Falhas no sistema ferroviário aprofundam desigualdade urbana no Rio

Na Zona Norte, passageiros da SuperVia enfrentam atrasos, insegurança e estações sem acessibilidade no deslocamento diário

A mobilidade urbana na Zona Norte do Rio de Janeiro depende diretamente do sistema ferroviário para conectar milhares de trabalhadores e estudantes ao Centro da capital e a municípios da Baixada Fluminense.

Bairros como Ramos, Manguinhos e Bonsucesso estão entre os principais pontos de circulação dos ramais da SuperVia, tornando o trem um serviço essencial para a rotina da população. No entanto, problemas recorrentes de infraestrutura, acessibilidade e segurança têm afetado diariamente os passageiros que utilizam o sistema. Segundo dados da Agetransp, entre 2022 e 2024, 59% das escadas rolantes e 24% dos elevadores do sistema ferroviário apresentaram falhas, evidenciando a degradação da acessibilidade no transporte ferroviário do Rio de Janeiro.

Entre as estações mais movimentadas da região, Bonsucesso se destaca pela localização estratégica próxima à UNISUAM e por integrar o fluxo de moradores de comunidades como o Complexo do Alemão e a Maré. Apesar da importância para a mobilidade urbana da Zona Norte, a estação apresenta falhas estruturais que impactam diretamente a experiência dos usuários. Elevadores inoperantes, dificuldades de acesso às plataformas e a precarização do espaço evidenciam um cenário que ultrapassa transtornos operacionais e levanta discussões sobre o direito à mobilidade e à acessibilidade no transporte público do Rio de Janeiro.

A rotina marcada por obstáculos

A rotina dos passageiros da estação de Bonsucesso evidencia um problema que vai além dos atrasos ferroviários. Na prática, a precariedade da infraestrutura transforma o deslocamento diário em um percurso marcado por desgaste físico, insegurança e dificuldade de locomoção, principalmente para idosos, pessoas com deficiência e usuários com mobilidade reduzida.

Elevadores frequentemente inoperantes, escadas rolantes sem funcionamento e dificuldades de acesso às plataformas fazem parte da realidade enfrentada por quem depende da SuperVia na Zona Norte do Rio.

Usuária da estação de Bonsucesso, Ângela Lobos afirma que o transporte público deixou de representar apenas um meio de deslocamento e passou a afetar diretamente sua saúde física e emocional.

— O transporte público deixou de ser apenas um trajeto e passou a ser uma fonte diária de cansaço, dor e ansiedade. Tenham vergonha e consertem as escadas rolantes e os elevadores. A gente é idoso, não é atleta.

Acessibilidade além da estrutura básica

Para Patrícia, professora de pós-graduação e técnica de rugby em cadeira de rodas, a acessibilidade no transporte público ainda é tratada de forma insuficiente e limitada.

— Acessibilidade vai além de rampas: envolve elevadores funcionando, sinalização sonora, pisos táteis e espaço adequado para cadeiras de rodas. 

Segundo ela, embora existam garantias legais que assegurem o direito de ir e vir às pessoas com deficiência, a realidade observada nas estações está distante do que prevê a legislação brasileira.

— Embora a legislação brasileira garanta que o transporte público seja acessível para toda pessoa com deficiência, na prática essa realidade ainda está longe de ser cumprida.

Desigualdade que atravessa os trilhos

Além das barreiras físicas, especialistas destacam os impactos sociais causados pela precarização da mobilidade urbana nas regiões periféricas da cidade. Rafaela Mendes, especialista em geografia, avalia que os problemas enfrentados pelos passageiros da SuperVia refletem desigualdades históricas no planejamento urbano e na distribuição de investimentos públicos. 

— A falta de eficiência das estações e os problemas da SuperVia revelam, antes de tudo, um desinteresse das autoridades competentes.

Ela aponta ainda que os investimentos em infraestrutura não acontecem de maneira equilibrada entre os diferentes territórios da cidade. 

— O investimento em infraestrutura não é distribuído de forma equânime: algumas estações recebem grandes aportes, enquanto outras sequer foram pensadas para serem acessíveis. As periferias vivem uma segregação socioespacial profunda, marcada pela dificuldade de acesso e pela ausência de investimentos. Para a pesquisadora, as dificuldades enfrentadas diariamente pela população da Zona Norte aprofundam processos de exclusão social e segregação urbana.

O impacto na saúde e na qualidade de vida

O impacto da mobilidade precária também aparece na saúde da população. Uma pesquisa da Coppe/UFRJ aponta que 73% dos participantes afirmam sofrer prejuízos no bem-estar físico e mental durante os deslocamentos urbanos, relacionando o tempo excessivo de viagem, o desgaste físico e as condições inadequadas do transporte público ao aumento do estresse e do cansaço diário.

Procurada pela reportagem, a SuperVia informou, por meio de nota, que os elevadores e escadas rolantes da estação de Bonsucesso encontram-se atualmente operacionais. A concessionária também atribuiu parte dos problemas do sistema ferroviário a furtos, atos de vandalismo e impactos provocados por fortes chuvas, fatores que, segundo a empresa, comprometem o funcionamento dos equipamentos e exigem manutenções frequentes.

No entanto, a equipe de reportagem registrou, ao longo de semanas, vídeos que mostram elevadores fora de funcionamento na estação de Bonsucesso, além de relatos recorrentes de passageiros sobre dificuldades de acesso às plataformas. Os registros contradizem a normalidade apontada pela concessionária e reforçam as críticas dos usuários em relação à falta de acessibilidade no sistema ferroviário. Os problemas registrados na estação de Bonsucesso mostram que as falhas no sistema ferroviário vão além de questões pontuais de manutenção. Para passageiros que dependem diariamente do trem, a falta de acessibilidade e a instabilidade da infraestrutura impactam diretamente a mobilidade e a qualidade do deslocamento pela cidade. Em meio às reclamações frequentes e aos dados apresentados pelos órgãos responsáveis, a realidade das estações reforça os desafios enfrentados pelo transporte público ferroviário no Rio de Janeiro

Redação Gestão e Tratamento de Dados
Redação Gestão e Tratamento de Dados
Matéria produzida pelos alunos do módulo Gestão e Tratamento de Dados, da Escola de Comunicação da Unisuam.

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