passeio precisam recorrer a estacionamentos pagos ou caminhar longas distâncias para concluir o trabalho. Por Paulo Vitor Alonso e Victoria Thomaz Estudantes de Jornalismo A expansão do comércio eletrônico e dos serviços de logística por plataformas digitais […]

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Sem acesso regulamentado a áreas de carga e descarga e vulneráveis a multas, entregadores que usam carros de passeio precisam recorrer a estacionamentos pagos ou caminhar longas distâncias para concluir o trabalho.

Por Paulo Vitor Alonso e Victoria Thomaz Estudantes de Jornalismo

A expansão do comércio eletrônico e dos serviços de logística por plataformas digitais transformou a paisagem urbana das grandes cidades brasileiras. No entanto, por trás da conveniência da entrega rápida, esconde-se a dura realidade de uma categoria profissional que cresce em ritmo acelerado, mas permanece marginalizada pela legislação de trânsito: os motoristas de aplicativo que realizam entregas utilizando veículos particulares de passeio.

Apesar de já estarem integrados à dinâmica socioeconômica da capital fluminense há um bom tempo, esses trabalhadores relatam que suas demandas continuam ignoradas pelo poder público. Sem pontos regulamentados para estacionar, muitos precisam recorrer a artimanhas diárias, como esconder o veículo em ruas sem saída ou parar a centenas de metros de distância do endereço final para conseguir efetuar o desembarque das mercadorias.

O impasse do CTB e as regras municipais

O principal nó górdio da categoria reside na contradição entre a legislação federal e a fiscalização local. De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o ato de carga e descarga está atrelado à natureza da operação, e não ao tipo de veículo. O texto federal não restringe carros de passeio de utilizarem essas vagas, desde que estejam, de fato, operando o embarque ou desembarque de volumes.

O Artigo 47 do CTB estabelece que as vagas de carga e descarga devem ser regulamentadas pelo órgão de trânsito responsável pela via (no caso da capital, a CET-Rio). Além disso, o Artigo 181, que dispõe sobre as infrações de estacionamento irregular, não pune especificamente automóveis civis nestas áreas. Contudo, o próprio código determina que o motorista deve respeitar a sinalização local — e é aí que o problema começa. As placas instaladas nas ruas do Rio de Janeiro restringem o uso das vagas estritamente a Veículos Urbanos de Carga (VUC) e utilitários.

Na prática, isso cria uma armadilha burocrática: o entregador que utiliza um carro comum, ao tentar fazer o seu trabalho usando a vaga de carga e descarga, fica sujeito a multas graves e reboque.

Relato de quem vive a rotina das ruas

Para compreender o impacto desse vácuo normativo no cotidiano, a reportagem entrevistou o motorista Marcos Paulo, que detalhou as principais dificuldades enfrentadas pela categoria no Rio de Janeiro.

Paulo Vitor: Quais regiões do Rio de Janeiro apresentam mais dificuldades para estacionar durante as entregas?

Marcos Paulo: A Zona Sul e o Centro do Rio de Janeiro são, sem dúvidas, as regiões mais desafiadoras para nós. Além da escassez crônica de vagas públicas, o movimento é intenso. Enfrentamos tanto o risco de sofrer furtos enquanto nos afastamos para subir em um prédio quanto a enorme dificuldade para achar qualquer local seguro para encostar o carro.

Paulo Vitor: Como você costuma agir quando não encontra uma vaga próxima ao local da entrega?

Marcos Paulo: Quando não há vaga perto do destino, somos obrigados a deixar o veículo em locais muito distantes e concluir o restante do trajeto a pé, carregando as caixas ou sacolas. Os estacionamentos pagos surgem como alternativa em casos extremos, mas o custo deles pesa direto no bolso e consome a nossa margem de lucro, tornando essa escolha inviável na maioria das vezes.

Paulo Vitor: As áreas de carga e descarga costumam atender às necessidades de quem faz entregas por aplicativo?

Marcos Paulo: Raramente. Essas vagas são limitadas e os agentes de fiscalização priorizam os caminhões grandes de abastecimento. Mesmo se encontrarmos uma vaga dessas vazia, o risco de sermos multados por estarmos em um carro de passeio comum é altíssimo, então a gente prefere não arriscar.

Carro de um entregador de aplicativo parado na vaga de carga e descarga Foto: Paulo Vitor

Precedentes abrem caminho para cobrança por direitos

A demanda por regulamentação ganha força quando observamos que a prefeitura do Rio de Janeiro já desenvolveu soluções de mobilidade para outras modalidades de transporte por aplicativo. Nos últimos anos, os motoristas voltados ao transporte de passageiros (como Uber e 99) conquistaram bolsões regulamentados para embarque e desembarque em pontos estratégicos de grande fluxo, como shopping centers, rodoviárias e nos aeroportos do Galeão e Santos Dumont.

Da mesma forma, o poder público municipal voltou as atenções para os motoboys e entregadores de refeições. Em uma parceria firmada com a iniciativa privada, a prefeitura instalou três pontos de apoio oficiais equipados com infraestrutura de descanso e suporte para esses profissionais, localizados em Botafogo, Barra da Tijuca e Tijuca.

Diante do amparo dado às outras ramificações da economia dos aplicativos, os entregadores em veículos de passeio agora reivindicam um posicionamento e ações institucionais semelhantes por parte da administração municipal. A categoria pleiteia a revisão da sinalização urbana ou a criação de credenciais específicas que validem a atividade dos automóveis civis a serviço das plataformas, garantindo o direito de trabalhar sem o fantasma da punição.

Imagem destaque: Paulo Vitor Alonso

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De baixo para cima: a potência comunitária que transforma o Viaduto de Madureira https://portalfonte.com/de-baixo-para-cima-a-potencia-comunitaria-que-transforma-o-viaduto-de-madureira/ https://portalfonte.com/de-baixo-para-cima-a-potencia-comunitaria-que-transforma-o-viaduto-de-madureira/#respond Thu, 25 Jun 2026 23:59:57 +0000 https://portalfonte.com/?p=2432 Entre cultura, empreendedorismo e acolhimento, o Viaduto Negrão de Lima abriga iniciativas que fortalecem a identidade suburbana e geram impacto social para centenas de famílias. Debaixo do concreto do Viaduto Negrão de Lima, em Madureira, pulsa um dos maiores símbolos da cultura suburbana carioca. Muito além de uma estrutura viária inaugurada nos anos 1960 para […]

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Entre cultura, empreendedorismo e acolhimento, o Viaduto Negrão de Lima abriga iniciativas que fortalecem a identidade suburbana e geram impacto social para centenas de famílias.

Debaixo do concreto do Viaduto Negrão de Lima, em Madureira, pulsa um dos maiores símbolos da cultura suburbana carioca. Muito além de uma estrutura viária inaugurada nos anos 1960 para ligar regiões da Zona Norte, o espaço se transformou, ao longo das décadas, em território de resistência cultural, encontro e pertencimento para milhares de pessoas.

Conhecido nacionalmente pelo tradicional Baile Charme de Madureira, patrimônio cultural do Rio de Janeiro, o viaduto reúne semanalmente pessoas de diferentes gerações em celebrações marcadas pela música black, dança e ocupação coletiva do espaço urbano. Criado há mais de 30 anos, o baile ajudou a consolidar Madureira como um importante centro da cultura negra carioca, atraindo visitantes de diferentes regiões da cidade e até repercussão internacional. Em 2025, quando completou 35 anos de existência, o Baile Charme voltou a ganhar destaque ao ser citado pelo jornal norte-americano The New York Times como um dos principais símbolos da cultura negra carioca. O evento, reconhecido como patrimônio imaterial da cidade desde 2013, reúne cerca de 5 mil pessoas a cada edição, já serviu de cenário para produções televisivas e ajudou a projetar Madureira para além das fronteiras do Rio de Janeiro.

Mas reduzir o Viaduto Negrão de Lima apenas ao charme é ignorar a diversidade cultural que ocupa o local. Atualmente, o espaço também abriga rodas de samba, batalhas de rima, apresentações de jongo, feiras independentes e brechós populares, funcionando como um grande polo cultural a céu aberto. Em um contexto de desigualdade histórica na distribuição de investimentos culturais entre centro e periferia, o viaduto representa a força das produções culturais suburbanas e periféricas.

O debate sobre investimentos em espaços urbanos permanece atual. Em 2025, um estudo da Confederação Nacional da Indústria estimou que 72,2% dos investimentos em infraestrutura no país seriam realizados pela iniciativa privada, evidenciando a crescente participação desse setor na transformação dos espaços urbanos brasileiros.

Do acolhimento à criação da ONG Colo de Mãe

Entre as iniciativas que encontraram abrigo sob o viaduto está a ONG Colo de Mãe. A organização nasceu a partir da trajetória de sua fundadora, Dailva Basílio, mulher nordestina, quilombola e mãe solo que migrou para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Trabalhando como camelô em Madureira, Dailva enfrentou inúmeras dificuldades enquanto criava os filhos sozinha.

