Diretrizes de propriedade intelectual restringem o uso comercial de marcas, imagens e expressões ligadas ao torneio por empresas não patrocinadora.
Por Júlia Rangel Estudante de Publicidade e Propaganda
Quando a Copa do Mundo de 2026 ainda era apenas expectativa, grandes marcas já haviam começado a produzir conteúdos relacionados ao torneio. O movimento mostra que, para o mercado da comunicação, a Copa começa muito antes do apito inicial. Mas junto com a oportunidade surge uma dúvida comum entre empresas, criadores de conteúdo e profissionais da área: até onde é possível usar referências ao evento sem infringir as regras da FIFA?
As Diretrizes de Propriedade Intelectual da entidade estabelecem limites claros para o uso de símbolos, nomes e elementos visuais da competição. Ignorar essas regras pode gerar notificações e até disputas judiciais. Para quem trabalha com comunicação, entender esses limites é tão importante quanto desenvolver uma campanha criativa.
Porque essas regras existem?
Os patrocinadores oficiais investem milhões para associar suas marcas ao torneio. Em troca, recebem direitos exclusivos de uso de diversos ativos ligados à competição. É justamente essa exclusividade que a FIFA busca proteger por meio das regras de propriedade intelectual. Nesse contexto surge o chamado marketing de emboscada, prática em que empresas tentam se associar a um evento sem possuir autorização oficial. O objetivo é aproveitar a visibilidade gerada pela competição sem arcar com os custos de patrocínio. Por isso, apenas empresas e organizações autorizadas pela FIFA podem utilizar oficialmente determinados elementos da Copa em ações comerciais.
Uso pessoal e uso comercial: a diferença que muda tudo
Para torcedores e usuários comuns das redes sociais, as regras costumam ser mais flexíveis. Compartilhar conteúdos sobre os jogos, utilizar hashtags relacionadas ao torneio e comentar as partidas em perfis pessoais geralmente não representa problema, desde que não exista finalidade comercial. A situação muda quando há interesse de promoção de marca, venda de produtos ou prestação de serviços. Empreendedores, social medias, designers, influenciadores e empresas precisam ter atenção redobrada. Utilizar elementos protegidos pela FIFA em anúncios, campanhas, promoções ou conteúdos patrocinados pode caracterizar infração, mesmo quando a intenção é apenas aproveitar o clima do evento.
O que não pode ser usado por marcas não autorizadas
Ativos visuais e termos protegidos
Entre os elementos protegidos estão o emblema oficial da competição, os logotipos das cidades-sede, a imagem do troféu, o mascote, o pôster oficial e a tipografia desenvolvida exclusivamente para o torneio. Também existem restrições relacionadas a expressões e denominações oficiais da competição. Pequenas adaptações ou alterações nesses elementos não garantem que seu uso seja permitido. Se a comunicação gerar associação indevida com a Copa ou sugerir vínculo oficial, ainda pode haver infração.
Em promoções e ações de marketing
Sorteios de ingressos sem autorização, campanhas que sugiram patrocínio oficial inexistente e promoções que utilizem elementos protegidos da competição estão entre as práticas que podem gerar notificações ou sanções. A regra geral é simples: se a ação comercial cria a impressão de que existe uma relação oficial com a Copa do Mundo sem autorização da FIFA, há risco de infração.
Quando até os grandes erraram
Casos de marketing de emboscada já marcaram diferentes edições da Copa do Mundo e ajudam a entender por que a FIFA adota uma postura rígida em relação ao tema.
Casos que marcaram a discussão sobre marketing de emboscada
O marketing de emboscada não é um fenômeno recente. Ao longo da história das Copas do Mundo, diversas marcas encontraram formas de se associar ao evento sem possuir patrocínio oficial, o que ajudou a intensificar o debate sobre exclusividade comercial e proteção de marcas.
Na Copa do Mundo de 1994, a Brahma protagonizou um dos casos mais conhecidos de marketing de emboscada no Brasil. Na época, a marca utilizava o slogan “Número 1” e patrocinava diversos jogadores da seleção brasileira, entre eles Romário, Bebeto, Raí, Zinho, Jorginho e Ronaldo. Após a conquista do tetracampeonato, vários atletas apareceram comemorando com o dedo indicador levantado, gesto associado à campanha da cervejaria. Embora não fosse patrocinadora oficial da seleção brasileira, a Brahma conseguiu vincular sua imagem a um dos momentos mais marcantes da história do futebol nacional. O episódio se tornou um dos exemplos mais conhecidos de marketing de emboscada no país e passou a ser frequentemente citado em discussões sobre exclusividade comercial e direitos de patrocínio em grandes eventos esportivos.
Embora algumas ações de marketing de emboscada sejam lembradas pela criatividade e pela repercussão alcançada, a estratégia também envolve riscos. De acordo com artigo publicado no JusBrasil, campanhas desse tipo podem gerar questionamentos relacionados à concorrência desleal e ao uso indevido de marcas protegidas, dependendo da forma como são executadas. O texto destaca que o limite entre uma ação criativa e uma associação indevida pode ser bastante sutil, exigindo cautela de empresas que desejam aproveitar a visibilidade de grandes eventos esportivos.
O que é Permitido?
Apesar das restrições, empresas não precisam ficar completamente afastadas do assunto. A FIFA permite que marcas trabalhem temas relacionados ao universo do futebol de forma genérica, sem utilizar elementos protegidos da competição. Expressões como “torcida”, “dia de jogo”, “golaço”, “futebol” e referências às seleções nacionais podem ser utilizadas, desde que não sugiram vínculo oficial com o torneio.
Na prática, diferentes segmentos podem adaptar a temática ao seu contexto:
Restaurantes e bares podem criar cardápios inspirados no clima das partidas e decorar seus espaços com bandeiras dos países participantes.
Academias e estúdios podem desenvolver campanhas relacionadas ao esporte, desempenho físico e superação. Até mesmo aulas temáticas.
Lojas de roupas podem apostar em coleções inspiradas nas cores das seleções e no universo do futebol.
Clínicas e consultórios podem produzir conteúdos sobre saúde, alimentação e hábitos durante os dias de jogos.
Mais do que uma questão jurídica
A Copa do Mundo de 2026 deve movimentar campanhas, conteúdos e estratégias de comunicação em todo o mundo. Para profissionais da área, compreender as regras que envolvem propriedade intelectual é uma forma de atuar com mais segurança e responsabilidade.
Em um cenário em que marcas disputam atenção em tempo real, conhecer os limites entre participação e associação indevida ao evento se tornou parte do trabalho de quem atua com comunicação. Mais do que evitar problemas jurídicos, compreender essas regras ajuda profissionais e empresas a desenvolver estratégias criativas sem ultrapassar os direitos protegidos pela FIFA.
Antes de publicar campanhas relacionadas a grandes eventos esportivos, o ideal é verificar as diretrizes oficiais e avaliar se a comunicação pode gerar associação indevida com a competição.
Imagem destaque: reprodução Instagram/Meta CBF(@brasil)



