Baixada Fluminense sofre com enchentes e negligência na infraestrutura

Falta de saneamento e alagamentos agravam a desigualdade na Baixada Fluminense

Nascer no Rio de Janeiro significa conviver desde cedo com problemas urbanos que fazem parte da realidade da população. Porém, quanto mais periférica é a região, maiores costumam ser os impactos causados pela falta de infraestrutura e pela desigualdade social. Em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense, as fortes chuvas são um dos maiores exemplos dessa situação. Alagamentos, rios poluídos, lixo acumulado nas ruas e falta de saneamento básico fazem parte da rotina de muitos moradores, que convivem frequentemente com prejuízos, dificuldade de locomoção e riscos à saúde.


As enchentes em Duque de Caxias não acontecem apenas por causa da chuva. Elas também são consequência de anos de crescimento desordenado, ocupação irregular de áreas próximas aos rios, falta de planejamento urbano e ausência de investimentos suficientes em infraestrutura. Em muitos bairros periféricos, moradores vivem com medo de perder móveis, eletrodomésticos e até mesmo suas casas durante temporais mais fortes.


Outro problema que contribui diretamente para os alagamentos é o descarte irregular de lixo. Sacolas plásticas, garrafas PET e outros resíduos acabam entupindo bueiros e canais, impedindo o escoamento da água da chuva. Em áreas onde o saneamento já é precário, o problema se torna ainda maior, principalmente porque muitas pessoas acabam tendo contato direto com água contaminada.


A situação de Duque de Caxias está diretamente ligada à bacia dos rios Iguaçu e Sarapuí, considerada uma das áreas mais críticas do estado do Rio de Janeiro em relação às enchentes. Antes das primeiras intervenções feitas pelo poder público, cerca de 300 mil pessoas eram afetadas pelas inundações. Mesmo após obras de drenagem e contenção, aproximadamente 180 mil pessoas ainda vivem em áreas de risco.

Gráfico de pessoas afetadas pela enchente

Os rios Sarapuí e Iguaçu atravessam áreas bastante povoadas e sofreram muita degradação ambiental ao longo dos anos. A ocupação intensa das margens dos rios provocou perda de mata ciliar e aumentou os riscos ambientais na região. Além disso, várias áreas de Duque de Caxias ficam abaixo do nível dos rios, dificultando o escoamento da água durante períodos de chuva forte.


Os casos mais graves costumam acontecer no verão, período em que as chuvas ficam mais intensas por influência da Zona de Convergência do Atlântico Sul. Em fevereiro de 2026, Duque de Caxias registrou cerca de 124,6 milímetros de chuva em apenas 24 horas, além de aproximadamente 700 milímetros acumulados em 19 dias. O temporal afetou 26 bairros do município, incluindo Pilar, Jardim Primavera, Saracuruna e Pantanal.

As enchentes não são um problema recente. Em janeiro de 1997, uma das maiores tragédias da região deixou aproximadamente 30 mil pessoas desalojadas. Entre 2010 e 2022, o estado do Rio de Janeiro registrou 752 desastres naturais, sendo enchentes e alagamentos as principais causas de mortes e prejuízos.


Por trás desses números existem histórias de moradores que convivem diariamente com a falta de infraestrutura e com o abandono do poder público. Um dos entrevistados para esta reportagem foi Josué Gonçalves, morador do bairro Pilar há mais de 35 anos. Segundo ele, a falta de saneamento básico continua sendo um dos principais problemas da região.

– Aqui nós não temos saneamento, é muito pouco esgoto, aqui é tudo entupido – disse Josué Gonçalves. O morador também comentou sobre a desigualdade existente entre bairros periféricos e outras áreas da cidade. – Tudo é desigual porque aqui só quem ganha é eles, a gente não ganha nada – afirmou.


Josué relembrou enchentes anteriores e relatou situações vividas pela população. – Eu já saí com água no pescoço, vi gente perder tudo – continuou.