“Ela trabalhava com um filho no canguru na frente e o outro no canguru atrás”, relembra uma das representantes da ONG. Foi nesse cotidiano, marcado pela luta pela sobrevivência, que ela passou a perceber a ausência de redes de apoio para mulheres em situação de vulnerabilidade. Durante as madrugadas de trabalho nas ruas de Madureira, Dailva presenciou histórias de abandono, violência e perda. Viu mães sem estrutura para criar seus filhos, crianças desamparadas e famílias atravessadas pela violência urbana. Algumas dessas crianças chegaram a ser acolhidas por ela antes mesmo da formalização da instituição.

Quando conseguiu estabilizar sua vida, decidiu criar um espaço voltado ao acolhimento de mulheres, mães solo e famílias. O nome “Colo de Mãe” surgiu por sugestão de sua própria filha. Segundo a entrevistada, o nome representa “o colo que a Dailva nunca teve e o colo que ela deu para tantas crianças que acolheu ao longo da vida”.

Quando a necessidade vira oportunidade

A atuação da ONG começou oferecendo orientação e encaminhamento para políticas públicas, direcionando mulheres e famílias para serviços de assistência e cobrando a efetivação de seus direitos. Com o tempo, novas demandas surgiram a partir do próprio território, mulheres empreendedoras que trabalhavam com moda sustentável e vendiam peças pela internet utilizavam a Praça das Mães como ponto de entrega para seus clientes. O grande movimento fazia com que muitas perdessem vendas porque compradores e expositores não conseguiam se encontrar.

Foi dessa necessidade que surgiu a Feira Colo de Mãe, hoje considerada o principal projeto da organização. Realizada aos sábados sob o Viaduto Negrão de Lima, a feira reúne mais de 200 mulheres e se consolidou como uma importante estratégia de geração de renda por meio da moda sustentável.

Além de oferecer espaço para comercialização dos produtos, a ONG passou a investir na capacitação das expositoras, promovendo oficinas e palestras sobre empreendedorismo, precificação, divulgação nas redes sociais e atendimento ao cliente. “Aprender a precificar, aprender a postar, aprender a divulgar e aprender a se portar diante do cliente fortalece essas mulheres”, afirma a entrevistada. Para muitas famílias, a renda obtida na feira representa o sustento mensal e a principal fonte de alimentação dentro de casa.

Uma rede construída pela comunidade

A Feira Colo de Mãe, além de representar uma oportunidade de geração de renda para centenas de mulheres, também é a principal responsável pela manutenção das atividades da própria instituição. Diferentemente de muitas organizações do terceiro setor, a ONG não recebe incentivos financeiros permanentes de órgãos públicos ou empresas privadas.

Segundo Elaine, o funcionamento da organização é sustentado pela própria dinâmica construída coletivamente no território. Parte dos recursos vem da comercialização de alimentos preparados pelas integrantes da ONG durante os eventos realizados aos sábados sob o viaduto. Outra fonte de arrecadação é a contribuição paga pelas expositoras para a utilização das barracas da feira, valor destinado à manutenção da estrutura necessária para a realização das atividades e à continuidade dos projetos desenvolvidos pela instituição.

Embora não recebam apoio financeiro direto, as ações da ONG contam com incentivos pontuais por meio da doação de materiais e produtos oferecidos por comerciantes, parceiros e membros da comunidade. Em eventos específicos, empresas e estabelecimentos locais contribuem com bebidas, alimentos e outros recursos necessários para a realização das atividades. “As pessoas ajudam com aquilo que podem oferecer”, resume a entrevistada.

Um território de resistência cultural

A necessidade de ampliar esse trabalho levou à inauguração da sede física da ONG, em 22 de setembro de 2025. No local, são oferecidos cursos e oficinas voltados não apenas para as empreendedoras da feira, mas também para mulheres das comunidades do entorno de Madureira. Entre as atividades estão aulas de informática, oficinas de confeitaria em parceria com o Instituto Gourmet, cursos de design de sobrancelhas e oficinas de estamparia artesanal.

Apesar dos impactos positivos, a ausência de incentivos financeiros permanentes limita a ampliação das ações desenvolvidas pela instituição. Segundo a entrevistada, recursos estáveis permitiriam atender um número ainda maior de famílias e complementar as doações recebidas com itens que raramente chegam por meio das campanhas solidárias.

“Se tivéssemos um fundo em caixa, conseguiríamos comprar itens que normalmente não chegam nas doações, como óleo, achocolatado e pó de café”, explica. Embora a ONG receba alimentos provenientes de campanhas realizadas por grandes instituições, a demanda frequentemente supera a capacidade de atendimento.

A história do espaço do Viaduto acompanha também as transformações urbanas do Rio de Janeiro. Construído em um período de expansão viária da cidade, atravessou décadas de mudanças sociais, econômicas e políticas. Ao mesmo tempo em que grandes projetos urbanos frequentemente alteraram dinâmicas de bairros populares e impactaram moradores da Zona Norte, espaços como o Negrão de Lima passaram a ser apropriados pela população como forma de resistência, convivência e preservação da memória local.

Nos últimos anos, iniciativas da Prefeitura e projetos de valorização cultural voltados para Madureira reforçaram o reconhecimento da região como um importante território cultural da cidade. Apesar disso, frequentadores e produtores ainda apontam desafios relacionados à infraestrutura, segurança e preservação das atividades independentes que acontecem no local. Entre essas iniciativas estão projetos de requalificação urbana que, segundo estimativas da Prefeitura do Rio, podem gerar até R$ 1,5 bilhão em impactos econômicos por meio de investimentos, atividades culturais e dinamização dos espaços públicos.

De baixo para cima

Para muitos moradores, o Viaduto de Madureira vai além de um ponto de passagem: é um símbolo de identidade coletiva. Debaixo de sua estrutura, diferentes manifestações culturais coexistem e mantêm viva uma tradição construída pela própria população suburbana, que transforma o espaço urbano em território de memória, arte e resistência cultural.

A trajetória da ONG Colo de Mãe revela que essa resistência também se manifesta no cuidado. Entre feiras, oficinas, acolhimento e geração de renda, o viaduto deixa de ser apenas concreto e torna-se espaço de transformação social. Como resume a entrevistada, a principal mensagem deixada pela instituição é que as pessoas “nunca devem desistir, precisam se reinventar e se ressignificar, porque às vezes é difícil, mas não é impossível”. Em Madureira, a potência comunitária segue sendo construída de baixo para cima.

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Entenda como uma igreja e um parque preservam a memória da Penha https://portalfonte.com/entenda-como-uma-igreja-e-um-parque-preservam-a-memoria-da-penha/ https://portalfonte.com/entenda-como-uma-igreja-e-um-parque-preservam-a-memoria-da-penha/#respond Thu, 25 Jun 2026 14:44:20 +0000 https://portalfonte.com/?p=1342 Apesar de ser lembrado pela violência ao redor, o bairro da Penha apresenta diversos objetos culturais e históricos que devem ser valorizados;

A Igreja da Penha e o Parque Shanghai são reconhecidos mundialmente e são muito importantes para a preservação da memória do bairro;

A Igreja tinha relação próxima com a família real e recebeu o título de Santuário em 1966 e de Basílica em 2016;

O Parque Shanghai passou por outras duas localidades no Rio antes de chegar na Penha;

Ambos os monumentos tiveram suas imagens afetadas pela criminalidade nas proximidades e se tornaram "mirante do crime";

A memória da Penha é mantida de forma afetiva, pelas histórias que pessoas de diferentes gerações compartilham entre si.

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Igreja da Penha e Parque Shanghai enquanto pontos turísticos da Zona Norte do Rio de Janeiro

Por Angelica da Cunha e Yasmin Marques — Rio de Janeiro

Ver resumo
  • Apesar de ser lembrado pela violência ao redor, o bairro da Penha apresenta diversos objetos culturais e históricos que devem ser valorizados;
  • A Igreja da Penha e o Parque Shanghai são reconhecidos mundialmente e são muito importantes para a preservação da memória do bairro;
  • A Igreja tinha relação próxima com a família real e recebeu o título de Santuário em 1966 e de Basílica em 2016;
  • O Parque Shanghai passou por outras duas localidades no Rio antes de chegar na Penha;
  • Ambos os monumentos tiveram suas imagens afetadas pela criminalidade nas proximidades e se tornaram “mirante do crime”;
  • A memória da Penha é mantida de forma afetiva, pelas histórias que pessoas de diferentes gerações compartilham entre si.

Quando Cartola e Assobert falavam sobre ir à Penha, nos anos 60, a celebração religiosa era a mais importante da cidade do Rio de Janeiro. Décadas depois, embora a forma de se viver tenha mudado, a Igreja da Penha e o Parque Shanghai se mantêm presentes no dia a dia e na memória afetiva dos moradores da Penha e da Zona Norte do Rio de Janeiro. 

O que une esses dois elementos é a história e a memória da população de um bairro que costuma ser representado exclusivamente com violência. A Penha é complexa e seus dois principais pontos turísticos carregam um enredo que poucos bairros da cidade do Rio têm. Para entender como esses espaços continuam presentes no cotidiano da região, é preciso voltar à história de cada um deles.

