Igreja da Penha e Parque Shanghai enquanto pontos turísticos da Zona Norte do Rio de Janeiro
Por Angelica da Cunha e Yasmin Marques — Rio de Janeiro
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- Apesar de ser lembrado pela violência ao redor, o bairro da Penha apresenta diversos objetos culturais e históricos que devem ser valorizados;
- A Igreja da Penha e o Parque Shanghai são reconhecidos mundialmente e são muito importantes para a preservação da memória do bairro;
- A Igreja tinha relação próxima com a família real e recebeu o título de Santuário em 1966 e de Basílica em 2016;
- O Parque Shanghai passou por outras duas localidades no Rio antes de chegar na Penha;
- Ambos os monumentos tiveram suas imagens afetadas pela criminalidade nas proximidades e se tornaram “mirante do crime”;
- A memória da Penha é mantida de forma afetiva, pelas histórias que pessoas de diferentes gerações compartilham entre si.
“Uma camisa e um terno usado
— “Festa da Penha”, Cartola e Assobert
Alguém me empresta
Hoje é domingo
E eu preciso ir à festa
Não brincarei, quero fazer uma oração
Pedir à santa padroeira proteção
Entre os amigos encontrarei algum que tenha
Hoje é domingo e eu preciso ir à Penha”
Quando Cartola e Assobert falavam sobre ir à Penha, nos anos 60, a celebração religiosa era a mais importante da cidade do Rio de Janeiro. Décadas depois, embora a forma de se viver tenha mudado, a Igreja da Penha e o Parque Shanghai se mantêm presentes no dia a dia e na memória afetiva dos moradores da Penha e da Zona Norte do Rio de Janeiro.
O que une esses dois elementos é a história e a memória da população de um bairro que costuma ser representado exclusivamente com violência. A Penha é complexa e seus dois principais pontos turísticos carregam um enredo que poucos bairros da cidade do Rio têm. Para entender como esses espaços continuam presentes no cotidiano da região, é preciso voltar à história de cada um deles.
História do nome “Penha”
O bairro da Penha, cujo nome está diretamente ligado à Igreja da Penha, passou a ser um representante do que hoje compreende-se como subúrbio carioca. Segundo o que é chamado de fato-lenda, o capitão português Balthazar de Abreu Cardoso, ao subir o monte rochoso em 1653, se deparou com uma cobra, e rogou à Nossa Senhora. Imediatamente um lagarto lutou contra a serpente e salvou sua vida. Em agradecimento, Baltazar mandou construir uma ermida no alto do penhasco, que passou a atrair cada vez mais devotos. As notícias do milagre se espalharam e a santa passou a ser associada ao local. E com o tempo, a devoção à Nossa Senhora da Penha de França — título que vem de uma serra na região de Salamanca, na Espanha — se consolidou e acabou dando o nome tanto à igreja quanto ao bairro que cresceu ao redor.
Dentro da capela principal e na extensão do pátio, como se chama o espaço de transição entre o primeiro bondinho e a capela, estão presentes a cobra e o lagarto próximos à Nossa Senhora, o que legitima o fato-lenda.

História da Igreja da Penha
A relevância da Igreja da Penha desde sua fundação ocasionou encontros importantes. A Irmandade tinha uma relação próxima com a família real e a Princesa Isabel chegou a visitar a Igreja em 1888, conforme registrado no livro de visitantes que faz parte do acervo em exposição no Museu da Irmandade.
O título de Santuário veio em 1966, mas o processo se iniciou já em 1905; o que confere à igreja certo status dentro da estrutura clerical, sendo um ponto de adoração para os fiéis em peregrinação no Brasil e no mundo. A igreja, porém, já era considerada Santuário antes mesmo do Vaticano conceder seu nome. Em 2016, a Igreja se tornou Basílica Menor de uma Basílica Maior em Roma, devido ao seu valor arquitetônico e histórico, além de espiritual.

Por se tratar de uma zona constantemente retratada como perigosa, o Santuário também foi prejudicado por essa perspectiva. De acordo com a museóloga da igreja, Jussara Cestari, a imagem da Igreja da Penha era sempre colocada em reportagens de crimes nas redondezas, mesmo que eles não acontecessem na Igreja ou sequer perto dela. O que resultou na necessidade de solicitar que os veículos jornalísticos não utilizassem mais a imagem do Santuário nesse contexto.
História da Festa da Penha
A Festa da Penha, celebração religiosa mais antiga da cidade, é uma tradição inventada dentro da categoria de coesão social, ou seja, não é feita de forma rígida que só promova a religiosidade. A festa tem essa característica social, vide os grupos atuais que tocam e se apresentam nas festas mais recentes. Quando analisamos a história, o samba carioca está essencialmente ligado à festa da Penha, considerada por muitos o berço dele. O evento já recebeu sambistas como Donga, Pixinguinha, Sinhô, Heitor dos Prazeres e Caninha, que lançaram seus sucessos e “hits” de carnaval na festa, antes da era do rádio. O lugar também já foi um “centro obrigatório de lançamento de música para o carnaval”.


