FUTEBOL: Como clubes fora da elite do Rio de Janeiro se sustentam financeiramente, apesar dos prejuízos no Campeonato Carioca?

Com despesas maiores do que os lucros obtidos com a venda de ingressos, São Cristóvão, Madureira, Olaria, Portuguesa e Bonsucesso procuram formas de se estabilizar após o Campeonato Carioca.

Por Guilherme Hoche, Gohan do Carmo, Thiago Gomes, Yan Mello e Breno Marques.

Ver Resumo
  • Clubes como Olaria e Portuguesa têm como principal fonte de renda seus sócios-torcedores, conseguindo se sustentar economicamente.
  • A análise dos borderôs evidencia a dificuldade dos clubes em obter lucros com os jogos do campeonato carioca, mostrando sempre despesas maiores.
  • Os desafios financeiros enfrentados pelos clubes tradicionais da zona norte, como a falta de apoio da FERJ, prejudicam o rendimento dos clubes no campeonato carioca.

A Zona Norte do Rio de Janeiro abrange diversos bairros e reúne uma população de aproximadamente 2.188.374 habitantes, segundo dados do Censo Demográfico de 2022. A região sempre teve uma forte relação com o futebol, sendo marcada pela presença de clubes tradicionais e pela revelação de grandes jogadores da história do esporte brasileiro, como Romário, Ronaldo Nazário e Garrincha.

Nesta matéria, serão apresentados alguns dos clubes mais tradicionais da Zona Norte carioca, equipes que seguem resistindo e mantendo viva a história do futebol suburbano no Rio de Janeiro.

A elite do futebol do Rio de Janeiro é formada pelos clubes de relevância nacional: Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco. A primeira divisão do Campeonato Carioca, em praticamente todas as suas edições, conta com a presença dessas equipes.

No entanto, clubes considerados “menores”, especialmente os da Zona Norte, tendem a enfrentar dificuldades para se manter na primeira prateleira do futebol carioca, além de acumularem prejuízos na maioria dos jogos da principal competição de seus calendários.

Rendas X Despesas nos jogos

Com base em borderôs disponíveis no site oficial da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), em registros públicos e em entrevistas com representantes dos clubes, essas equipes arrecadam menos com ingressos do que gastam com despesas operacionais dos estádios em dias de jogo.

Os custos incluem:

  • Arbitragem;
  • Segurança;
  • Operação de estádio (limpeza, funcionários, etc.)
  • Taxas da Federação;

Um exemplo é o jogo entre São Cristóvão x Friburguense, onde o borderô apresenta a arrecadação de R$1.130,00, porém as despesas somam R$5.708,00.

Arquibancadas vazias

Os dados analisados pela reportagem apontam que os estádios operam muito abaixo da capacidade máxima.

A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro não apresenta borderôs dos jogos das séries C, divisão que o São Cristóvão disputou em 2021, 2022 e 2023. Em 2021, devido a pandemia, todos os clubes jogaram com portões fechados.

Falta de apoio da Federação

Em todos os jogos do Campeonato Carioca, os clubes mandantes têm a obrigação de pagar a taxa da Federação. Por outro lado, Pedro Paulo Vital, ex-vice-presidente do Conselho de Finanças do Olaria, afirmou que a FERJ não oferece nenhum benefício, auxílio ou apoio aos clubes. Confira:

A diferença de jogar com os grandes clubes

Há uma grande disparidade na arrecadação dos borderôs das partidas dos clubes que conseguiram participar da Série A1, enfrentando as equipes Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco.

Isso ocorre devido ao fato de os clubes da elite possuírem torcidas maiores e parcelas de torcedores com maior poder aquisitivo, o que possibilita o aumento do preço dos ingressos.

Além disso, em alguns desses jogos, o mando de campo é vendido. “É cobrada uma taxa que geralmente é fixa”, afirmou Pedro Paulo. Na prática, o clube continua sendo mandante, mas o jogo pode ser transferido para onde o comprador decidir, em grande parte visando estádios com maior capacidade. Isso aconteceu no jogo entre Madureira e Fluminense, em janeiro de 2023, que ocorreu em Cariacica (ES). O pagamento dessa taxa, por parte dos clubes da elite, tende a cobrir quaisquer prejuízos que clubes de menor expressão, como Madureira e Portuguesa teriam.

Como os clubes se mantem de pé?

Bonsucesso, Olaria e São Cristóvão, clubes que não têm a oportunidade de disputar a primeira divisão, buscam fontes alternativas para fortalecer sua renda. Um exemplo é o Olaria, que hoje consegue viver somente com faturamento dos sócios pagantes que frequentam as dependências do clube para lazer e recreação. Pedro Paulo informou que as mensalidades geravam entre 60% e 65% da receita mensal do clube. Além disso, disponibilizam espaços para sócios e não associados alugarem para eventos, sendo mais uma fonte de arrecadação desvinculada ao futebol profissional.

Segundo Horácio Junior, vice-presidente benemérito da Portuguesa, o clube mantém suas atividades por meio de diferentes fontes de receita, como o aluguel de um espaço comercial, patrocínios, programa de sócios e locação do estádio para jogos e treinamentos de categorias de base e do futebol feminino de Flamengo e Fluminense. A venda de mandos de campo também é utilizada para compensar déficits e ajudar a custear a estrutura do clube, que funciona diariamente e oferece diversas modalidades esportivas e atividades sociais. Além disso, o estádio passa por melhorias e aguarda liberações para receber partidas de maior porte, o que pode ampliar a arrecadação nos próximos anos.

Assim, como também relatou Pedro Paulo no caso do Olaria, os cenários semelhantes reforçam uma tendência observada entre os clubes tradicionais da Zona Norte e arredores diante das dificuldades para obter lucro com partidas e competições, as atividades sociais e recreativas oferecidas aos associados se tornaram fundamentais para garantir a sustentabilidade financeira dessas instituições.

A disparidade financeira entre os clubes da elite do futebol carioca e as equipes tradicionais da zona norte é evidente. Enquanto clubes como o Flamengo movimentam centenas de milhões de reais por ano com direitos de transmissão, patrocínios, premiações e programas de sócio-torcedor, equipes como Madureira, Olaria, Bonsucesso, São Cristóvão e Portuguesa dependem de receitas alternativas para manter suas atividades e preservar suas estruturas.

Mesmo enfrentando dificuldades para equilibrar as contas e registrar bons públicos, essas equipes seguem se reinventando por meio de sócios, aluguéis e parcerias. Mais do que clubes de futebol, são instituições que preservam a história e a identidade de seus bairros. Assim, apesar dos desafios, o futebol da Zona Norte continua vivo e resistente no cenário carioca.

Você torce por algum time de futebol da Zona Norte? Conhecia esta realidade apresentada na reportagem? Deixe o seu comentário!

Foto destacada: Gohan do Carmo e Guilherme Hoche

Redação Gestão e Tratamento de Dados
Redação Gestão e Tratamento de Dados
Matéria produzida pelos alunos do módulo Gestão e Tratamento de Dados, da Escola de Comunicação da Unisuam.

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