Por Beatriz Soares – Estudantes de Jornalismo
Projeto promove autonomia, igualdade e segurança às mulheres.
Guaratiba é considerado por muitos como um lugar tranquilo de se morar. A vida pacata, rodeada de natureza com praias e manguezais, e o custo de vida acessível, fazem com que esse bairro, na zona Oeste do Rio de Janeiro, seja um local procurado por muitos cariocas. É nesse contexto, em um lugar com paz e tranquilidade, em que existe um projeto social que atrai mulheres em busca de independência financeira e qualidade de vida.
Na antiga Fundação Xuxa Meneghel, hoje Fundação Angelica Goulart, em homenagem à educadora e assistente social que dedicou 22 anos de sua vida à instituição, é que mora o projeto Elas de Guaratiba. Tendo surgido como parte da agenda de Vida Adulta proposta pela Fundação, o projeto entendeu o contexto das mulheres da região: muitas enfrentavam insegurança financeira e, apesar de seu potencial para empreender, talento e criatividade, não tinham recursos ou estrutura para dar vida a seu empreendimento.
Coordenadora do Elas de Guaratiba, Bárbara Menezes explica como atender as necessidades sociais da área se fez importante:
“Minha relação com o projeto começou através do envolvimento com as ações da Fundação e com o trabalho social no território. Vendo de perto a realidade das mulheres atendidas e pensando no impacto que o projeto poderia ter, passei a contribuir com o desenvolvimento das atividades, com a organização das ações e com o fortalecimento da proposta de geração de renda e autonomia”.
Três ações fazem parte do programa: coletivo de moda, oficina de beleza e feira de empreendedoras com os membros dos projetos. Moda e beleza, tópicos tão comuns ao público feminino servem, nesse contexto, como um grande divisor de águas na vida de muitas mulheres.

Uma dessas iniciativas de capacitação é a promoção de oficinas de beleza. Com uma carga horária de 160 horas, 30 jovens e adultas são instruídas a práticas de tranças e maquiagem, além de aprenderem táticas de gestão financeira e networking. Esse projeto gera empregos e insere as mulheres no mercado de trabalho, o que, por conseguinte, traz renda e independência financeira através do empreendedorismo. Para além da geração de renda, as oficinas recuperam a autoestima de mulheres que, diante a tantos desafios na vida, não conseguem se dedicar ao autocuidado.
Já o coletivo de moda é uma iniciativa voltada à confecção de itens de moda e lar. Contando com 30 mulheres em sua turma, suas oficinas de conteúdo e produção são inspiradas na cultura local. O ciclo de criação conta com várias etapas, entre elas pesquisa, a própria criação em si, produção e a divulgação e comercialização dos itens confeccionados — esses são vendidos em feiras também oferecidas pela organização. O lucro obtido é dividido igualmente entre as participantes e o bazar, e as mulheres interessadas em prosseguir como parte do coletivo recebem incentivo institucional para seguirem trabalhando no programa.
Para Jessica Wuiner, educadora das oficinas de produção têxtil, cada história tem valor dentro do projeto:
“Quando eu olho para elas, eu vejo a história de sucesso de cada mulher desse coletivo, que acontece de formas diferentes, porque cada uma chega com a sua própria caminhada, os seus desafios e os seus sonhos”. A cumplicidade, apoio, acolhimento e troca entre as integrantes também é importante. “Elas estão sempre fortalecendo umas às outras, impulsionando, e é o que de fato faz diferença no mundo real hoje, no mundo em que a gente vive. A gente aqui não compete entre si, mas se ajuda impulsionando umas às outras. E mesmo com os desafios, porque sempre vão ter, elas conseguem chegar e colocar o seu produto como igual e constroem esse caminho junto com a gente”.
As confecções fazem parte da feira das empreendedoras, que une não apenas as participantes do Elas de Guaratiba, mas outras mulheres do território que também produzem moda e artesanato. Antes mesmo que houvessem feiras organizadas pela Fundação Angélica Goulart, mulheres de Guaratiba já se organizavam e realizavam feiras de forma independente. Atualmente, a instituição oferece infraestrutura para as realizadoras, alugando barracas, divulgando o evento e garantindo a elas 100% do lucro obtido por suas vendas. Isso, mais uma vez, é um exemplo do compromisso do projeto com a sociedade em termos de geração de renda e emancipação econômica.
Bárbara comenta sobre o grande impacto que o Elas de Guaratiba possui. “Ao longo do processo, elas (integrantes do projeto) começam a entender que empreender não é apenas vender ou gerar renda. É também aprender a se cuidar, se valorizar e reconhecer a própria força. Quando uma mulher entende o poder que possui, ela passa a enxergar novas possibilidades para sua vida e para sua família”.
Ao total, 90 mulheres são beneficiadas por esses três programas. Com a geração de renda, elas conquistam independência e liberdade para quebrar ciclos de pobreza e violência — a conquista da autoconfiança pelas participantes é outro ponto essencial do projeto. A comunidade é favorecida e beneficiada por iniciativas como essa, que para além da geração de trabalho, promovem desenvolvimento sustentável e igualdade em oportunidades.
“Sempre me marca perceber a transformação dessas mulheres no cuidado consigo mesmas. Na maioria das vezes, são mães solo, provedoras e responsáveis por sustentar não apenas a casa, mas também emocionalmente suas famílias […] No meu entendimento, o maior impacto não está somente no empreendedorismo em si, mas na transformação pessoal. É fazer com que elas percebam o quanto são capazes, fortes e merecedoras de ocupar espaços, sonhar e realizar.”
A expansão do Elas de Guaratiba é uma das projeções para seu futuro. Os planos incluem ampliar o alcance do projeto, atendendo mais mulheres e fortalecendo ainda mais as atividades realizadas nos coletivos produtivos. A estruturação de um calendário mais extenso de feiras de empreendedoras é um ponto importante: para o programa, quanto maior sua abrangência, maior sua relevância em âmbito social. Consolidar-se como referência em geração de empregos e renda e independência financeira das mulheres é um triunfo para a organização.
Leia também: Fundação Angélica Goulart recebe feira de empreendedorismo feminino em Guaratiba



