BRT cresce na Zona Norte enquanto passageiros relatam perda de linhas de ônibus e dificuldades de integração

Mais rápido ou mais cheio? O dilema de quem depende do transporte público na Zona Norte do Rio.

Por Ana Lobato, Evelyn de Assis, Julia Melo, Lorena Pereira e Rafael Antunes.

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  • Os dados mostram crescimento do número de passageiros no BRT e queda das viagens realizadas pelos ônibus tradicionais. Especialistas alertam que a extinção de linhas pode reduzir as opções de deslocamento, especialmente para moradores de bairros periféricos.
  • Pesquisa realizada pela reportagem mostra que 67,9% dos entrevistados avaliam o BRT de forma positiva. A maioria utiliza o sistema para chegar ao trabalho e aponta a rapidez das viagens como principal benefício.
  • Usuários relatam que a reorganização do transporte também trouxe desafios, como mais baldeações, caminhadas até as estações e o desaparecimento de linhas tradicionais de ônibus.
  • Populares afirmaram que algumas linhas tradicionais de ônibus deixaram de circular ou tiveram itinerários alterados. Especialistas alertam que a redução dessas linhas pode limitar as opções de deslocamento, principalmente em bairros periféricos.
  • Prefeitura e Mobi.Rio seguem ampliando mudanças no sistema de transporte, com retorno de circularização das frota de ônibus, novas integrações e expansão da operação dos corredores do BRT.

A Zona Norte foi uma das regiões mais impactadas pelas transformações promovidas pelo sistema BRT. A reorganização das linhas de ônibus e a criação de cenários sobre os ganhos e perdas da modernização do transporte público de corredores exclusivos alteraram a rotina de milhares de usuários. O trajeto até o trabalho ficou mais rápido para uma boa parte desses passageiros da Zona Norte do Rio após a implantação do BRT. Alguns usuários, porém, afirmam que a mudança significou mais baldeações, caminhadas maiores até as estações e o desaparecimento de linhas tradicionais de ônibus que atendiam bairros periféricos.

A implementação do BRT iniciou em julho de 2012, com o primeiro corredor conectando Barra da Tijuca à Santa Cruz e Campo Grande. Em 2014, o BRT continuava a crescer com a inauguração  da Transcarioca, que integra a Barra da Tijuca e diversos outros bairros e o Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão). No ano de  2016 a via Transolímpica foi lançada, ligando Recreio dos Bandeirantes à Magalhães Bastos. As obras da Transbrasil ficaram estagnadas por quase uma década e, em 2024, a via expressa foi finalizada com intuito de facilitar a integração em diversos pontos da cidade com a inauguração do Terminal Intermodal Gentileza.

O que foi prometido e o que a população recebeu?

Segundo a Prefeitura do Rio de Janeiro, a justificativa para o projeto do BRT Transcarioca, que foi o primeiro corredor a ser inaugurado em 2012, baseava-se na necessidade de integrar as zonas Oeste e Norte por meio de um transporte público mais eficiente. A medida se tornou eficaz para uma parte da população, como mostra a pesquisa feita pela nossa reportagem: 67,9% dos respondentes avaliam a implementação do BRT como positiva, 28,6% avaliam o transporte como indiferente e apenas 3,6% avaliam o BRT como negativo.

O objetivo central e inicial da Transcarioca era facilitar o deslocamento diário. Os corredores também visavam proporcionar um acesso mais rápido da Zona Norte às infraestruturas de esporte e lazer situadas na Barra da Tijuca, especialmente aquelas construídas para os Jogos Olímpicos de 2016. Em sua maioria, usuários relataram que utilizam os corredores do BRT no trajeto para o trabalho (69,6%), para acessar locais de lazer (30,4%) e para chegar aos locais de estudo (25%).

O que mudou desde a chegada do BRT?

Os usuários também foram questionados sobre o que mudou no trajeto para o trabalho depois da implementação dos corredores do BRT. A maioria (26) utiliza o meio de transporte por conta do tempo de espera e de viagem serem menores do que em outros meios, um deles inclusive relata que:

Permitiu que eu chegasse mais rapidamente à cidade universitária, tendo em vista que eu não sofreria mais com pico da tarde da linha vermelha sentido baixada.

Usuário do BRT

Dez passageiros relatam que a implementação dos corredores do BRT não mudaram em nada ou não utilizam esse meio de transporte para seu deslocamento até o trabalho. 

Além do tempo de viagem reduzido, a integração do BRT com outros modais de transporte também foi uma promessa das autoridades, como o Terminal Intermodal Gentileza que faz a ligação dos BRTs com  o VLT e os ônibus da Zona Sul e Grande Tijuca. Mas essas trocas de modais ainda atrapalham muito os trabalhadores: 69,6% dos usuários utilizam mais de uma condução para chegar ao trabalho, enquanto, apenas 30,4% utilizam um único meio de transporte e 60,7% utilizam o BRT e o ônibus para chegar ao seu destino final.

Mudou para melhor em relação ao trânsito, mas acaba que eu faço o mesmo tempo de ônibus por causa da migração para o VLT.

Usuário do BRT

E os ônibus convencionais, onde foram parar?

Ponto de ônibus na rua Cardoso de Morais em Bonsucesso – Foto: Evelyn de Assis

A cidade do Rio de Janeiro possui inúmeros meios de transportes: ônibus convencionais, trem, metrô, BRT, entre outros. Antes do BRT os ônibus convencionais foram os grandes aliados dos trabalhadores, porém nos últimos anos o serviço tem sofrido algumas mudanças. Em razão do aumento de passageiros dentro do BRT, os números de viagens feitas pelos ônibus tradicionais diminuíram entre os anos de 2024 e 2025 a queda no número de viagens realizadas foi de 9%, a quilometragem percorrida reduziu em 14% e o número de passageiros caiu 0,1%, segundo o Data.Rio.

