Escolas ampliam inclusão mas ainda falham na proteção de crianças atípicas.
A ausência de indicadores estatísticos consolidados camufla uma das faces mais complexas da rotina de ensino: a violência silenciosa contra crianças atípicas. Essa dinâmica nem sempre deixa marcas físicas ou gera denúncias formais; manifesta-se, majoritariamente, por meio do isolamento em sala de aula, da exclusão de atividades coletivas, da falta de suporte adequado e de práticas capacitistas.
Embora o debate sobre inclusão tenha avançado nos últimos anos, O Mapa Autismo 2026 revela que o diagnóstico do transtorno ocorre, em média, apenas aos 11 anos de idade. Diante desse cenário de identificação tardia, pesquisadores apontam que a adaptação das instituições de ensino permanece desigual, expondo falhas estruturais na formação de profissionais, no acompanhamento pedagógico e na identificação de situações de negligência.

Reprodução: Acervo Ponto de Vista
Dados da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro mostram um crescimento contínuo no número de alunos da Educação Especial matriculados na rede municipal. Em 2021, eram 18 mil estudantes incluídos. O número passou para 21 mil em 2022, 24 mil em 2023, 28 mil em 2024, 32 mil em 2025 e chegou a 33 mil em 2026. Desse total, 23,9 mil possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).
Segundo a Secretaria, a expansão do atendimento foi acompanhada pelo aumento da estrutura de suporte. Atualmente, a rede municipal conta com 10 mil profissionais dedicados exclusivamente à Educação Especial, entre professores de atendimento especializado e agentes de apoio. O município também destaca a atuação do Instituto Municipal Helena Antipoff (IHA), responsável pela formação continuada de profissionais, produção de recursos pedagógicos e acompanhamento de alunos nas unidades escolares.

Apesar do avanço nos números, profissionais da rede de ensino afirmam que ainda existe uma lacuna entre inclusão formal e participação efetiva dentro das escolas. A professora especializada em cuidados com crianças atípicas, Ana Eduarda, avalia que parte dos profissionais da educação não possui preparo suficiente para lidar com o autismo e outras neurodivergências.
— Quando um profissional tem um pensamento capacitista, ele define toda a vivência da criança em sala — afirma.
De acordo com ela, algumas práticas ainda naturalizadas podem configurar formas de violência institucional, principalmente quando a criança é excluída de atividades por uma percepção prévia de incapacidade.
A discussão também envolve a chamada “violência simbólica”, conceito analisado por uma pesquisa da UNIFEBE, de 2025, que aponta o isolamento de crianças atípicas em salas separadas e a negativa de mediadores como formas normalizadas de exclusão dentro do ambiente escolar.
Carolina Baggia, mãe de uma criança atípica que já sofreu com a violência na escola, relata que a exclusão não ocorre apenas no contexto pedagógico, mas também em espaços de convivência, como refeitórios, filas e atividades coletivas. Segundo ela, muitas escolas particulares ainda não oferecem profissionais mediadores, concentrando o acompanhamento exclusivamente no professor da turma.

A Secretaria Municipal de Educação afirma que o acompanhamento individual não é necessário para todos os estudantes da Educação Especial. De acordo com a pasta, a necessidade de mediador exclusivo é definida por avaliação psicopedagógica da equipe escolar, baseada em observação contínua do aluno e apoio de laudos médicos. O objetivo, segundo o órgão, é garantir suporte adequado sem comprometer a autonomia da criança.
Além do acompanhamento pedagógico, a rede municipal utiliza o Plano Educacional Individualizado (PEI), instrumento que registra objetivos, estratégias e avaliações do desenvolvimento dos estudantes ao longo do ano letivo.
Para a assistente social Fátima Pires, que atua em um instituto especializado no atendimento de crianças atípicas, a diferença entre instituições preparadas e espaços sem estrutura adequada aparece no cotidiano escolar.
— Uma instituição que não está pronta tende a tratar todo mundo igual, sem considerar as diferenças. Isso acaba excluindo ou causando sofrimento, mesmo sem intenção — explica.
O obstáculo para ações de fiscalização e prevenção reside nos critérios de notificação do governo federal. Atualmente, os sistemas oficiais utilizam predominantemente um conceito médico de deficiência voltado a casos severos e visíveis, o que deixa parte significativa dos estudantes neurodivergentes fora das estatísticas.
Sem métricas institucionais que mapeiem o ambiente escolar, episódios de agressão, isolamento, contenção física e negligência correm o risco de ser tratados apenas como problemas disciplinares ou falhas pedagógicas.
Segundo a Nota Técnica nº 54 do Ipea, publicada em 2021, os dados oficiais sobre violência contra pessoas com deficiência ainda são limitados e subestimam os casos reais, especialmente entre crianças e idosos. Essa fragilidade nos registros é agravada pela demora na identificação clínica das neurodivergências. Quando a confirmação do diagnóstico ocorre tardiamente, muitas crianças atravessam toda a primeira infância sem acesso às garantias previstas pela Lei Berenice Piana (Lei 12.764/12). Sem o laudo ou a identificação formal, esse público permanece invisível para as estatísticas e desassistido pelas políticas específicas de proteção.


Fátima Pires afirma que a falta de preparo institucional impacta diretamente a identificação de sinais de sofrimento, principalmente em crianças com dificuldades de comunicação verbal.
— A escuta não é só o que a criança fala. Muitas vezes ela se comunica de outras formas, como no comportamento e nas reações ao ambiente — diz.
Diante do cenário exposto, o desafio central deixa de ser a garantia do acesso às salas de aula e passa a ser a sustentabilidade da permanência. A superação dessa violência silenciosa exige uma transição urgente do acolhimento burocrático para a fiscalização ativa no ambiente institucional. Na prática, a resolução desse problema passa pela criação de comissões de mediação locais que incluam a participação direta das famílias na rotina escolar, além da aplicação de questionários periódicos e anônimos para mapear o clima na comunidade. Também se mostra necessária a presença de equipes multidisciplinares, com psicólogos e terapeutas ocupacionais que circulem pelas unidades para prestar suporte direto aos professores e funcionários em momentos críticos, como o intervalo e as refeições. Sem essa revisão prática na rotina e sem mecanismos que validem a percepção das famílias e das equipes técnicas, a inclusão corre o risco de se consolidar apenas no papel, mantendo milhares de estudantes atípicos à margem do desenvolvimento pedagógico e social.



