De baixo para cima: a potência comunitária que transforma o Viaduto de Madureira

Entre cultura, empreendedorismo e acolhimento, o Viaduto Negrão de Lima abriga iniciativas que fortalecem a identidade suburbana e geram impacto social para centenas de famílias.

Debaixo do concreto do Viaduto Negrão de Lima, em Madureira, pulsa um dos maiores símbolos da cultura suburbana carioca. Muito além de uma estrutura viária inaugurada nos anos 1960 para ligar regiões da Zona Norte, o espaço se transformou, ao longo das décadas, em território de resistência cultural, encontro e pertencimento para milhares de pessoas.

Conhecido nacionalmente pelo tradicional Baile Charme de Madureira, patrimônio cultural do Rio de Janeiro, o viaduto reúne semanalmente pessoas de diferentes gerações em celebrações marcadas pela música black, dança e ocupação coletiva do espaço urbano. Criado há mais de 30 anos, o baile ajudou a consolidar Madureira como um importante centro da cultura negra carioca, atraindo visitantes de diferentes regiões da cidade e até repercussão internacional. Em 2025, quando completou 35 anos de existência, o Baile Charme voltou a ganhar destaque ao ser citado pelo jornal norte-americano The New York Times como um dos principais símbolos da cultura negra carioca. O evento, reconhecido como patrimônio imaterial da cidade desde 2013, reúne cerca de 5 mil pessoas a cada edição, já serviu de cenário para produções televisivas e ajudou a projetar Madureira para além das fronteiras do Rio de Janeiro.

Mas reduzir o Viaduto Negrão de Lima apenas ao charme é ignorar a diversidade cultural que ocupa o local. Atualmente, o espaço também abriga rodas de samba, batalhas de rima, apresentações de jongo, feiras independentes e brechós populares, funcionando como um grande polo cultural a céu aberto. Em um contexto de desigualdade histórica na distribuição de investimentos culturais entre centro e periferia, o viaduto representa a força das produções culturais suburbanas e periféricas.

O debate sobre investimentos em espaços urbanos permanece atual. Em 2025, um estudo da Confederação Nacional da Indústria estimou que 72,2% dos investimentos em infraestrutura no país seriam realizados pela iniciativa privada, evidenciando a crescente participação desse setor na transformação dos espaços urbanos brasileiros.

Do acolhimento à criação da ONG Colo de Mãe

Entre as iniciativas que encontraram abrigo sob o viaduto está a ONG Colo de Mãe. A organização nasceu a partir da trajetória de sua fundadora, Dailva Basílio, mulher nordestina, quilombola e mãe solo que migrou para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Trabalhando como camelô em Madureira, Dailva enfrentou inúmeras dificuldades enquanto criava os filhos sozinha.

“Ela trabalhava com um filho no canguru na frente e o outro no canguru atrás”, relembra uma das representantes da ONG. Foi nesse cotidiano, marcado pela luta pela sobrevivência, que ela passou a perceber a ausência de redes de apoio para mulheres em situação de vulnerabilidade. Durante as madrugadas de trabalho nas ruas de Madureira, Dailva presenciou histórias de abandono, violência e perda. Viu mães sem estrutura para criar seus filhos, crianças desamparadas e famílias atravessadas pela violência urbana. Algumas dessas crianças chegaram a ser acolhidas por ela antes mesmo da formalização da instituição.

Quando conseguiu estabilizar sua vida, decidiu criar um espaço voltado ao acolhimento de mulheres, mães solo e famílias. O nome “Colo de Mãe” surgiu por sugestão de sua própria filha. Segundo a entrevistada, o nome representa “o colo que a Dailva nunca teve e o colo que ela deu para tantas crianças que acolheu ao longo da vida”.

Quando a necessidade vira oportunidade

A atuação da ONG começou oferecendo orientação e encaminhamento para políticas públicas, direcionando mulheres e famílias para serviços de assistência e cobrando a efetivação de seus direitos. Com o tempo, novas demandas surgiram a partir do próprio território, mulheres empreendedoras que trabalhavam com moda sustentável e vendiam peças pela internet utilizavam a Praça das Mães como ponto de entrega para seus clientes. O grande movimento fazia com que muitas perdessem vendas porque compradores e expositores não conseguiam se encontrar.

Foi dessa necessidade que surgiu a Feira Colo de Mãe, hoje considerada o principal projeto da organização. Realizada aos sábados sob o Viaduto Negrão de Lima, a feira reúne mais de 200 mulheres e se consolidou como uma importante estratégia de geração de renda por meio da moda sustentável.

Além de oferecer espaço para comercialização dos produtos, a ONG passou a investir na capacitação das expositoras, promovendo oficinas e palestras sobre empreendedorismo, precificação, divulgação nas redes sociais e atendimento ao cliente. “Aprender a precificar, aprender a postar, aprender a divulgar e aprender a se portar diante do cliente fortalece essas mulheres”, afirma a entrevistada. Para muitas famílias, a renda obtida na feira representa o sustento mensal e a principal fonte de alimentação dentro de casa.

