Por Thalita Vieira, Gabriela Araújo e João Franco – OlharAstuto RJ
“Eu entrei em um lugar e a passageira não avisou que era comunidade. O lugar, não indicava que era comunidade, não tinha uma barricada ou algo na parede escrito ser de alguma facção, por exemplo. Ao entrar no lugar, um cara me abordou botando a arma na minha cara e falando: ´Tu tá maluco? Tira a porr@ do capacete!”
- João Pedro, 20 anos, motorista de aplicativo
“Eu já acordei assustado às seis da manhã. Tiro ‘comendo’ solto.”
- Matheus, Morador do Chapadão, 30 anos

Esses relatos são muito comuns no cotidiano. A violência sempre ocupou um espaço na vida dos cariocas. O que antes surgia apenas em situações extremas agora acompanha trajetos simples do dia a dia, como ir ao trabalho, estudar ou caminhar pelas ruas. No dia a dia, a insegurança ultrapassa os impactos físicos e passa a atingir também a saúde mental da população, alterando hábitos, comportamentos e a forma como as pessoas enxergam a própria realidade.
“O Brasil nunca foi um país pacífico.” A frase, retirada do artigo Violência que afeta a saúde de Maria Cecília de Souza Minayo, resume parte da história brasileira. Desde o início de sua formação, o país foi marcado por conflitos e episódios de violência: a escravidão indígena e negra, disputas territoriais e conflitos sociais que, em muitos casos, persistem até hoje.
Atualmente, a sensação de insegurança tornou-se cada vez mais presente no cotidiano da população. Não há como sair de casa sem se atentar às precauções que passaram a fazer parte da rotina de muitos cariocas:
• Se a bolsa está bem próxima ao corpo;
• Se o celular está escondido no fundo da bolsa;
• Colocar o dinheiro dentro da calça ou do sutiã;
• E estar sempre atento às pessoas ao seu redor.
Pequenos hábitos deixaram de ser apenas cuidados e passaram a representar tentativas diárias de prevenção. Ainda assim, todo cuidado parece insuficiente. Basta um momento de distração para que alguém se torne vítima de assalto, agressão ou até situações mais graves. De acordo com O G1, houve uma queda nas mortes violentas em comparação ao ano de 2024 – quase 11% e nas mortes causadas por policiais em 39,5% em comparação a 2024.
A própria personalidade do carioca é frequentemente descrita como “agressiva” ou de “temperamento forte”, interpretação que muitas vezes ignora os contextos sociais e a realidade vivida por cada indivíduo. Diante disso, surge uma questão: seria a violência um dos fatores capazes de influenciar comportamentos da população carioca?
“Por que será que somos assim? De temperamento forte?“. Esse é o questionamento da Márcia Cristina, de 40 anos, moradora da Abolição. Para além de um traço cultural, alguns especialistas apontam que a exposição contínua à violência impacta diretamente a saúde mental das pessoas.
Pesquisas realizadas em territórios marcados pela violência urbana mostram que os impactos vão muito além do medo momentâneo. Dados do projeto Construindo Pontes (2019), realizado pela Redes da Maré, revelam que pessoas expostas a situações de violência armada apresentam sintomas específicos para a saúde física e emocional. Entre os entrevistados que vivenciaram episódios de tiroteio, 44% relataram prejuízos à saúde mental e 29% apontaram impactos na saúde física. Fora os efeitos emocionais apresentando-se ainda mais profundos: 12% afirmaram já ter tido pensamentos suicidas e 30% relataram pensamentos relacionados à morte.
Os números mostram que a violência vai além de confrontos. Esse medo constante e ameaça frequente de conflitos armados acabam se transformando em um problema de saúde pública que interfere diretamente no bem-estar emocional. Esses estudos realizados na Maré também apontam que um terço dos moradores afirma ter a saúde mental afetada pela violência, enquanto grande parte relata viver um estado permanente de medo.
Dados recentes do Instituto Fogo Cruzado mostram que a violência armada continua fazendo parte da rotina do Rio de Janeiro. Em fevereiro, confrontos entre facções e milícias resultaram em 14 tiroteios e deixaram 30 pessoas baleadas, sendo 19 mortas e 11 feridas. Apesar da redução no número de ocorrências, especialistas apontam um cenário preocupante: redução dos confrontos e aumento de vítimas, evidenciando uma violência mais letal e intensa. Em regiões marcadas por conflitos frequentes, como a Zona Norte, o impacto interfere no cotidiano e bem-estar emocional da população.
Os números ajudam a dimensionar o problema, mas os impactos da violência vão além das estatísticas.
A população é jogada em uma ´´zona de perigo“, onde os policiais não conseguem manter a segurança e o Governo demonstra pouca atenção às necessidades dos cariocas e das forças de segurança. Diante das circunstâncias, histórias individuais ajudam a mostrar como a insegurança se manifesta de diferentes formas. Seja no trajeto para o trabalho, dentro de casa ou em momentos considerados comuns, moradores da zona norte convivem com situações de medo.
Os relatos a seguir reúnem experiências de um motorista de aplicativo e de moradores da zona norte, que preferiram não mostrar o rosto por questão de segurança. Em comum, as histórias revelam cenários marcados pelo desespero, tensão e mudanças.
Trajeto marcado pelo medo