História do nome “Penha”

O bairro da Penha, cujo nome está diretamente ligado à Igreja da Penha, passou a ser um representante do que hoje compreende-se como subúrbio carioca. Segundo o que é chamado de fato-lenda, o capitão português Balthazar de Abreu Cardoso, ao subir o monte rochoso em 1653, se deparou com uma cobra, e rogou à Nossa Senhora. Imediatamente um lagarto lutou contra a serpente e salvou sua vida. Em agradecimento, Baltazar mandou construir uma ermida no alto do penhasco, que passou a atrair cada vez mais devotos. As notícias do milagre se espalharam e a santa passou a ser associada ao local. E com o tempo, a devoção à Nossa Senhora da Penha de França — título que vem de uma serra na região de Salamanca, na Espanha — se consolidou e acabou dando o nome tanto à igreja quanto ao bairro que cresceu ao redor.

Dentro da capela principal e na extensão do pátio, como se chama o espaço de transição entre o primeiro bondinho e a capela, estão presentes a cobra e o lagarto próximos à Nossa Senhora, o que legitima o fato-lenda.

Estátua com a imagem de Nossa Senhora da Penha presente na Igreja da Penha, acompanhada do menino Jesus, o capitão Balthazar de Abreu Cardoso, o lagarto e a cobra — Foto: Jonas de Carvalho from Rio de Janeiro, Brasil, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons

História da Igreja da Penha

A relevância da Igreja da Penha desde sua fundação ocasionou encontros importantes. A Irmandade tinha uma relação próxima com a família real e a Princesa Isabel chegou a visitar a Igreja em 1888, conforme registrado no livro de visitantes que faz parte do acervo em exposição no Museu da Irmandade.

O título de Santuário veio em 1966, mas o processo se iniciou já em 1905; o que confere à igreja certo status dentro da estrutura clerical, sendo um ponto de adoração para os fiéis em peregrinação no Brasil e no mundo. A igreja, porém, já era considerada Santuário antes mesmo do Vaticano conceder seu nome. Em 2016, a Igreja se tornou Basílica Menor de uma Basílica Maior em Roma, devido ao seu valor arquitetônico e histórico, além de espiritual.

Fontes: Artigos acadêmicos — Arte: Yasmin Marques

Por se tratar de uma zona constantemente retratada como perigosa, o Santuário também foi prejudicado por essa perspectiva. De acordo com a museóloga da igreja, Jussara Cestari, a imagem da Igreja da Penha era sempre colocada em reportagens de crimes nas redondezas, mesmo que eles não acontecessem na Igreja ou sequer perto dela. O que resultou na necessidade de solicitar que os veículos jornalísticos não utilizassem mais a imagem do Santuário nesse contexto.

História da Festa da Penha

A Festa da Penha, celebração religiosa mais antiga da cidade, é uma tradição inventada dentro da categoria de coesão social, ou seja, não é feita de forma rígida que só promova a religiosidade. A festa tem essa característica social, vide os grupos atuais que tocam e se apresentam nas festas mais recentes. Quando analisamos a história, o samba carioca está essencialmente ligado à festa da Penha, considerada por muitos o berço dele. O evento já recebeu sambistas como Donga, Pixinguinha, Sinhô, Heitor dos Prazeres e Caninha, que lançaram seus sucessos e “hits” de carnaval na festa, antes da era do rádio. O lugar também já foi um “centro obrigatório de lançamento de música para o carnaval”.

A linha do tempo em relação a aceitação da festa não é linear. Em 1816, Dom João VI tornou a Festa da Penha oficial por meio de um decreto; mais uma vez mostrando a relevância da igreja e conexão com a família real. Já em 1889, após a Proclamação da República, a festa passou a ser considerada uma manifestação promíscua. Grande parte do preconceito com a festa se dava pela maior adesão à celebração por parte da população negra.

História do Parque Shanghai

O Parque Shanghai é considerado o mais antigo em operação no Brasil, fundado no Estado de São Paulo em 1919 como parque itinerante. Ele está localizado, desde 1966, no bairro da Penha — aos pés do morro que abriga a Basílica de Nossa Senhora da Penha. Antes de se estabelecer no bairro, o parque passou por duas outras localidades na cidade do Rio: o antigo Aterro do Calabouço, quando ganhou um lugar fixo no RJ em 1934; e a Quinta da Boa Vista, quando a construção do Aeroporto Santos Dumont tomou o espaço na década de 1940.

Atualmente, o parque reúne 28 atrações e recebe, segundo Bernardo Waller, sócio do Parque Shanghai, cerca de 4 mil visitantes por mês. Contudo, por situar-se entre o Complexo do Alemão e o Complexo da Penha, dois dos maiores complexos de favelas da cidade, a falta de segurança e a criminalidade no entorno do Parque passaram a prejudicá-lo com o passar dos anos.

Fonte: Parque Shanghai — Arte: Angelica da Cunha

Conflito entre os dados do Parque

Em um trecho da edição de 5 de maio deste ano do telejornal Bom Dia Rio, a jornalista Lilian Ribeiro disse que o parque recebe, atualmente, até 6 mil visitantes por semana. Entretanto, na matéria do O Globo de mesma data, a informação é de que cerca de 4 mil pessoas visitam o parque mensalmente.

Enquanto esta matéria era escrita para o Portal Fonte, a notícia do Bom dia Rio foi tirada do ar, o que leva a entender que o dado poderia estar errado; enquanto o O Globo e demais veículos que divulgaram o outro dado permanecem com suas matérias disponíveis. Essa divergência surge por parte do próprio parque que confirma, em seu site oficial, o primeiro dado. Por outro lado, o sócio Bernardo Waller, em entrevista para o O Globo, confirma o dado de 4 mil visitantes por mês.

A funcionária do Parque Shanghai Taís Guimarães, que nos concedeu uma entrevista este mês, reiterou a quantidade de 4 a 5 mil frequentadores em meses considerados comuns. Em época de férias escolares e no mês das crianças, esse número pode chegar a 7 mil pessoas por mês.

A imagem mostra um dos brinquedos mais famosos do Parque Shanghai, chamado Enterprise. Em em formato de círculo, ele é colorido e contém diversas cadeiras em seu entorno, que flutuam no ar enquanto o brinquedo gira. A imagem representa bem os monumentos culturais da Penha, pois dele dá pra ver também a Igreja da Penha.
O brinquedo ‘Enterprise’ no Parque Shanghai, com a Igreja da Penha ao fundo — Foto: Angelica da Cunha

Diferença entre patrimônio e tombamento

O Parque Shanghai foi considerado patrimônio imaterial no dia 4 de maio deste ano, como afirma o documento do Diário Oficial do Rio de Janeiro. O tombamento da Igreja da Penha aconteceu em 1990 pelo IRPH (Instituto Rio Patrimônio da Humanidade). Mas qual é a diferença, na prática, entre ser tombado e ser considerado patrimônio imaterial?

O processo de tombamento de uma construção traz uma ideia de herança que com o tempo passou a configurar-se enquanto bem coletivo. Ou seja, a Igreja da Penha, assim como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, é tão importante para a história do Estado que precisa ser, coletivamente, reconhecida e prestigiada.

Já os patrimônios são formas de culturas e possuem uma relação intrínseca com o tempo na sua representação e maneira escolhida pelas sociedades para registrar e contar sua história. Ou seja, o Parque Shanghai, assim como o Bloco de Carnaval Cacique de Ramos, faz parte da identidade cultural carioca.

Fachada da Basílica Santuário de Nossa Senhora da Penha de França — Foto: Angelica da Cunha

Memória e valorização da Igreja e do Parque

Atualmente, o Parque Shanghai recebe visitantes de todas as idades. Segundo Taís, a memória do parque é preservada de forma afetiva: ela, seus pais e seus avós têm lembranças parecidas, que transcendem o espaço-tempo. Nos brinquedos, os mais novos se divertem com os mais velhos de forma a compartilhar um sentimento em comum por um parque que já foi e outro que ainda é. Hoje, Taís trabalha no parque e relata casos como esses diariamente nas histórias dos visitantes. O ponto turístico, entretanto, não está presente somente no imaginário dos que o aproveitaram na infância. Com mais de um século de existência, ele continua sendo ponto de encontro para pessoas que constroem novas memórias.

Em 2020, os eventos religiosos e culturais na Igreja da Penha foram suspensos devido à pandemia, mas a igreja demonstrou grande importância em sua função social. A instituição promoveu a arrecadação de alimentos para as comunidades que a cercam. Além disso, ela foi um ponto de vacinação contra a Covid-19 em 2021. A relevância social se estende até os dias atuais, visto que são comuns os eventos para a comunidade que dão acesso a dentistas, advogados, educadores físicos e atividades coletivas no pátio da igreja.

O trecho “Hoje é domingo e eu preciso ir à Penha” da música de Cartola retrata uma época em que o bairro era um dos protagonistas no lazer da cidade. Hoje, ainda que esse posto tenha sido perdido, a Penha se consolidou como anfitriã de dois espaços que, através do tempo, mantêm seu protagonismo.

Vídeo: Angelica da Cunha

Já conhecia esses grandes monumentos cariocas? Deixe nos comentários quais são as suas memórias favoritas na Igreja da Penha e no Parque Shanghai.

