Da pacificação a megaoperação, RJ vive ciclo de políticas que ignoram educação

Dados mostram defasagem educacional e riscos frequentes na mobilidade urbana como fatores sociais complicadores na luta contra a evasão escolar em áreas dominadas pelo poder paralelo.

Por Jean Montes
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Em 2010, as imagens que retratavam o processo de pacificação no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro rodam o mundo. Quinze anos separam a imagem da fuga de traficantes pela mata e a megaoperação, na mesma área, que culminou na morte de 120 pessoas na Serra da Misericórdia. Pela idade na ação, boa parte dos mortos eram crianças à época da pacificação. O que levou uma comunidade de crianças esperançosas a um novo ciclo de violência e perpetuação da cultura do tráfico nessas comunidades? O texto retrata que as dificuldades no acesso à educação persiste e o qualidade do aprendizado segue baixo.

O Rio de Janeiro ocupou o debate público e as manchetes internacionais em 2010 e em 2025 por operações policiais em comunidades da Zona Norte da cidade. Há 16 anos, as imagens de traficantes fugindo por uma estrada sem asfalto feitas por helicóptero marcaram milhões de brasileiros que assistiam pela televisão e faziam ressurgir um sentimento furtado dos moradores do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro: esperança no futuro.

As imagens de dezenas de corpos enfileirados na Praça São Lucas, na Penha, eram o exato oposto do sonho da pacificação. Entre aquele 28 de novembro de 2010 e o recente 28 de outubro de 2025, o Rio de Janeiro mudou de governos pelo menos quatro vezes e a política de segurança pública viu o programa de pacificação ruir. O surgimento das megaoperações coordenadas nas comunidades deixou mortos em incursões no Jacarezinho, Penha e Alemão. 

O elemento em comum que uniu os diferentes governantes e as práticas de segurança foi a ausência de um programa de aprimoramento das escolas e programas de cidadania. De acordo com dados do CENSO 2022, a região tem proporcionalmente 6,5 estabelecimentos religiosos para cada estabelecimento educacional. Dados esses que são substancialmente maiores em comparação ao cenário macro nacional. Ao examinar individualmente as comunidades da região da Zona Norte do Rio de Janeiro, os dados mostram comunidades que possuem um ou nenhum estabelecimento escolar. Veja na infografia abaixo:

Infografia retrata quantidade de estabelecimentos por comunidade no Rio de Janeiro.
Caminhos Interrompidos

Com densidade populacional quase quatro vezes superior à média do estado do Rio, as comunidades da Penha e do Alemão concentram também o maior índice de escolas atingidas pelo que a UNICEF chama de “interrupção urbana”. São dias em que o trajeto de transporte ou vias públicas são as fechadas por episódios de violência que prejudicam o curso da vida letiva.

No documento “Percursos Interrompidos”, a UNICEF aponta que a Penha é o bairro mais atingido pelos episódios em todo o Rio de Janeiro, com larga vantagem para Jacarepaguá como segundo colocado. As principais causas são barricadas em ruas e operações policiais que causam trocas de tiros.

Flávia Zambrothi lecionando no seu colégio atual em Nova Iguaçu. Foto: Acervo Pessoal.

Flávia Zambrothi é professora concursada em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Antes, trabalhou com educação infantil em uma escola próxima a uma comunidade de Belford Roxo, também na Baixada. Ela conta que isso era comum também na escola em que trabalhava. Embora geograficamente afastados, a Zona Norte do Rio e a Baixada Fluminense sofrem com problemas similares como domínio do crime organizado, baixo orçamento para educação e frequentes episódios de interrupção na circulação urbana por questões de violência.

A professora relata que a escola em que trabalhava chegava a ser avisada de que poderia haver confronto para evitar a circulação de crianças no entorno. “Os traficantes avisavam a unidade para não abrir abrir. A escola nem era tão perto assim, mas praticamente todos os alunos vinham de lá”, relembra.

Infografia retrata quantidade de interrupções na mobilidade urbana no RJ.
Fonte: UNICEF

Episódios como esses ampliam a conjuntura de fatores sociais que afastam alunos da escola. De acordo com o UNICEF, cerca de 188 dias letivos entre 2023 e 2025 foram atingidos por algum evento externo de violência que prejudicou a circulação. A megaoperação de 2026 é um exemplo que causou a interrupção da circulação e o fechamento de vias públicas importantes como a Avenida Brasil. Até grandes universidades como UNISUAM, UERJ e UFRJ chegaram a suspender suas atividades nos dias seguintes.