Uma rede construída pela comunidade

A Feira Colo de Mãe, além de representar uma oportunidade de geração de renda para centenas de mulheres, também é a principal responsável pela manutenção das atividades da própria instituição. Diferentemente de muitas organizações do terceiro setor, a ONG não recebe incentivos financeiros permanentes de órgãos públicos ou empresas privadas.

Segundo Elaine, o funcionamento da organização é sustentado pela própria dinâmica construída coletivamente no território. Parte dos recursos vem da comercialização de alimentos preparados pelas integrantes da ONG durante os eventos realizados aos sábados sob o viaduto. Outra fonte de arrecadação é a contribuição paga pelas expositoras para a utilização das barracas da feira, valor destinado à manutenção da estrutura necessária para a realização das atividades e à continuidade dos projetos desenvolvidos pela instituição.

Embora não recebam apoio financeiro direto, as ações da ONG contam com incentivos pontuais por meio da doação de materiais e produtos oferecidos por comerciantes, parceiros e membros da comunidade. Em eventos específicos, empresas e estabelecimentos locais contribuem com bebidas, alimentos e outros recursos necessários para a realização das atividades. “As pessoas ajudam com aquilo que podem oferecer”, resume a entrevistada.

Um território de resistência cultural

A necessidade de ampliar esse trabalho levou à inauguração da sede física da ONG, em 22 de setembro de 2025. No local, são oferecidos cursos e oficinas voltados não apenas para as empreendedoras da feira, mas também para mulheres das comunidades do entorno de Madureira. Entre as atividades estão aulas de informática, oficinas de confeitaria em parceria com o Instituto Gourmet, cursos de design de sobrancelhas e oficinas de estamparia artesanal.

Apesar dos impactos positivos, a ausência de incentivos financeiros permanentes limita a ampliação das ações desenvolvidas pela instituição. Segundo a entrevistada, recursos estáveis permitiriam atender um número ainda maior de famílias e complementar as doações recebidas com itens que raramente chegam por meio das campanhas solidárias.

“Se tivéssemos um fundo em caixa, conseguiríamos comprar itens que normalmente não chegam nas doações, como óleo, achocolatado e pó de café”, explica. Embora a ONG receba alimentos provenientes de campanhas realizadas por grandes instituições, a demanda frequentemente supera a capacidade de atendimento.

A história do espaço do Viaduto acompanha também as transformações urbanas do Rio de Janeiro. Construído em um período de expansão viária da cidade, atravessou décadas de mudanças sociais, econômicas e políticas. Ao mesmo tempo em que grandes projetos urbanos frequentemente alteraram dinâmicas de bairros populares e impactaram moradores da Zona Norte, espaços como o Negrão de Lima passaram a ser apropriados pela população como forma de resistência, convivência e preservação da memória local.

Nos últimos anos, iniciativas da Prefeitura e projetos de valorização cultural voltados para Madureira reforçaram o reconhecimento da região como um importante território cultural da cidade. Apesar disso, frequentadores e produtores ainda apontam desafios relacionados à infraestrutura, segurança e preservação das atividades independentes que acontecem no local. Entre essas iniciativas estão projetos de requalificação urbana que, segundo estimativas da Prefeitura do Rio, podem gerar até R$ 1,5 bilhão em impactos econômicos por meio de investimentos, atividades culturais e dinamização dos espaços públicos.

De baixo para cima

Para muitos moradores, o Viaduto de Madureira vai além de um ponto de passagem: é um símbolo de identidade coletiva. Debaixo de sua estrutura, diferentes manifestações culturais coexistem e mantêm viva uma tradição construída pela própria população suburbana, que transforma o espaço urbano em território de memória, arte e resistência cultural.

A trajetória da ONG Colo de Mãe revela que essa resistência também se manifesta no cuidado. Entre feiras, oficinas, acolhimento e geração de renda, o viaduto deixa de ser apenas concreto e torna-se espaço de transformação social. Como resume a entrevistada, a principal mensagem deixada pela instituição é que as pessoas “nunca devem desistir, precisam se reinventar e se ressignificar, porque às vezes é difícil, mas não é impossível”. Em Madureira, a potência comunitária segue sendo construída de baixo para cima.

Redação Gestão e Tratamento de Dados
Redação Gestão e Tratamento de Dados
Matéria produzida pelos alunos do módulo Gestão e Tratamento de Dados, da Escola de Comunicação da Unisuam.

Related Articles

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

SIGA NOSSAS REDES

CONHEÇA O NHD

VENHA PARA A UNISUAM

CONHEÇA NOSSOS CURSOS:

JORNALISMO - PUBLICIDADE - MARKETING

POSTAGENS RECENTES