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As historias do futebol carioca que resistem na Zona Norte https://portalfonte.com/as-historias-do-futebol-carioca-que-resistem-na-zona-norte/ https://portalfonte.com/as-historias-do-futebol-carioca-que-resistem-na-zona-norte/#respond Thu, 25 Jun 2026 14:17:15 +0000 https://portalfonte.com/?p=1231 Autores:André Felipe Teixeira,João Pedro Xavier e Matheus Vinicius da Silva Contando a história do Bonsucesso, Olaria e Portuguesa mostrando a tradição, legados, marcas e conquistas para o futebol fluminense que hoje convivem com suas dificuldades mas nada que impede a imortalidade destes clubes. Fundado em 1 de Julho de 1915 O Olaria tem a honra […]

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Autores:André Felipe Teixeira,João Pedro Xavier e Matheus Vinicius da Silva

Contando a história do Bonsucesso, Olaria e Portuguesa mostrando a tradição, legados, marcas e conquistas para o futebol fluminense que hoje convivem com suas dificuldades mas nada que impede a imortalidade destes clubes.

Fundado em 1 de Julho de 1915 O Olaria tem a honra em ter em sua história nomes como o Garrincha (o anjo de pernas tortas) último clube em que o craque passou em 1972 e o Romário em 1979 revelado pelo Olaria saindo da Rua Bariri para brilhar pelo mundo e teve a passagem de Pedrinho idolo do Vasco da Gama que passou pelo azulão do bariri em 2011 e 2012.

O Olaria foi o primeiro campeão da serie C a antiga taça bronze no ano de 1981 com o técnico duque comandando a equipe da rua Bariri vencendo o time do Santo Amaro de Pernambuco por 5×2 no agregado vencendo o primeiro jogo por 4a1 na rua Bariri e no segundo jogo no estádio do arruda em Recife na casa do time adversário o Santo Amaro vence mas nada que impediu o Olaria ter sua maior conquista e seu único titulo nacional e conquistou o torneio inicio em 1960 no antigo e na época recém criado Estado da Guanabara em cima do Vasco da Gama pelo placar de 2a0 época que o torneio inicio realizava partidas em 40 minutos totais a cada 20 minutos e o campeonato foi realizado em um unico dia que foi na data de 17 de julho de 1960 no estadio do Maracanã com o time base Antoninho, Maurício, Sérgio e Jurandir; Nelson e Haroldo; Valter, Jaburu, Petit, Drumond e Da Silva. Técnico: Délio Neves.

Olaria AC – Primeiro campeão da Série C.
Em pé: Marcos, Serginho, Hilton, Paulo Ramos, Gilmar, Salvador, Pino, Toninho Barroso (Auxiliar Técnico), Júnior e Ricardo. Agachados: Orlando, Chiquinho, Leandro, Lulinha, Aurê e Nunes.

O Bonsucesso fundado em 12 de outubro de 1913 o leão da leopoldina teve o seu primeiro gol de bicicleta do craque Leonidas da Silva o diamante negro foi o inventor dessa habilidade imortal que inspirou muitos craques a fazerem este feito e o astro teve seu nome eternizado na sede do clube que passou de Estádio Vassallo Caruso para Estadio Leonidas da Silva além do goleiro Barbosa um dos maiores goleiros da historia do futebol brasileiro, O Bonsucesso o revelou o goleiro Carlos Miguel atualmente no Palmeiras e o meia Jean Lucas atualmente no Bahia revelado nas categorias de base um dos projetos sociais que o clube oferece além de o leão da Leopoldina é o maior campeão da serie A2 segunda divisão do campeonato carioca tendo sete títulos e conquistou a copa rio em 2019.

Bonsucesso é mais um que convive com dificuldades devido as mas gestões administradas pelo clube deixando o clube na quarta divisão do campeonato carioca mas com a nova gestão gerida pelo presidente George Joaquim e com apoio do presidente deliberativo Claudio Menezes entrevistado no documentário o clube obteve dois acessos consecutivos a subida para terceira divisão e para a segunda divisão onde disputa atualmente e graças também ao apoio da patrocinadora Loterj e da SAF instalada no clube.

Elenco do Bonsucesso comemorando o titulo da copa rio em 2019 apos vencer a portuguesa por 1 a 0 com gol de Denilson no Estadio Nilton Santos
Em 2011, após 18 anos na segundona, e depois de 27 anos do último título profissional na Segunda Divisão, retornou à elite do Campeonato Estadual, após vencer por 2 a 1, o Estácio de Sá Futebol Clube. Na última rodada, ao empatar com o Quissamã Futebol Clube, sagrou-se campeão estadual da Série B de 2011.

Já a Portuguesa da Ilha do Governador que foi fundada em 17 de dezembro de 1924 tem como legado a vitória madridista vencendo o Real Madri em um amistoso valido em pleno Santigo Bernabei em 4 de setembro de 1969 no placar de 2×1 com os dois gols de Miguel, logo no primeiro tempo e Planelles para o Real Madri considerado um dos grandes feitos da Portuguesa-RJ e não foi apenas os galáticos a vitima da Lusa não ,em 13 de agosto de 1976 torneio batizado de Torneio Octávio Pinto Guimarães em São Januário a Lusa bateu o Benfica pelo placar de 3×1 com gols de Moinhos marcando para o Benfica no primeiro tempo,e a Lusa busca a virada Carlinhos e Dinho logo primeiro tempo e no segundo tempo Alberdã fecha a conta para a Portuguesa assim o clube conseguindo estas façanhas históricas e a Lusa também teve a honra de ter tido o craque Vavá encerrando sua carreira gloriosa por la em 1969. Atualmente a lusa convive com uma boa gestão visando em buscar voos mais altos no futebol nacional pois esta Serie D do Campeonato Brasileiro deste 2017 quase subindo em 2023 perdendo a vaga para o Caxias do Sul-RS se mantendo na elite do futebol fluminense há 11 anos e conquistando quatro Copas Rio em 2000,2016,2023,2025.

Diário ABC da espanha destacando o feito da lusa.

Projetos Sociais Oferecidos por estes clubes

Videos na integra com a entrevista do Presidente delibativo do Bonsucesso-RJ Claudio Menezes que conta sobre os projetos sociais do Bonsucesso e sua vivencia com o clube

Entrevista com Pedro Oliveira Torcedor do Olaria que conta sua experiencia e paixao pelo clube e sobre a realidade enfrentada pelo clube

O Olaria e a Portuguesa possuem projetos sociais como o futebol solidario e clube com piscina e quadra esportiva para projetos de futsal,jiu jitsu,muay thai,natação e hidroginástica

Fontes:Jornal Sports,Jornal OGLOBO, Revista Placar,Jornal do Brasil e fontes oficiais do clube

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Da pacificação a megaoperação, RJ vive ciclo de políticas que ignoram educação https://portalfonte.com/da-pacificacao-a-megaoperacao-rj-vive-ciclo-de-politicas-que-ignoram-educacao/ https://portalfonte.com/da-pacificacao-a-megaoperacao-rj-vive-ciclo-de-politicas-que-ignoram-educacao/#respond Sat, 20 Jun 2026 23:35:33 +0000 https://portalfonte.com/?p=2176 Em 2010, as imagens que retratavam o processo de pacificação no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro rodam o mundo. Quinze anos separam a imagem da fuga de traficantes pela mata e a megaoperação, na mesma área, que culminou na morte de 120 pessoas na Serra da Misericórdia. Pela idade na ação, boa parte dos mortos eram crianças à época da pacificação. O que levou uma comunidade de crianças esperançosas a um novo ciclo de violência e perpetuação da cultura do tráfico nessas comunidades? O texto retrata que as dificuldades no acesso à educação persiste e o qualidade do aprendizado segue baixo.

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Dados mostram defasagem educacional e riscos frequentes na mobilidade urbana como fatores sociais complicadores na luta contra a evasão escolar em áreas dominadas pelo poder paralelo.
Por Jean Montes
Ver resumo

Em 2010, as imagens que retratavam o processo de pacificação no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro rodam o mundo. Quinze anos separam a imagem da fuga de traficantes pela mata e a megaoperação, na mesma área, que culminou na morte de 120 pessoas na Serra da Misericórdia. Pela idade na ação, boa parte dos mortos eram crianças à época da pacificação. O que levou uma comunidade de crianças esperançosas a um novo ciclo de violência e perpetuação da cultura do tráfico nessas comunidades? O texto retrata que as dificuldades no acesso à educação persiste e o qualidade do aprendizado segue baixo.

O Rio de Janeiro ocupou o debate público e as manchetes internacionais em 2010 e em 2025 por operações policiais em comunidades da Zona Norte da cidade. Há 16 anos, as imagens de traficantes fugindo por uma estrada sem asfalto feitas por helicóptero marcaram milhões de brasileiros que assistiam pela televisão e faziam ressurgir um sentimento furtado dos moradores do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro: esperança no futuro.