A linha do tempo em relação a aceitação da festa não é linear. Em 1816, Dom João VI tornou a Festa da Penha oficial por meio de um decreto; mais uma vez mostrando a relevância da igreja e conexão com a família real. Já em 1889, após a Proclamação da República, a festa passou a ser considerada uma manifestação promíscua. Grande parte do preconceito com a festa se dava pela maior adesão à celebração por parte da população negra.
História do Parque Shanghai
O Parque Shanghai é considerado o mais antigo em operação no Brasil, fundado no Estado de São Paulo em 1919 como parque itinerante. Ele está localizado, desde 1966, no bairro da Penha — aos pés do morro que abriga a Basílica de Nossa Senhora da Penha. Antes de se estabelecer no bairro, o parque passou por duas outras localidades na cidade do Rio: o antigo Aterro do Calabouço, quando ganhou um lugar fixo no RJ em 1934; e a Quinta da Boa Vista, quando a construção do Aeroporto Santos Dumont tomou o espaço na década de 1940.
Atualmente, o parque reúne 28 atrações e recebe, segundo Bernardo Waller, sócio do Parque Shanghai, cerca de 4 mil visitantes por mês. Contudo, por situar-se entre o Complexo do Alemão e o Complexo da Penha, dois dos maiores complexos de favelas da cidade, a falta de segurança e a criminalidade no entorno do Parque passaram a prejudicá-lo com o passar dos anos.
Conflito entre os dados do Parque
Em um trecho da edição de 5 de maio deste ano do telejornal Bom Dia Rio, a jornalista Lilian Ribeiro disse que o parque recebe, atualmente, até 6 mil visitantes por semana. Entretanto, na matéria do O Globo de mesma data, a informação é de que cerca de 4 mil pessoas visitam o parque mensalmente.
Enquanto esta matéria era escrita para o Portal Fonte, a notícia do Bom dia Rio foi tirada do ar, o que leva a entender que o dado poderia estar errado; enquanto o O Globo e demais veículos que divulgaram o outro dado permanecem com suas matérias disponíveis. Essa divergência surge por parte do próprio parque que confirma, em seu site oficial, o primeiro dado. Por outro lado, o sócio Bernardo Waller, em entrevista para o O Globo, confirma o dado de 4 mil visitantes por mês.
A funcionária do Parque Shanghai Taís Guimarães, que nos concedeu uma entrevista este mês, reiterou a quantidade de 4 a 5 mil frequentadores em meses considerados comuns. Em época de férias escolares e no mês das crianças, esse número pode chegar a 7 mil pessoas por mês.

Diferença entre patrimônio e tombamento
O Parque Shanghai foi considerado patrimônio imaterial no dia 4 de maio deste ano, como afirma o documento do Diário Oficial do Rio de Janeiro. O tombamento da Igreja da Penha aconteceu em 1990 pelo IRPH (Instituto Rio Patrimônio da Humanidade). Mas qual é a diferença, na prática, entre ser tombado e ser considerado patrimônio imaterial?
O processo de tombamento de uma construção traz uma ideia de herança que com o tempo passou a configurar-se enquanto bem coletivo. Ou seja, a Igreja da Penha, assim como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, é tão importante para a história do Estado que precisa ser, coletivamente, reconhecida e prestigiada.
Já os patrimônios são formas de culturas e possuem uma relação intrínseca com o tempo na sua representação e maneira escolhida pelas sociedades para registrar e contar sua história. Ou seja, o Parque Shanghai, assim como o Bloco de Carnaval Cacique de Ramos, faz parte da identidade cultural carioca.

Memória e valorização da Igreja e do Parque
Atualmente, o Parque Shanghai recebe visitantes de todas as idades. Segundo Taís, a memória do parque é preservada de forma afetiva: ela, seus pais e seus avós têm lembranças parecidas, que transcendem o espaço-tempo. Nos brinquedos, os mais novos se divertem com os mais velhos de forma a compartilhar um sentimento em comum por um parque que já foi e outro que ainda é. Hoje, Taís trabalha no parque e relata casos como esses diariamente nas histórias dos visitantes. O ponto turístico, entretanto, não está presente somente no imaginário dos que o aproveitaram na infância. Com mais de um século de existência, ele continua sendo ponto de encontro para pessoas que constroem novas memórias.
Em 2020, os eventos religiosos e culturais na Igreja da Penha foram suspensos devido à pandemia, mas a igreja demonstrou grande importância em sua função social. A instituição promoveu a arrecadação de alimentos para as comunidades que a cercam. Além disso, ela foi um ponto de vacinação contra a Covid-19 em 2021. A relevância social se estende até os dias atuais, visto que são comuns os eventos para a comunidade que dão acesso a dentistas, advogados, educadores físicos e atividades coletivas no pátio da igreja.
O trecho “Hoje é domingo e eu preciso ir à Penha” da música de Cartola retrata uma época em que o bairro era um dos protagonistas no lazer da cidade. Hoje, ainda que esse posto tenha sido perdido, a Penha se consolidou como anfitriã de dois espaços que, através do tempo, mantêm seu protagonismo.
Já conhecia esses grandes monumentos cariocas? Deixe nos comentários quais são as suas memórias favoritas na Igreja da Penha e no Parque Shanghai.