Sem investimento em educação de qualidade

A nova política de segurança pública de operações não possui um planejamento específico para a educação das comunidades e foca na reconquista de territórios do poder paralelo. À época da pacificação, previa-se uma ação coordenada entre segurança pública, educação, cultura e cidadania para recuperar as comunidades. Prejudicado pela crise econômica do Estado e a alternância de poder no executivo, o projeto se desfez silenciosamente e não avançou em ações de cidadania. Em 2025, o governo do Rio gastou mais verba do orçamento em segurança (R$ 10,6 bilhões) do que em educação (R$ 9,9 bilhões), de acordo com dados do Portal da Transparência.

Renê Silva fala sobre escola na infância e trajeto interrompido.

Moradores dizem que existe uma oferta aceitável de escolas, mas reclamam da qualidade oferecida. Renê Silva, jornalista independente e criador do jornal Voz das Comunidades, diz lutar por uma educação integral e critica a ausência de um cronograma extracurricular. “Minha luta sobre educação é que as escolas tenham mais tempo de aula. Para que as crianças tenham menos tempo ocioso dentro das favelas e tenham outras atividades multidisciplinares para aprender de fato como projetar o futuro”, pontua durante evento educacional no Rio de Janeiro.

Renê fundou o Voz das Comunidades em 2005 em sala de aula. “Fiz parte de um projeto social dentro da escola em um jornal e uma rádio comunitária dentro do grêmio estudantil. Ali nasce o jornal”, conta o jornalista que colheu frutos do seu trabalho. Hoje, ele alimenta o discurso sobre a transformação social que a educação pode provocar nos jovens das comunidades.

Renê Silva
Divisão social e racial

Além do prejuízo social pela região afetada, há também o fator racial. De acordo com o Panorama das Favelas divulgado pelo CEPERJ, existem 600 mil jovens em faixa etária escolar vivendo em comunidades do Rio de Janeiro. O perfil demográfico dessas áreas, de acordo com o mesmo documento, é de que cerca de 70% dos moradores são autodeclarados pretos ou pardos. 

O impacto social é outro fator complicador em regiões mais vulneráveis. Flávia Zambrothi conta que se chocou ao constatar alguns cenários familiares de alunos da educação infantil: “Um aluno tinha uma dificuldade descomunal. Uma vez chamamos a mãe dele porque ele já estava no terceiro ano sem reconhecer coisas básicas. Quando conversamos, a mãezinha dele chorou e pediu desculpas porque também não sabia ler e não conseguia ajudar”.

Ela diz que a frequência não era problema, justamente por conta da alimentação oferecida pela escola. Mesmo assim, via um tom de agressividade incomum para alunos de cerca de 10 anos e discursos quase adultos. “Os alunos chegavam na segunda-feira falando sobre como tinha sido o baile no final de semana. Eles traziam muitos dos problemas de fora da escola para dentro”, recorda.

Imagem do antigo teleférico do Alemão, também desativado com o fim do programa de pacificação. Foto: Acervo pessoal
Qualidade das escolas

O Anuário Brasileiro da Educação Básica, produzido pela ONG Todos Pela Educação, analisou a situação das escolas públicas do Rio de Janeiro e constatou que, ao se formar, apenas 10,47% dos alunos se graduaram com aprendizado considerado adequado em matemática e português. A quantidade de alunos que se forma cai na mesma medida que a oferta educacional passa a ser maior do estado. A rede municipal abrange educação infantil e ensino fundamental, enquanto as escolas com ensino médio são, em grande maioria, estaduais.

O mesmo estudo também revela que mais da metade da rede pública do Rio de Janeiro não possui laboratório de ciências ou de informática. A defasagem escolar é considerada por especialistas como um fator crucial na equação sobre a evasão de alunos do ambiente educacional. Embora seja um dos estados com maior verba para a educação, o Rio de Janeiro é o penúltimo no ranking do Ideb sobre qualidade da educação. Ao analisar o cenário, o morador Paulo Cassiano comenta que as principais escolas ficam nas ruas principais, longe dos morros. Para ele, os demais moradores enfrentam dificuldades logísticas consideráveis para conseguir chegar as escolas todos os dias.

Redação Gestão e Tratamento de Dados
Redação Gestão e Tratamento de Dados
Matéria produzida pelos alunos do módulo Gestão e Tratamento de Dados, da Escola de Comunicação da Unisuam.

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