As imagens de dezenas de corpos enfileirados na Praça São Lucas, na Penha, eram o exato oposto do sonho da pacificação. Entre aquele 28 de novembro de 2010 e o recente 28 de outubro de 2025, o Rio de Janeiro mudou de governos pelo menos quatro vezes e a política de segurança pública viu o programa de pacificação ruir. O surgimento das megaoperações coordenadas nas comunidades deixou mortos em incursões no Jacarezinho, Penha e Alemão. 

O elemento em comum que uniu os diferentes governantes e as práticas de segurança foi a ausência de um programa de aprimoramento das escolas e programas de cidadania. De acordo com dados do CENSO 2022, a região tem proporcionalmente 6,5 estabelecimentos religiosos para cada estabelecimento educacional. Dados esses que são substancialmente maiores em comparação ao cenário macro nacional. Ao examinar individualmente as comunidades da região da Zona Norte do Rio de Janeiro, os dados mostram comunidades que possuem um ou nenhum estabelecimento escolar. Veja na infografia abaixo:

Infografia retrata quantidade de estabelecimentos por comunidade no Rio de Janeiro.
Caminhos Interrompidos

Com densidade populacional quase quatro vezes superior à média do estado do Rio, as comunidades da Penha e do Alemão concentram também o maior índice de escolas atingidas pelo que a UNICEF chama de “interrupção urbana”. São dias em que o trajeto de transporte ou vias públicas são as fechadas por episódios de violência que prejudicam o curso da vida letiva.

No documento “Percursos Interrompidos”, a UNICEF aponta que a Penha é o bairro mais atingido pelos episódios em todo o Rio de Janeiro, com larga vantagem para Jacarepaguá como segundo colocado. As principais causas são barricadas em ruas e operações policiais que causam trocas de tiros.

Flávia Zambrothi lecionando no seu colégio atual em Nova Iguaçu. Foto: Acervo Pessoal.

Flávia Zambrothi é professora concursada em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Antes, trabalhou com educação infantil em uma escola próxima a uma comunidade de Belford Roxo, também na Baixada. Ela conta que isso era comum também na escola em que trabalhava. Embora geograficamente afastados, a Zona Norte do Rio e a Baixada Fluminense sofrem com problemas similares como domínio do crime organizado, baixo orçamento para educação e frequentes episódios de interrupção na circulação urbana por questões de violência.

A professora relata que a escola em que trabalhava chegava a ser avisada de que poderia haver confronto para evitar a circulação de crianças no entorno. “Os traficantes avisavam a unidade para não abrir abrir. A escola nem era tão perto assim, mas praticamente todos os alunos vinham de lá”, relembra.

Infografia retrata quantidade de interrupções na mobilidade urbana no RJ.
Fonte: UNICEF

Episódios como esses ampliam a conjuntura de fatores sociais que afastam alunos da escola. De acordo com o UNICEF, cerca de 188 dias letivos entre 2023 e 2025 foram atingidos por algum evento externo de violência que prejudicou a circulação. A megaoperação de 2026 é um exemplo que causou a interrupção da circulação e o fechamento de vias públicas importantes como a Avenida Brasil. Até grandes universidades como UNISUAM, UERJ e UFRJ chegaram a suspender suas atividades nos dias seguintes.

Sem investimento em educação de qualidade

A nova política de segurança pública de operações não possui um planejamento específico para a educação das comunidades e foca na reconquista de territórios do poder paralelo. À época da pacificação, previa-se uma ação coordenada entre segurança pública, educação, cultura e cidadania para recuperar as comunidades. Prejudicado pela crise econômica do Estado e a alternância de poder no executivo, o projeto se desfez silenciosamente e não avançou em ações de cidadania. Em 2025, o governo do Rio gastou mais verba do orçamento em segurança (R$ 10,6 bilhões) do que em educação (R$ 9,9 bilhões), de acordo com dados do Portal da Transparência.

Renê Silva fala sobre escola na infância e trajeto interrompido.

Moradores dizem que existe uma oferta aceitável de escolas, mas reclamam da qualidade oferecida. Renê Silva, jornalista independente e criador do jornal Voz das Comunidades, diz lutar por uma educação integral e critica a ausência de um cronograma extracurricular. “Minha luta sobre educação é que as escolas tenham mais tempo de aula. Para que as crianças tenham menos tempo ocioso dentro das favelas e tenham outras atividades multidisciplinares para aprender de fato como projetar o futuro”, pontua durante evento educacional no Rio de Janeiro.

Renê fundou o Voz das Comunidades em 2005 em sala de aula. “Fiz parte de um projeto social dentro da escola em um jornal e uma rádio comunitária dentro do grêmio estudantil. Ali nasce o jornal”, conta o jornalista que colheu frutos do seu trabalho. Hoje, ele alimenta o discurso sobre a transformação social que a educação pode provocar nos jovens das comunidades.

Renê Silva
Divisão social e racial

Além do prejuízo social pela região afetada, há também o fator racial. De acordo com o Panorama das Favelas divulgado pelo CEPERJ, existem 600 mil jovens em faixa etária escolar vivendo em comunidades do Rio de Janeiro. O perfil demográfico dessas áreas, de acordo com o mesmo documento, é de que cerca de 70% dos moradores são autodeclarados pretos ou pardos. 

O impacto social é outro fator complicador em regiões mais vulneráveis. Flávia Zambrothi conta que se chocou ao constatar alguns cenários familiares de alunos da educação infantil: “Um aluno tinha uma dificuldade descomunal. Uma vez chamamos a mãe dele porque ele já estava no terceiro ano sem reconhecer coisas básicas. Quando conversamos, a mãezinha dele chorou e pediu desculpas porque também não sabia ler e não conseguia ajudar”.

Ela diz que a frequência não era problema, justamente por conta da alimentação oferecida pela escola. Mesmo assim, via um tom de agressividade incomum para alunos de cerca de 10 anos e discursos quase adultos. “Os alunos chegavam na segunda-feira falando sobre como tinha sido o baile no final de semana. Eles traziam muitos dos problemas de fora da escola para dentro”, recorda.

Imagem do antigo teleférico do Alemão, também desativado com o fim do programa de pacificação. Foto: Acervo pessoal
Qualidade das escolas

O Anuário Brasileiro da Educação Básica, produzido pela ONG Todos Pela Educação, analisou a situação das escolas públicas do Rio de Janeiro e constatou que, ao se formar, apenas 10,47% dos alunos se graduaram com aprendizado considerado adequado em matemática e português. A quantidade de alunos que se forma cai na mesma medida que a oferta educacional passa a ser maior do estado. A rede municipal abrange educação infantil e ensino fundamental, enquanto as escolas com ensino médio são, em grande maioria, estaduais.

O mesmo estudo também revela que mais da metade da rede pública do Rio de Janeiro não possui laboratório de ciências ou de informática. A defasagem escolar é considerada por especialistas como um fator crucial na equação sobre a evasão de alunos do ambiente educacional. Embora seja um dos estados com maior verba para a educação, o Rio de Janeiro é o penúltimo no ranking do Ideb sobre qualidade da educação. Ao analisar o cenário, o morador Paulo Cassiano comenta que as principais escolas ficam nas ruas principais, longe dos morros. Para ele, os demais moradores enfrentam dificuldades logísticas consideráveis para conseguir chegar as escolas todos os dias.

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Falhas no sistema ferroviário aprofundam desigualdade urbana no Rio https://portalfonte.com/falhas-no-sistema-ferroviario-aprofundam-desigualdade-urbana-no-rio/ https://portalfonte.com/falhas-no-sistema-ferroviario-aprofundam-desigualdade-urbana-no-rio/#respond Sat, 20 Jun 2026 13:44:35 +0000 https://portalfonte.com/?p=2147 Na Zona Norte, passageiros da SuperVia enfrentam atrasos, insegurança e estações sem acessibilidade no deslocamento diário A mobilidade urbana na Zona Norte do Rio de Janeiro depende diretamente do sistema ferroviário para conectar milhares de trabalhadores e estudantes ao Centro da capital e a municípios da Baixada Fluminense. Bairros como Ramos, Manguinhos e Bonsucesso estão […]

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Na Zona Norte, passageiros da SuperVia enfrentam atrasos, insegurança e estações sem acessibilidade no deslocamento diário

A mobilidade urbana na Zona Norte do Rio de Janeiro depende diretamente do sistema ferroviário para conectar milhares de trabalhadores e estudantes ao Centro da capital e a municípios da Baixada Fluminense.

Bairros como Ramos, Manguinhos e Bonsucesso estão entre os principais pontos de circulação dos ramais da SuperVia, tornando o trem um serviço essencial para a rotina da população. No entanto, problemas recorrentes de infraestrutura, acessibilidade e segurança têm afetado diariamente os passageiros que utilizam o sistema. Segundo dados da Agetransp, entre 2022 e 2024, 59% das escadas rolantes e 24% dos elevadores do sistema ferroviário apresentaram falhas, evidenciando a degradação da acessibilidade no transporte ferroviário do Rio de Janeiro.