O BRT teve um aumento significativo de passageiros, a Mobi.Rio informou que a média diária de usuários em dias úteis nos corredores Transbrasil foi 145.060 e a Transcarioca que interliga alguns pontos na Zona Norte registrou 158.218 passageiros, no mês de abril de 2026.

Apesar desse crescimento do BRT e dos ônibus convencionais estarem sofrendo algumas mudanças, a pesquisa feita pela equipe ainda mostra que muitos usuários utilizam os ônibus tradicionais e citam que algumas linhas sumiram dos seus bairros ou tiveram seus itinerários modificados.

Em nota, a Rio Ônibus informou que a Secretaria Municipal de Transportes é o órgão responsável pela criação e extinção de linhas de ônibus, por programar faixas de horários, itinerários e todo o planejamento operacional da cidade. Segundo a concessionária, a responsabilidade da Rio Ônibus é operar o que é determinado pela Secretaria. Já a Secretaria Municipal de Transporte do Rio, não se manifestou sobre o assunto até o fechamento desta reportagem.

Segundo os usuários do BRT, a retirada de diversas linhas de ônibus foi justificada pelo poder público como uma forma de evitar a sobreposição de trajetos. No entanto, a especialista Mallu Côrtes aponta que essa estratégia pode ter reduzido as possibilidades de deslocamento da população, especialmente em bairros periféricos. Para a pesquisadora, cada linha extinta representa menos alternativas de circulação e pode aumentar o tempo gasto pelos passageiros para acessar outros meios de transporte.

Apesar do crescimento do BRT, e dos problemas apontados pela população, os ônibus continuam desempenhando papel fundamental na mobilidade da Zona Norte. Grande parte dos passageiros utilizam o transporte convencional para chegar às estações ou completar o trajeto até o destino final, evidenciando que os dois sistemas funcionam de forma complementar.

Uma das mudanças mais sentidas pela população após a implantação do BRT foi a necessidade de realizar baldeações. Antes, muitas viagens eram feitas em uma única linha de ônibus; hoje, os passageiros precisam combinar entre ônibus e BRT para concluir o mesmo percurso.

Na prática, o que funcionou?

Hoje para o meu trabalho na Barra da Tijuca, eu utilizo um ônibus pra ir e um pra voltar… Utilizo ele porque é o mais rápido dentro das opções que existem pra mim hoje, é o que me leva direto sem baldeação.

Laryssa Nascimento
Laryssa Nascimento entrevistada – Foto: Evelyn de Assis

Laryssa Nascimento atualmente trabalha na Barra da Tijuca. Ela tem a opção de utilizar o BRT que passa em uma estação que fica a 5 minutos da sua casa, mas, devido ao tempo de viagem e de baldeações, não consegue utilizar este meio de transporte e opta por um ônibus convencional para chegar no trabalho.

Ele melhorou a questão da Brasil, então não ficamos mais presos no trânsito. Em contrapartida à baldeação, sempre precisamos migrar de um transporte para o outro, então ali continua pecando nesse quesito… Ainda é algo que precisa se melhorar.

Laryssa Nascimento

O que um especialista em transporte público diz:

Mallu Côrtes, coordenadora de mobilidade do Partido dos Trabalhadores(PT) no Rio de Janeiro – Foto: Julia Melo 

Mallu Côrtes, integrante do projeto ‘Tarifa Zero’ e especialista em mobilidade do Partido dos Trabalhadores (PT), afirma que: “Quando o governo reduz linhas, as pessoas têm menos possibilidades de deslocamento e isso aumenta o tempo de espera, o tempo dentro do transporte e reduz a qualidade de vida da população.”

Entrevista com Mallu Cortês. Edição: Julia Melo

Uma questão em aberto sobre o futuro

Para os próximos meses, a Prefeitura segue trazendo mudanças. Uma nova frota de ônibus foi inaugurada em abril de 2026 sendo, ao todo, cento e dois ônibus convencionais novos, mais modernos, confortáveis e com ar-condicionado para a cidade do Rio de Janeiro.

Segundo o atual prefeito da cidade, Eduardo Cavaliere, a proposta é replicar o sucesso que foi a implementação do BRT, garantindo que até 2028 todas as frotas de ônibus convencionais serão substituídas. A Mobi.Rio assumirá  a nova frota de ônibus da linha 634 (Saens Peña x Bananal) que agora opera 24h por dia. Junto com essa transição chegou mais uma novidade, agora os ônibus do município do Rio não irão mais aceitar pagamento da passagem em dinheiro, apenas com cartão JAÉ, RioCard, cartões de débito e crédito e também PIX.

A Mobi.Rio segue com novas inaugurações, em março de 2026 o Terminal BRT Metropolitano Pedro Fernandes (Margaridas) em Irajá na Zona Norte, foi lançado com intuito de expandir a Zona Norte para a Baixada Fluminense, integrando com linhas intermunicipais de Nova Iguaçu e São João de Meriti.

E você? Usa o BRT? Conta nos comentários a sua experiência neste meio de transporte!


Redação Gestão e Tratamento de Dados
Redação Gestão e Tratamento de Dados
Matéria produzida pelos alunos do módulo Gestão e Tratamento de Dados, da Escola de Comunicação da Unisuam.

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