Programa desenvolvido pelo Instituto Angélica Goulart traz protagonismo da sociedade no cuidado ecológico
Por Beatriz Soares – Estudante de Jornalismo
Sustentabilidade é um tópico altamente abordado na atualidade. O debate sobre a necessidade de preservação ambiental e manejo de recursos naturais cresce em vista da busca por redução da poluição, uso de fontes de energia limpa e preservação da biodiversidade. Para além do lado ambiental, questões como direitos humanos, equidade e melhorias na saúde e qualidade de vida da população também são levadas em conta.
No bairro de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro, são desenvolvidos diversos projetos relacionados ao lado socioambiental. Promover iniciativas que eduquem a população a respeito de ecologia, preservação ambiental e sustentabilidade se fazem necessários. Um dos projetos atuantes de grande relevância em âmbito local e que se expande para outros territórios é o Práticas e Atitudes Sustentáveis, realizado pela Fundação Angélica Goulart.
Surgido em 2015, esse projeto tem como objetivo a promoção de educação popular no âmbito ambiental, com troca de conhecimentos e visões sobre as condições socioambientais do território, considerando, entre outras questões, o racismo ambiental. Outros pontos a serem considerados são a educação sobre economia circular e a mitigação das questões climáticas oriundas do efeito estufa, resultado da decomposição incorreta de resíduos em aterros sanitários.

O Práticas e Atitudes Sustentáveis promove a preservação do meio ambiente por meio de várias iniciativas. São exemplos a recaptação de água da chuva, pontos de coleta de óleo de cozinha, cultivo de hortas, cursos de jardinagem e agroecologia. O maior destaque do programa, porém, é o uso das composteiras de cilindro.
De coleta a captação de recursos: o papel das composteiras
Há três pátios destinados às composteiras no quintal da Fundação Angélica Goulart. O resíduo verde gerado pelo espaço da instituição e o resíduo alimentar dos arredores é de aproximadamente 1 tonelada. Essa coleta é feita de forma comunitária pela população local. Com a gestão correta desses materiais, há redução significativa do envio deles a aterros sanitários, diminuindo a produção de gases do efeito estufa e o fortalecimento de educação ambiental obtido pelo engajamento da população nessa prática.
Atualmente, a gestão de resíduos os transforma em composto orgânico que é comercializado, gerando retorno e recursos para a realização das atividades da instituição. A parte que não é comercializada é reinserida ao solo, melhorando sua qualidade e fortalecendo o ciclo de nutrientes. Anualmente, ocorre, em diferentes partes da cidade, o Encontro de Composteiros, reunindo trocas de saberes sobre a prática.
Tendo iniciado as atividades com crianças, estimulando o cuidado com o meio ambiente através de cuidados com resíduos verdes e alimentares trazido por eles em baldinhos para serem depositados nas composteiras da Instituição, hoje o programa tem parceria com o Colégio Estadual Hebe Camargo, também em Pedra de Guaratiba, no qual são coletados semanalmente, tanto pelas crianças quanto pela cozinha da escola e parceiros da comunidade, cerca de 250 quilos de material. Em outra parceria, com a escolinha de futebol do instituto Sieelos, no Recreio dos Bandeirantes, 200 crianças recolhem resíduos em baldinhos, que geram cerca de 900 quilos de material recolhido mensalmente.
Uma importante parceria do projeto é a ONG Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Ela promove o combate à insegurança alimentar e a vulnerabilidade social, oferecendo dignidade alimentar à população. Em conjunto ao Práticas e Atitudes Sustentáveis, a ONG une seu propósito à preservação ambiental com estratégias como o reaproveitamento integral de alimentos e o combate ao desperdício. Ações promovidas pelo programa, como as hortas comunitárias, cultivam alimentos que são distribuídos para participantes delas, para pessoas em condições de insegurança alimentar, bem como complemento para as refeições da Fundação Angélica Goulart.
Paulo Monteiro, coordenador do projeto, destaca a importância do programa de sustentabilidade. “O projeto fortalece não apenas a Instituição, mas também o território, pois mostra às pessoas o quanto é importante cuidarmos dos nossos resíduos e o que podemos ganhar, não apenas em recursos, mas em fortalecimento do conhecimento”. Só no ano de 2025, cerca de 60 toneladas de resíduos orgânicos foram reciclados.
Paulo reforça que a relevância conquistada pelo Práticas e Atitudes Sustentáveis possibilitou a replicação do trabalho em outros espaços, além de ter conquistado parcerias com outras instituições e expandido a metodologia da gestão de resíduos para outros municípios do Rio de Janeiro, e para outros estados do Brasil.
Um desafio enfrentando pelo Práticas e Atitudes Sustentáveis é a razão entre a alta produção de compostos orgânicos e o baixo número de vendas dele no mercado. A instituição atualmente busca o registro do produto para que ele possa chegar a produtores orgânicos que se beneficiam dele e expandir ainda mais seu alcance. Mesmo que ainda não possua o registro oficialmente, que deve ser aprovado depois de pesquisas em universidades e pela EMBRAPA (Empresa Brasileira de Agropecuária), a instituição produz em torno de 25 toneladas de composto pronto por ano, e comercializou entre 9 e 10 toneladas de composto para parceiros como Ação da Cidadania e UERJ em 2025.
Em relação ao futuro do projeto, Paulo destaca o desejo de que políticas públicas e grandes empresas relacionadas a sustentabilidade incluam, invistam e incentivem o Práticas e Atitudes Sustentáveis. “Isso ajuda a potencializar nossa gestão de resíduos, a termos uma equipe maior e melhor estrutura de compostagem”, o coordenador cita. O objetivo é a expandir o alcance do programa para um território maior através da geração de recursos, de modo que as condições de trabalho e produção de composto orgânico possibilitem transformar o Práticas em um projeto autossuficiente.
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