Entre as estações mais movimentadas da região, Bonsucesso se destaca pela localização estratégica próxima à UNISUAM e por integrar o fluxo de moradores de comunidades como o Complexo do Alemão e a Maré. Apesar da importância para a mobilidade urbana da Zona Norte, a estação apresenta falhas estruturais que impactam diretamente a experiência dos usuários. Elevadores inoperantes, dificuldades de acesso às plataformas e a precarização do espaço evidenciam um cenário que ultrapassa transtornos operacionais e levanta discussões sobre o direito à mobilidade e à acessibilidade no transporte público do Rio de Janeiro.

A rotina marcada por obstáculos

A rotina dos passageiros da estação de Bonsucesso evidencia um problema que vai além dos atrasos ferroviários. Na prática, a precariedade da infraestrutura transforma o deslocamento diário em um percurso marcado por desgaste físico, insegurança e dificuldade de locomoção, principalmente para idosos, pessoas com deficiência e usuários com mobilidade reduzida.

Elevadores frequentemente inoperantes, escadas rolantes sem funcionamento e dificuldades de acesso às plataformas fazem parte da realidade enfrentada por quem depende da SuperVia na Zona Norte do Rio.

Usuária da estação de Bonsucesso, Ângela Lobos afirma que o transporte público deixou de representar apenas um meio de deslocamento e passou a afetar diretamente sua saúde física e emocional.

— O transporte público deixou de ser apenas um trajeto e passou a ser uma fonte diária de cansaço, dor e ansiedade. Tenham vergonha e consertem as escadas rolantes e os elevadores. A gente é idoso, não é atleta.

Acessibilidade além da estrutura básica

Para Patrícia, professora de pós-graduação e técnica de rugby em cadeira de rodas, a acessibilidade no transporte público ainda é tratada de forma insuficiente e limitada.

— Acessibilidade vai além de rampas: envolve elevadores funcionando, sinalização sonora, pisos táteis e espaço adequado para cadeiras de rodas. 

Segundo ela, embora existam garantias legais que assegurem o direito de ir e vir às pessoas com deficiência, a realidade observada nas estações está distante do que prevê a legislação brasileira.

— Embora a legislação brasileira garanta que o transporte público seja acessível para toda pessoa com deficiência, na prática essa realidade ainda está longe de ser cumprida.

Desigualdade que atravessa os trilhos

Além das barreiras físicas, especialistas destacam os impactos sociais causados pela precarização da mobilidade urbana nas regiões periféricas da cidade. Rafaela Mendes, especialista em geografia, avalia que os problemas enfrentados pelos passageiros da SuperVia refletem desigualdades históricas no planejamento urbano e na distribuição de investimentos públicos. 

— A falta de eficiência das estações e os problemas da SuperVia revelam, antes de tudo, um desinteresse das autoridades competentes.

Ela aponta ainda que os investimentos em infraestrutura não acontecem de maneira equilibrada entre os diferentes territórios da cidade. 

— O investimento em infraestrutura não é distribuído de forma equânime: algumas estações recebem grandes aportes, enquanto outras sequer foram pensadas para serem acessíveis. As periferias vivem uma segregação socioespacial profunda, marcada pela dificuldade de acesso e pela ausência de investimentos. Para a pesquisadora, as dificuldades enfrentadas diariamente pela população da Zona Norte aprofundam processos de exclusão social e segregação urbana.

O impacto na saúde e na qualidade de vida

O impacto da mobilidade precária também aparece na saúde da população. Uma pesquisa da Coppe/UFRJ aponta que 73% dos participantes afirmam sofrer prejuízos no bem-estar físico e mental durante os deslocamentos urbanos, relacionando o tempo excessivo de viagem, o desgaste físico e as condições inadequadas do transporte público ao aumento do estresse e do cansaço diário.

Procurada pela reportagem, a SuperVia informou, por meio de nota, que os elevadores e escadas rolantes da estação de Bonsucesso encontram-se atualmente operacionais. A concessionária também atribuiu parte dos problemas do sistema ferroviário a furtos, atos de vandalismo e impactos provocados por fortes chuvas, fatores que, segundo a empresa, comprometem o funcionamento dos equipamentos e exigem manutenções frequentes.

No entanto, a equipe de reportagem registrou, ao longo de semanas, vídeos que mostram elevadores fora de funcionamento na estação de Bonsucesso, além de relatos recorrentes de passageiros sobre dificuldades de acesso às plataformas. Os registros contradizem a normalidade apontada pela concessionária e reforçam as críticas dos usuários em relação à falta de acessibilidade no sistema ferroviário. Os problemas registrados na estação de Bonsucesso mostram que as falhas no sistema ferroviário vão além de questões pontuais de manutenção. Para passageiros que dependem diariamente do trem, a falta de acessibilidade e a instabilidade da infraestrutura impactam diretamente a mobilidade e a qualidade do deslocamento pela cidade. Em meio às reclamações frequentes e aos dados apresentados pelos órgãos responsáveis, a realidade das estações reforça os desafios enfrentados pelo transporte público ferroviário no Rio de Janeiro

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Quem não aparece nas redes, não vende https://portalfonte.com/quem-nao-aparece-nas-redes-nao-vende/ https://portalfonte.com/quem-nao-aparece-nas-redes-nao-vende/#respond Sat, 20 Jun 2026 13:43:05 +0000 https://portalfonte.com/?p=1205 O impacto das mídias sociais nos microempreendimentos gastronômicos da Zona Norte do Rio A gastronomia de rua faz parte do cotidiano suburbano. Barracas em esquinas, trailers próximos às estações, vendedores ambulantes e pequenos pontos de alimentação transforma calçadas em espaços de encontro e geração de renda. Mais do que vender comida, esses trabalhadores fazem da […]

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O impacto das mídias sociais nos microempreendimentos gastronômicos da Zona Norte do Rio

A gastronomia de rua faz parte do cotidiano suburbano. Barracas em esquinas, trailers próximos às estações, vendedores ambulantes e pequenos pontos de alimentação transforma calçadas em espaços de encontro e geração de renda. Mais do que vender comida, esses trabalhadores fazem da culinária uma forma de sobrevivência e identidade cultural.

Nos últimos anos, esse cenário passou a conviver com uma nova exigência: as mídias digitais. Em uma realidade em que o celular virou ferramenta de trabalho, microempreendedores passaram a disputar clientes não apenas nas ruas, mas também nas redes sociais. Hoje, vender comida não depende apenas do sabor ou da localização. Fotos, vídeos curtos, promoções e conteúdos publicados diariamente passaram a fazer parte da rotina de quem trabalha no setor. Além disso, consumidores valorizam a experiência completa, desde o atendimento até a apresentação do produto.

A Zona Norte concentra cerca de 35% dos MEIs de alimentação da capital. O setor alimentício representa aproximadamente 15% das novas formalizações de microempreendedores no estado. Um dos polos mais fortes da região é Madureira, que em março de 2026 registrou 60 novas licenças para cerca de 120 ambulantes trabalharem regularizados nos arredores do Mercadão.

Mas os números não mostram sozinhos a realidade das ruas. Por trás das estatísticas, existem histórias marcadas pelo desemprego, pela tentativa de independência financeira e pela adaptação constante a um mercado cada vez mais competitivo, inclusive no ambiente digital. A busca pelo trabalho autônomo também representa uma possibilidade de rotina mais flexível e oportunidade de crescimento.

Empreender por necessidade

A confeiteira Ana Carolina, de 36 anos, começou a empreender após o nascimento do filho. O interesse pela confeitaria surgiu quando decidiu produzir o próprio bolo de aniversário da criança. O que começou como delivery na cozinha de casa se transformou em uma loja em São Cristóvão, atendendo cerca de 130 a 150 clientes por dia.

Imagem: Enzo Francisco / Tainá Lopes

A gente procura fazer a diferença no produto oferecido. Comparar nossa loja com grandes redes é diferente da nossa proposta. – afirmou a proprietária do “Ana Sabores”, com entusiasmo. Ela também destacou as dificuldades no início do negócio, como fornecedores, taxas elevadas, falta de conhecimento sobre o público e prejuízos causados pela dificuldade de prever a demanda. Para a confeiteira, a presença no Instagram influencia diretamente nas vendas:

Eu acredito que o Instagram traz muita visibilidade. Quando a gente não posta com frequência, a venda cai. O cliente gosta de acompanhar os bastidores da produção e não só ver o produto pronto. – explicou a confeiteira.

Apesar de alguns casos de sucesso, muitos empreendedores não conseguem manter os negócios. Segundo dados do Mapa de Empresas, cerca de 523 microempreendedores encerraram atividades em março deste ano por não conseguirem sustentar os custos.

Outra realidade é a da cozinheira Adriana Santos, de 49 anos. Ela começou a cozinhar ainda jovem por necessidade e, mais tarde, decidiu vender comidas em festas juninas. Depois, fez um curso profissionalizante de culinária para melhorar os produtos, mas encontrou dificuldades para estruturar o negócio.

Adriana vendeu churrasquinhos, açaís e pastéis, porém afirma que não conseguia obter lucro ao fechar as contas. Um dos principais desafios foi a falta de conhecimento em redes sociais.

Imagem: Instagram / Reprodução

– Minha dificuldade com rede social é total. Eu não sei fazer vídeo, tirar foto bonita ou editar publicação. Então sempre preciso pedir ajuda para outras pessoas. – desabafou Adriana.

