O impacto das mídias sociais nos microempreendimentos gastronômicos da Zona Norte do Rio
A gastronomia de rua faz parte do cotidiano suburbano. Barracas em esquinas, trailers próximos às estações, vendedores ambulantes e pequenos pontos de alimentação transforma calçadas em espaços de encontro e geração de renda. Mais do que vender comida, esses trabalhadores fazem da culinária uma forma de sobrevivência e identidade cultural.
Nos últimos anos, esse cenário passou a conviver com uma nova exigência: as mídias digitais. Em uma realidade em que o celular virou ferramenta de trabalho, microempreendedores passaram a disputar clientes não apenas nas ruas, mas também nas redes sociais. Hoje, vender comida não depende apenas do sabor ou da localização. Fotos, vídeos curtos, promoções e conteúdos publicados diariamente passaram a fazer parte da rotina de quem trabalha no setor. Além disso, consumidores valorizam a experiência completa, desde o atendimento até a apresentação do produto.
A Zona Norte concentra cerca de 35% dos MEIs de alimentação da capital. O setor alimentício representa aproximadamente 15% das novas formalizações de microempreendedores no estado. Um dos polos mais fortes da região é Madureira, que em março de 2026 registrou 60 novas licenças para cerca de 120 ambulantes trabalharem regularizados nos arredores do Mercadão.
Mas os números não mostram sozinhos a realidade das ruas. Por trás das estatísticas, existem histórias marcadas pelo desemprego, pela tentativa de independência financeira e pela adaptação constante a um mercado cada vez mais competitivo, inclusive no ambiente digital. A busca pelo trabalho autônomo também representa uma possibilidade de rotina mais flexível e oportunidade de crescimento.

Empreender por necessidade
A confeiteira Ana Carolina, de 36 anos, começou a empreender após o nascimento do filho. O interesse pela confeitaria surgiu quando decidiu produzir o próprio bolo de aniversário da criança. O que começou como delivery na cozinha de casa se transformou em uma loja em São Cristóvão, atendendo cerca de 130 a 150 clientes por dia.

A gente procura fazer a diferença no produto oferecido. Comparar nossa loja com grandes redes é diferente da nossa proposta. – afirmou a proprietária do “Ana Sabores”, com entusiasmo. Ela também destacou as dificuldades no início do negócio, como fornecedores, taxas elevadas, falta de conhecimento sobre o público e prejuízos causados pela dificuldade de prever a demanda. Para a confeiteira, a presença no Instagram influencia diretamente nas vendas:
Eu acredito que o Instagram traz muita visibilidade. Quando a gente não posta com frequência, a venda cai. O cliente gosta de acompanhar os bastidores da produção e não só ver o produto pronto. – explicou a confeiteira.

Apesar de alguns casos de sucesso, muitos empreendedores não conseguem manter os negócios. Segundo dados do Mapa de Empresas, cerca de 523 microempreendedores encerraram atividades em março deste ano por não conseguirem sustentar os custos.
Outra realidade é a da cozinheira Adriana Santos, de 49 anos. Ela começou a cozinhar ainda jovem por necessidade e, mais tarde, decidiu vender comidas em festas juninas. Depois, fez um curso profissionalizante de culinária para melhorar os produtos, mas encontrou dificuldades para estruturar o negócio.
Adriana vendeu churrasquinhos, açaís e pastéis, porém afirma que não conseguia obter lucro ao fechar as contas. Um dos principais desafios foi a falta de conhecimento em redes sociais.

– Minha dificuldade com rede social é total. Eu não sei fazer vídeo, tirar foto bonita ou editar publicação. Então sempre preciso pedir ajuda para outras pessoas. – desabafou Adriana.
Para auxiliar microempreendedores, o governo federal disponibiliza o programa Impulsa MEI, com videoaulas sobre marketing digital, empreendedorismo e finanças. Cursos gratuitos e pagos também têm se tornado ferramentas importantes para quem deseja crescer no mercado gastronômico. Além disso podemos citar o Centro Universitário Augusto Motta, que oferece curso gastronômico gratuito por meio do vestibular solidário.

Delivery amplia possibilidades para pequenos negócios
Outro exemplo é o da empreendedora Camila Campos, que encontrou na gastronomia uma alternativa após perder o emprego formal. Mãe de uma filha pequena, ela criou a “Quitutes da Miloca”, negócio que funciona há sete meses.
Camila apostou no delivery por meio da plataforma 99Food, o que ajudou no crescimento das vendas. Segundo ela, a chegada da empresa ampliou as possibilidades para pequenos comerciantes, antes muito dependentes do iFood. Plataformas como a Rappi também aumentaram o alcance dos negócios locais.

– Em sete meses, a gente já expandiu. A 99Food entrou no mercado com muita força, investindo em propaganda, promoções e fidelização de clientes. – relatou.
A ideia da Quitutes da Miloca surgiu após Camila perceber que batata recheada era um produto pouco vendido na região onde morava. O nome do negócio une o apelido da filha, Milah, com a palavra “quitutes”, de origem africana, representando sua identidade como mulher preta e a intenção de expandir o cardápio futuramente.
Influenciadores são os novos instrumentos de marketing
Além do Instagram e dos aplicativos de delivery, plataformas como o YouTube também passaram a ajudar pequenos comerciantes. Criadores de conteúdo produzem vídeos ensinando estratégias de divulgação e crescimento para microempreendedores gastronômicos.
Em um cenário onde a disputa pela atenção acontece em segundos, influenciadores digitais passaram a ocupar espaço importante na divulgação de pequenos negócios. Na Zona Norte, vídeos de comida, avaliações e indicações feitas por criadores de conteúdo locais conseguem aumentar o movimento de barraquinhas e pequenos restaurantes quase imediatamente.
Entre fotos, vídeos curtos e aplicativos de entrega, os microempreendedores gastronômicos da Zona Norte passaram a entender que presença digital deixou de ser diferencial e se tornou necessidade. Em meio às dificuldades financeiras e à concorrência crescente, as redes sociais passaram a funcionar como vitrine, ferramenta de trabalho e oportunidade de crescimento para quem vive da comida de rua.
Texto e revisão: Jennifer Oliveira e Maycon Barbosa
Reportagens e multimídia: Enzo Francisco e Tainá Lopes
Dados: João Cleber de Souza e João Pedro de Carvalho



