Por Júlia Rangel – Estudante de Publicidade e Propaganda
A Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, guarda as cicatrizes de um dos períodos mais marcantes da história brasileira. O endereço, que abrigou o DOI-Codi no Rio de Janeiro, agora recebe proteção oficial para que sua estrutura permaneça como um testemunho dos fatos ocorridos ali. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) atende ao pedido do Ministério Público Federal (MPF) e formaliza o tombamento provisório do edifício. A medida assegura que o imóvel não sofra reformas ou demolição.
O local funcionou nos fundos do 1º Batalhão de Polícia do Exército e foi o principal centro de repressão durante a ditadura militar (1964-1985). Segundo as investigações do MPF, o prédio passou por modificações arquitetônicas planejadas para a prática de crimes: portas de acesso exclusivo evitavam o registro de presos e celas como a “Maracanã” serviam para o isolamento e a tortura. O documento oficial do MPF aponta que o sequestro e o assassinato foram métodos comuns de operação na unidade.

A importância histórica do quartel também se reflete no impacto psicológico causado em ícones da cultura nacional. Em dezembro de 1968, os músicos Caetano Veloso e seu amigo Gilberto Gil ocuparam celas solitárias neste batalhão. Em seu livro Verdade Tropical, Caetano cita a fala de um criminoso sobre a perda de contato com a realidade: “Às vezes eu acho que nasci aqui, que sempre vivi aqui, que o mundo lá fora, tudo o que eu vivi, só existe na minha cabeça”. O músico esclarece que, embora a frase pertença a outra pessoa, ele experimentou exatamente a mesma sensação de irrealidade durante o período em que esteve preso no quartel da Tijuca. Além dos artistas, o prédio marca o desaparecimento de Rubens Paiva, história retratada no filme “Ainda Estou Aqui”.
Para o Ministério Público Federal, o tombamento provisório garante que a estrutura física não se perca com o tempo. O objetivo é transformar o antigo centro de tortura em um espaço de educação e reflexão sobre os direitos humanos. Conforme destaca o MPF em seu comunicado, a preservação do local representa uma reparação simbólica às vítimas e assegura que as futuras gerações compreendam a história para que o autoritarismo nunca mais se repita.
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