João Pedro tem 20 anos e trabalha como motorista de aplicativo para pagar a faculdade de Gestão Financeira. Ele conta que evita certos lugares como comunidades, e não passa por eles em período noturno.
“O bandido não é burro, então ele rouba no lugar próximo de comunidade para ter tempo de voltar” Afirma.
Segundo João, a insegurança afeta sua saúde mental. Ele relata sentir ansiedade antes de sair para trabalhar, com receio de não conseguir voltar para casa. “É comum o motorista ser roubado e morto” , diz.
O motorista relata que o medo também é presente entre seus passageiros. O mesmo conta que ao desviar um pouco da rota o cliente fica apreensivo. “Teve uma vez que uma pessoa me perguntou se eu iria sequestrá-la. Estava brigando, falando que iria descer, por medo”, relembra.
Ao final da entrevista, ele deixa um conselho para quem pensa em ingressar na profissão: “Não recomendo trabalhar nesse ramo, a não ser que precise muito.”
Medo em favelas

Os relatos também aparecem entre moradores que convivem diariamente com a violência dentro das comunidades.
Matheus, morador da Penha, relata que evita passar por lugares como Anchieta e Mariópolis, regiões onde já foi vítima de assaltos. Além disso, prefere não sair para trabalhar em dias de jogos de futebol, pois acredita que o aumento da circulação de pessoas e episódios de violência nessas ocasiões elevam a sensação de insegurança.
“Teve uma vez que o ‘caveirão’ entrou e eu não consegui trabalhar porque ‘tava’ rolando muito tiro e eu não quis descer de casa”, conta.
Matheus utiliza uma bicicleta elétrica como principal meio de transporte, que normalmente alcança cerca de 32 km/h. No entanto, ele afirma ter feito algumas configurações para aumentar a velocidade do veículo. “Se eu ficar andando nessa velocidade qualquer um correndo do meu lado consegue me assaltar”, afirma.
Outra moradora de comunidade, que preferiu não se identificar por questões de segurança, afirma que o receio de permanecer nas ruas aumentou após vivenciar situações de violência e confrontos armados.
Ela também critica a romantização das comunidades. “Tem gente que acaba romantizando: ‘Ah, favela venceu’. Como pode uma favela vencer? É um lugar que não tem estrutura nenhuma de ter pessoas morando ali”, afirma.
Entre as lembranças mais marcantes, a entrevistada relembra o dia em que ela e o pai ficaram no meio de um tiroteio. Segundo ela, os dois se abrigaram em um local que consideravam seguro, mas os disparos começaram a se aproximar e o som dos tiros era tão intenso que a fez esquecer qualquer outro pensamento.
Pouco depois, ouviram um forte estrondo e perceberam que bandidos haviam entrado na área. “Depois de alguns minutos ouvimos batidas fortes no portão principal. Eram os policiais. Eles estavam querendo empurrar a porta à força . Nisso, o meu pai estava na porta falando que não encontrava a chave e que eu estava lá dentro também. Os policiais, vendo isso, pensaram que meu pai era envolvido. Percebi que ele estava desesperado, então comecei a gritar para avisar que eu também estava ali. Na minha cabeça, eles não entrariam atirando, porque havia uma mulher dentro da casa. Eu estava com muito medo de que minha casa virasse uma espécie de carnificina, como já aconteceu em diversos lugares durante operações”, relata.
Embora tenha se mudado do lugar em que vivia, a sensação de insegurança permanece. Ela afirma que qualquer notícia relacionada à violência na região onde mora ainda desperta medo e ansiedade.
Ao final da entrevista, faz um apelo para que as pessoas compreendam a realidade vivida por quem mora em áreas afetadas pela criminalidade. “As pessoas de fora não veem a realidade. Essas pessoas acabam pensando que só aquilo que está sendo mostrado é o que está sendo vivido, mas não é isso. [..] São pessoas que convivem com a criminalidade batendo na porta de casa. Presencia isso todos os dias”, conclui.
Palavra de especialista

Os relatos apresentados ao longo desta reportagem demonstram como a violência ultrapassa os danos físicos e materiais, afetando também a saúde mental da população. Muitos moradores de centros urbanos procuram frequentemente consultórios de psicanálise e psiquiatria para tratar os sintomas de estresse, justamente por essa insegurança constante.
De acordo com o psicólogo Diego Mendonça, mestre em psicologia clínica e discente do Doutorado em Psicologia Social, a exposição frequente à violência pode gerar consequências psicológicas significativas. “A normalização da violência é perigosa, tanto quanto a exposição da violência”, afirma.
Segundo o especialista, o contato constante com situações de risco pode desencadear sintomas como ansiedade, depressão, estresse crônico e até transtorno de estresse pós-traumático. No entanto, esses impactos nem sempre são percebidos pela sociedade, que muitas vezes encara a violência como algo comum do cotidiano carioca.
“Se uma pessoa não está com as suas necessidades básicas garantidas, isso compromete seu próprio crescimento como pessoa”, destaca.
Para Diego, um dos principais desafios enfrentados pela população é o acesso aos serviços de saúde mental e a profissionais especializados. “É muito curioso porque o Brasil é um dos países que mais tem psicólogos, mas ainda assim a psicoterapia clínica, muitas vezes, encontram-se inacessíveis para população”, explica.
A violência urbana não se resume aos números divulgados em relatórios ou às manchetes em jornais. Ela se manifesta no silêncio de quem evita sair de casa, na ansiedade antes de ir ao trabalho e no medo que acompanha moradores mesmo após o fim dos confrontos. As histórias apresentadas nesta reportagem mostram que a violência na Zona Norte do Rio de Janeiro ultrapassa os limites da segurança pública e se transforma em uma questão que afeta a qualidade de vida e o bem-estar emocional de toda a população.
Entre estatísticas e relatos, uma certeza permanece: a violência deixa marcas que nem sempre podem ser vistas. E, enquanto milhares de pessoas continuarem vivendo com insegurança, a busca por uma cidade mais segura e por uma vida com mais tranquilidade continuará sendo um dos maiores desafios da sociedade carioca.