Carlos Augusto, líder comunitário do Jardim Panamá e fundador da associação de moradores do bairro, afirmou que algumas áreas sofrem constantemente com enchentes devido à falta de obras estruturais.

– Toda vez que chove, ali tudo enche – afirmou Carlos Augusto. Ele também destacou que parte da população contribui para agravar o problema ao descartar lixo de maneira irregular.

Gráfico de Investismentos feitos ao longo do ano


A posição dos moradores deixa claro como as enchentes estão diretamente ligadas à desigualdade social. Enquanto algumas áreas possuem melhor infraestrutura urbana, bairros periféricos continuam sofrendo com problemas históricos relacionados à drenagem, saneamento e coleta de lixo.


Além dos prejuízos materiais, as enchentes também causam impactos na saúde pública. O contato com água contaminada aumenta os riscos de doenças como leptospirose, hepatite e infecções intestinais. Muitas famílias convivem com lama, esgoto e mau cheiro após os períodos de chuva intensa.


Outro problema enfrentado pela população é a dificuldade de locomoção durante os alagamentos. Ruas ficam interditadas, ônibus deixam de circular e muitos trabalhadores acabam não conseguindo chegar ao trabalho. Em bairros periféricos, onde grande parte da população já enfrenta dificuldades financeiras, perder dias de trabalho representa ainda mais problemas.


Na tentativa de diminuir os impactos das enchentes, surgiu na década de 1990 o Projeto Iguaçu. A proposta incluía obras de drenagem, recuperação de rios e urbanização de áreas próximas aos canais. Em 2007, o projeto foi reformulado e passou a abranger seis municípios da Baixada Fluminense. O plano previa 25 intervenções e investimento inicial de aproximadamente 270 milhões de reais.


Apesar disso, as obras sofreram atrasos e paralisações ao longo dos anos. Até 2014, quando a primeira fase foi parcialmente concluída, os gastos já ultrapassavam 450 milhões de reais. Mesmo assim, várias obras permaneceram inacabadas.


Em 2024, após novos episódios de enchentes, um novo projeto de recuperação foi apresentado com valor estimado em 733 milhões de reais. Somando os investimentos anteriores, os gastos públicos relacionados ao controle de enchentes na região já ultrapassam 1 bilhão de reais.

Além das obras estruturais, especialistas também apontam a importância da conscientização ambiental e da participação das universidades nesse debate. Durante entrevista para esta reportagem, o professor de arquitetura e urbanismo Fábio Bruno destacou o papel das universidades na formação de cidadãos mais conscientes.

– O papel da universidade é fundamental para a criação de uma sociedade mais igualitária – disse o professor. Segundo Fábio Bruno, as universidades não servem apenas para formar profissionais, mas também cidadãos conscientes sobre problemas sociais e urbanos. – Você não está somente ensinando uma profissão, mas ajudando a formar aquele aluno como ser humano – afirmou.


Tentamos entrar em contato com a Prefeitura Municipal de Duque de Caxias, porém, não obtivemos resposta.


A situação enfrentada por moradores de Duque de Caxias mostra como enchentes, lixo urbano, poluição dos rios e falta de saneamento estão diretamente ligados à desigualdade social. Enquanto parte da população vive em áreas com melhor infraestrutura, moradores de bairros periféricos continuam convivendo com riscos constantes, prejuízos e abandono.
Mesmo após décadas de obras e bilhões investidos em projetos de drenagem e recuperação, as enchentes continuam fazendo parte da realidade da Baixada Fluminense. O problema mostra que não basta apenas realizar obras emergenciais após tragédias. Também é necessário investir na conscientização dos moradores, em saneamento, preservação ambiental, planejamento urbano e políticas públicas capazes de melhorar a qualidade de vida da população.

Redação Gestão e Tratamento de Dados
Redação Gestão e Tratamento de Dados
Matéria produzida pelos alunos do módulo Gestão e Tratamento de Dados, da Escola de Comunicação da Unisuam.

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