Para auxiliar microempreendedores, o governo federal disponibiliza o programa Impulsa MEI, com videoaulas sobre marketing digital, empreendedorismo e finanças. Cursos gratuitos e pagos também têm se tornado ferramentas importantes para quem deseja crescer no mercado gastronômico. Além disso podemos citar o Centro Universitário Augusto Motta, que oferece curso gastronômico gratuito por meio do vestibular solidário.

Delivery amplia possibilidades para pequenos negócios

Outro exemplo é o da empreendedora Camila Campos, que encontrou na gastronomia uma alternativa após perder o emprego formal. Mãe de uma filha pequena, ela criou a “Quitutes da Miloca”, negócio que funciona há sete meses.

Camila apostou no delivery por meio da plataforma 99Food, o que ajudou no crescimento das vendas. Segundo ela, a chegada da empresa ampliou as possibilidades para pequenos comerciantes, antes muito dependentes do iFood. Plataformas como a Rappi também aumentaram o alcance dos negócios locais.

Imagem: Acervo Pessoal / Reprodução

– Em sete meses, a gente já expandiu. A 99Food entrou no mercado com muita força, investindo em propaganda, promoções e fidelização de clientes. – relatou.

A ideia da Quitutes da Miloca surgiu após Camila perceber que batata recheada era um produto pouco vendido na região onde morava. O nome do negócio une o apelido da filha, Milah, com a palavra “quitutes”, de origem africana, representando sua identidade como mulher preta e a intenção de expandir o cardápio futuramente.

Influenciadores são os novos instrumentos de marketing

Além do Instagram e dos aplicativos de delivery, plataformas como o YouTube também passaram a ajudar pequenos comerciantes. Criadores de conteúdo produzem vídeos ensinando estratégias de divulgação e crescimento para microempreendedores gastronômicos.

Em um cenário onde a disputa pela atenção acontece em segundos, influenciadores digitais passaram a ocupar espaço importante na divulgação de pequenos negócios. Na Zona Norte, vídeos de comida, avaliações e indicações feitas por criadores de conteúdo locais conseguem aumentar o movimento de barraquinhas e pequenos restaurantes quase imediatamente.

Entre fotos, vídeos curtos e aplicativos de entrega, os microempreendedores gastronômicos da Zona Norte passaram a entender que presença digital deixou de ser diferencial e se tornou necessidade. Em meio às dificuldades financeiras e à concorrência crescente, as redes sociais passaram a funcionar como vitrine, ferramenta de trabalho e oportunidade de crescimento para quem vive da comida de rua.

Texto e revisão: Jennifer Oliveira e Maycon Barbosa
Reportagens e multimídia: Enzo Francisco e Tainá Lopes
Dados: João Cleber de Souza e João Pedro de Carvalho

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Violência institucional contra crianças atípicas é subnotificada no Brasil https://portalfonte.com/violencia-institucional-contra-criancas-atipicas-permanece-subnotificada-no-brasil/ https://portalfonte.com/violencia-institucional-contra-criancas-atipicas-permanece-subnotificada-no-brasil/#respond Sat, 20 Jun 2026 13:41:03 +0000 https://portalfonte.com/?p=1850 Escolas ampliam inclusão mas ainda falham na proteção de crianças atípicas. A ausência de indicadores estatísticos consolidados camufla uma das faces mais complexas da rotina de ensino: a violência silenciosa contra crianças atípicas. Essa dinâmica nem sempre deixa marcas físicas ou gera denúncias formais; manifesta-se, majoritariamente, por meio do isolamento em sala de aula, da […]

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Escolas ampliam inclusão mas ainda falham na proteção de crianças atípicas.

A ausência de indicadores estatísticos consolidados camufla uma das faces mais complexas da rotina de ensino: a violência silenciosa contra crianças atípicas. Essa dinâmica nem sempre deixa marcas físicas ou gera denúncias formais; manifesta-se, majoritariamente, por meio do isolamento em sala de aula, da exclusão de atividades coletivas, da falta de suporte adequado e de práticas capacitistas.


Embora o debate sobre inclusão tenha avançado nos últimos anos, O Mapa Autismo 2026 revela que o diagnóstico do transtorno ocorre, em média, apenas aos 11 anos de idade. Diante desse cenário de identificação tardia, pesquisadores apontam que a adaptação das instituições de ensino permanece desigual, expondo falhas estruturais na formação de profissionais, no acompanhamento pedagógico e na identificação de situações de negligência.

Reprodução: Acervo Ponto de Vista


Dados da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro mostram um crescimento contínuo no número de alunos da Educação Especial matriculados na rede municipal. Em 2021, eram 18 mil estudantes incluídos. O número passou para 21 mil em 2022, 24 mil em 2023, 28 mil em 2024, 32 mil em 2025 e chegou a 33 mil em 2026. Desse total, 23,9 mil possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).


Segundo a Secretaria, a expansão do atendimento foi acompanhada pelo aumento da estrutura de suporte. Atualmente, a rede municipal conta com 10 mil profissionais dedicados exclusivamente à Educação Especial, entre professores de atendimento especializado e agentes de apoio. O município também destaca a atuação do Instituto Municipal Helena Antipoff (IHA), responsável pela formação continuada de profissionais, produção de recursos pedagógicos e acompanhamento de alunos nas unidades escolares.

Apesar do avanço nos números, profissionais da rede de ensino afirmam que ainda existe uma lacuna entre inclusão formal e participação efetiva dentro das escolas. A professora especializada em cuidados com crianças atípicas, Ana Eduarda, avalia que parte dos profissionais da educação não possui preparo suficiente para lidar com o autismo e outras neurodivergências.


— Quando um profissional tem um pensamento capacitista, ele define toda a vivência da criança em sala — afirma.


De acordo com ela, algumas práticas ainda naturalizadas podem configurar formas de violência institucional, principalmente quando a criança é excluída de atividades por uma percepção prévia de incapacidade.


A discussão também envolve a chamada “violência simbólica”, conceito analisado por uma pesquisa da UNIFEBE, de 2025, que aponta o isolamento de crianças atípicas em salas separadas e a negativa de mediadores como formas normalizadas de exclusão dentro do ambiente escolar.


Carolina Baggia, mãe de uma criança atípica que já sofreu com a violência na escola, relata que a exclusão não ocorre apenas no contexto pedagógico, mas também em espaços de convivência, como refeitórios, filas e atividades coletivas. Segundo ela, muitas escolas particulares ainda não oferecem profissionais mediadores, concentrando o acompanhamento exclusivamente no professor da turma.

Reprodução: Acervo Ponto de Vista


A Secretaria Municipal de Educação afirma que o acompanhamento individual não é necessário para todos os estudantes da Educação Especial. De acordo com a pasta, a necessidade de mediador exclusivo é definida por avaliação psicopedagógica da equipe escolar, baseada em observação contínua do aluno e apoio de laudos médicos. O objetivo, segundo o órgão, é garantir suporte adequado sem comprometer a autonomia da criança.

Além do acompanhamento pedagógico, a rede municipal utiliza o Plano Educacional Individualizado (PEI), instrumento que registra objetivos, estratégias e avaliações do desenvolvimento dos estudantes ao longo do ano letivo.


Para a assistente social Fátima Pires, que atua em um instituto especializado no atendimento de crianças atípicas, a diferença entre instituições preparadas e espaços sem estrutura adequada aparece no cotidiano escolar.


— Uma instituição que não está pronta tende a tratar todo mundo igual, sem considerar as diferenças. Isso acaba excluindo ou causando sofrimento, mesmo sem intenção — explica.


O obstáculo para ações de fiscalização e prevenção reside nos critérios de notificação do governo federal. Atualmente, os sistemas oficiais utilizam predominantemente um conceito médico de deficiência voltado a casos severos e visíveis, o que deixa parte significativa dos estudantes neurodivergentes fora das estatísticas.


Sem métricas institucionais que mapeiem o ambiente escolar, episódios de agressão, isolamento, contenção física e negligência correm o risco de ser tratados apenas como problemas disciplinares ou falhas pedagógicas.


Segundo a Nota Técnica nº 54 do Ipea, publicada em 2021, os dados oficiais sobre violência contra pessoas com deficiência ainda são limitados e subestimam os casos reais, especialmente entre crianças e idosos. Essa fragilidade nos registros é agravada pela demora na identificação clínica das neurodivergências. Quando a confirmação do diagnóstico ocorre tardiamente, muitas crianças atravessam toda a primeira infância sem acesso às garantias previstas pela Lei Berenice Piana (Lei 12.764/12). Sem o laudo ou a identificação formal, esse público permanece invisível para as estatísticas e desassistido pelas políticas específicas de proteção.


Fátima Pires afirma que a falta de preparo institucional impacta diretamente a identificação de sinais de sofrimento, principalmente em crianças com dificuldades de comunicação verbal.


— A escuta não é só o que a criança fala. Muitas vezes ela se comunica de outras formas, como no comportamento e nas reações ao ambiente — diz.


Diante do cenário exposto, o desafio central deixa de ser a garantia do acesso às salas de aula e passa a ser a sustentabilidade da permanência. A superação dessa violência silenciosa exige uma transição urgente do acolhimento burocrático para a fiscalização ativa no ambiente institucional. Na prática, a resolução desse problema passa pela criação de comissões de mediação locais que incluam a participação direta das famílias na rotina escolar, além da aplicação de questionários periódicos e anônimos para mapear o clima na comunidade. Também se mostra necessária a presença de equipes multidisciplinares, com psicólogos e terapeutas ocupacionais que circulem pelas unidades para prestar suporte direto aos professores e funcionários em momentos críticos, como o intervalo e as refeições. Sem essa revisão prática na rotina e sem mecanismos que validem a percepção das famílias e das equipes técnicas, a inclusão corre o risco de se consolidar apenas no papel, mantendo milhares de estudantes atípicos à margem do desenvolvimento pedagógico e social.

Acervo: Ponto de Vista

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Baixada Fluminense sofre com enchentes e negligência na infraestrutura https://portalfonte.com/baixada-fluminense-sofre-com-enchentes-enquanto-infraestrutura-segue-negligenciada/ https://portalfonte.com/baixada-fluminense-sofre-com-enchentes-enquanto-infraestrutura-segue-negligenciada/#respond Sat, 20 Jun 2026 13:39:02 +0000 https://portalfonte.com/?p=1923 Falta de saneamento e alagamentos agravam a desigualdade na Baixada Fluminense Nascer no Rio de Janeiro significa conviver desde cedo com problemas urbanos que fazem parte da realidade da população. Porém, quanto mais periférica é a região, maiores costumam ser os impactos causados pela falta de infraestrutura e pela desigualdade social. Em Duque de Caxias, […]

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Falta de saneamento e alagamentos agravam a desigualdade na Baixada Fluminense

Nascer no Rio de Janeiro significa conviver desde cedo com problemas urbanos que fazem parte da realidade da população. Porém, quanto mais periférica é a região, maiores costumam ser os impactos causados pela falta de infraestrutura e pela desigualdade social. Em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense, as fortes chuvas são um dos maiores exemplos dessa situação. Alagamentos, rios poluídos, lixo acumulado nas ruas e falta de saneamento básico fazem parte da rotina de muitos moradores, que convivem frequentemente com prejuízos, dificuldade de locomoção e riscos à saúde.


As enchentes em Duque de Caxias não acontecem apenas por causa da chuva. Elas também são consequência de anos de crescimento desordenado, ocupação irregular de áreas próximas aos rios, falta de planejamento urbano e ausência de investimentos suficientes em infraestrutura. Em muitos bairros periféricos, moradores vivem com medo de perder móveis, eletrodomésticos e até mesmo suas casas durante temporais mais fortes.


Outro problema que contribui diretamente para os alagamentos é o descarte irregular de lixo. Sacolas plásticas, garrafas PET e outros resíduos acabam entupindo bueiros e canais, impedindo o escoamento da água da chuva. Em áreas onde o saneamento já é precário, o problema se torna ainda maior, principalmente porque muitas pessoas acabam tendo contato direto com água contaminada.


A situação de Duque de Caxias está diretamente ligada à bacia dos rios Iguaçu e Sarapuí, considerada uma das áreas mais críticas do estado do Rio de Janeiro em relação às enchentes. Antes das primeiras intervenções feitas pelo poder público, cerca de 300 mil pessoas eram afetadas pelas inundações. Mesmo após obras de drenagem e contenção, aproximadamente 180 mil pessoas ainda vivem em áreas de risco.

Gráfico de pessoas afetadas pela enchente

Os rios Sarapuí e Iguaçu atravessam áreas bastante povoadas e sofreram muita degradação ambiental ao longo dos anos. A ocupação intensa das margens dos rios provocou perda de mata ciliar e aumentou os riscos ambientais na região. Além disso, várias áreas de Duque de Caxias ficam abaixo do nível dos rios, dificultando o escoamento da água durante períodos de chuva forte.


Os casos mais graves costumam acontecer no verão, período em que as chuvas ficam mais intensas por influência da Zona de Convergência do Atlântico Sul. Em fevereiro de 2026, Duque de Caxias registrou cerca de 124,6 milímetros de chuva em apenas 24 horas, além de aproximadamente 700 milímetros acumulados em 19 dias. O temporal afetou 26 bairros do município, incluindo Pilar, Jardim Primavera, Saracuruna e Pantanal.

As enchentes não são um problema recente. Em janeiro de 1997, uma das maiores tragédias da região deixou aproximadamente 30 mil pessoas desalojadas. Entre 2010 e 2022, o estado do Rio de Janeiro registrou 752 desastres naturais, sendo enchentes e alagamentos as principais causas de mortes e prejuízos.


Por trás desses números existem histórias de moradores que convivem diariamente com a falta de infraestrutura e com o abandono do poder público. Um dos entrevistados para esta reportagem foi Josué Gonçalves, morador do bairro Pilar há mais de 35 anos. Segundo ele, a falta de saneamento básico continua sendo um dos principais problemas da região.

– Aqui nós não temos saneamento, é muito pouco esgoto, aqui é tudo entupido – disse Josué Gonçalves. O morador também comentou sobre a desigualdade existente entre bairros periféricos e outras áreas da cidade. – Tudo é desigual porque aqui só quem ganha é eles, a gente não ganha nada – afirmou.


Josué relembrou enchentes anteriores e relatou situações vividas pela população. – Eu já saí com água no pescoço, vi gente perder tudo – continuou.


Carlos Augusto, líder comunitário do Jardim Panamá e fundador da associação de moradores do bairro, afirmou que algumas áreas sofrem constantemente com enchentes devido à falta de obras estruturais.

– Toda vez que chove, ali tudo enche – afirmou Carlos Augusto. Ele também destacou que parte da população contribui para agravar o problema ao descartar lixo de maneira irregular.

Gráfico de Investismentos feitos ao longo do ano


A posição dos moradores deixa claro como as enchentes estão diretamente ligadas à desigualdade social. Enquanto algumas áreas possuem melhor infraestrutura urbana, bairros periféricos continuam sofrendo com problemas históricos relacionados à drenagem, saneamento e coleta de lixo.


Além dos prejuízos materiais, as enchentes também causam impactos na saúde pública. O contato com água contaminada aumenta os riscos de doenças como leptospirose, hepatite e infecções intestinais. Muitas famílias convivem com lama, esgoto e mau cheiro após os períodos de chuva intensa.


Outro problema enfrentado pela população é a dificuldade de locomoção durante os alagamentos. Ruas ficam interditadas, ônibus deixam de circular e muitos trabalhadores acabam não conseguindo chegar ao trabalho. Em bairros periféricos, onde grande parte da população já enfrenta dificuldades financeiras, perder dias de trabalho representa ainda mais problemas.


Na tentativa de diminuir os impactos das enchentes, surgiu na década de 1990 o Projeto Iguaçu. A proposta incluía obras de drenagem, recuperação de rios e urbanização de áreas próximas aos canais. Em 2007, o projeto foi reformulado e passou a abranger seis municípios da Baixada Fluminense. O plano previa 25 intervenções e investimento inicial de aproximadamente 270 milhões de reais.


Apesar disso, as obras sofreram atrasos e paralisações ao longo dos anos. Até 2014, quando a primeira fase foi parcialmente concluída, os gastos já ultrapassavam 450 milhões de reais. Mesmo assim, várias obras permaneceram inacabadas.


Em 2024, após novos episódios de enchentes, um novo projeto de recuperação foi apresentado com valor estimado em 733 milhões de reais. Somando os investimentos anteriores, os gastos públicos relacionados ao controle de enchentes na região já ultrapassam 1 bilhão de reais.

Além das obras estruturais, especialistas também apontam a importância da conscientização ambiental e da participação das universidades nesse debate. Durante entrevista para esta reportagem, o professor de arquitetura e urbanismo Fábio Bruno destacou o papel das universidades na formação de cidadãos mais conscientes.

– O papel da universidade é fundamental para a criação de uma sociedade mais igualitária – disse o professor. Segundo Fábio Bruno, as universidades não servem apenas para formar profissionais, mas também cidadãos conscientes sobre problemas sociais e urbanos. – Você não está somente ensinando uma profissão, mas ajudando a formar aquele aluno como ser humano – afirmou.


Tentamos entrar em contato com a Prefeitura Municipal de Duque de Caxias, porém, não obtivemos resposta.


A situação enfrentada por moradores de Duque de Caxias mostra como enchentes, lixo urbano, poluição dos rios e falta de saneamento estão diretamente ligados à desigualdade social. Enquanto parte da população vive em áreas com melhor infraestrutura, moradores de bairros periféricos continuam convivendo com riscos constantes, prejuízos e abandono.
Mesmo após décadas de obras e bilhões investidos em projetos de drenagem e recuperação, as enchentes continuam fazendo parte da realidade da Baixada Fluminense. O problema mostra que não basta apenas realizar obras emergenciais após tragédias. Também é necessário investir na conscientização dos moradores, em saneamento, preservação ambiental, planejamento urbano e políticas públicas capazes de melhorar a qualidade de vida da população.

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