Aumento no roubo de veículos expõe desigualdade entre Zona Norte e Zona Sul do Rio

Dados do ISP mostram diferença nos índices de criminalidade entre as duas regiões da cidade.

Por Emanuelle Maia, Victor Gama, João Lucas Goulart, Joyce Lopes e Thaylane Santos.

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• Dados das Áreas de Segurança Pública evidenciam discrepâncias entre os números de roubo de veículos entre a Zona Norte e a Zona Sul do Rio de Janeiro.
• A região do Méier lidera o número de roubos de veículos com 216 casos no mês de fevereiro de 2026, em comparação com o bairro de Copacabana que registrou apenas um caso.
• Entrevistados relatam a vivência com maiores taxas de criminalidade com pouco policiamento.
• Os fatos históricos mostram que a violência no Rio de Janeiro não atinge todos os territórios de forma homogenia.

Enquanto bairros da Zona Sul registram poucos casos de roubo de veículos, moradores e trabalhadores da Zona Norte convivem diariamente com o medo da violência e mudanças constantes na rotina. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), revelam como a criminalidade se distribui de forma desigual no Rio de Janeiro e evidenciam diferenças estruturais entre regiões da cidade.

O levantamento utilizou dados das Áreas Integradas de Segurança Pública (AISPs), divisões territoriais usadas pelas forças de segurança para monitorar ocorrências e analisar frequência e tipo de roubos e furtos que ocorrem nas áreas da Zona Norte e Zona Sul do Rio de Janeiro.

A comparação considera fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026. Na AISP 3, na região do Méier, Engenho de Dentro e Jacaré, os roubos de veículos aumentaram de 184 para 216 casos, crescimento de 17%. Já na AISP 6, referente à Tijuca/Maracanã e Vila Isabel, caiu de 83 para 52 ocorrências (-37%). Enquanto na AISP 16, que corresponde às áreas de Olaria, Ramos e Bonsucesso, a redução foi de 120 para 86 casos (-28%).

Enquanto na Zona Sul, os números são significativamente menores. A AISP 2, que abrange Botafogo, Flamengo e Laranjeiras, o número de roubos de veículos caiu de 24 para 10 registros, representando uma queda de 58%. Já a AISP 19, referente a Copacabana e Leme, manteve apenas 1 caso nos dois períodos analisados. A AISP 23, do Leblon, Ipanema, Gávea e Lagoa, variou de 7 para 8 ocorrências (+14%).

A diferença aparece também no comparativo geral. Somadas, as AISPs analisadas da Zona Norte registraram 354 casos em fevereiro de 2026. Na Zona Sul, o total foi de 19 ocorrências.

Por: Emanuelle Maia

“A gente se acostuma com o medo”

Motorista de aplicativo, Jackson, de 40 anos, foi vítima de um assalto enquanto levava a esposa para o trabalho, no bairro do Rocha, Zona Norte do Rio. Segundo ele, criminosos armados e em motocicletas interceptaram o carro e retiraram o casal do veículo de forma agressiva. Além do automóvel, objetos pessoais também foram levados. O episódio deixou consequências emocionais, além de um temor constante junto a uma mudança de rotina e hábitos ao transitar pela cidade.

“A segurança na Zona Sul é muito maior. Tem mais policiamento, mais viatura na rua. Na Zona Norte isso quase não existe”.

Jackson, motorista de aplicativo

Trauma que permanece anos depois

Alexandre, de 50 anos, motorista de aplicativo também teve a rotina alterada após sofrer um roubo em Bento Ribeiro, na Zona Norte. O veículo, recém-comprado, foi levado durante uma corrida particular. Segundo ele, homens armados cercaram o carro enquanto transportava passageiras, incluindo uma mulher grávida.

“Mesmo depois de anos, quando passo pelo local, lembro exatamente do que aconteceu”.

Alexandre, motorista de aplicativo.

Além do impacto emocional, Alexandre ficou cerca de três meses sem trabalhar enquanto aguardava a resolução do seguro. Desde então, passou a atuar apenas próximo ao bairro onde mora.

Diferença na presença policial

Um policial militar entrevistado pela reportagem afirmou que os roubos de veículos e de cargas cresceram nos últimos anos, principalmente na Zona Norte. Segundo ele, áreas extensas são patrulhadas por poucas equipes, o que compromete a capacidade de resposta da polícia.

“O efetivo é pequeno para regiões muito grandes. Muitas vezes uma viatura precisa cobrir vários bairros”

Policial Militar

O agente também destaca diferenças no policiamento entre as regiões da cidade. Enquanto a Zona Sul conta com maior presença ostensiva e patrulhamento a pé, bairros da Zona Norte enfrentam cobertura reduzida.

Mais de 13 mil roubos em um ano

Dados compilados pelo Sindicato das Seguradoras do Rio de Janeiro, com base em informações do ISP, apontam que mais de 13 mil roubos de veículos foram registrados no município em 2025. Além da alta incidência, a recuperação dos automóveis permanece baixa. Segundo o levantamento, menos da metade dos veículos roubados foi recuperada. O impacto também é financeiro. O setor segurador registrou mais de R$ 2,3 bilhões pagos em indenizações relacionadas a automóveis no estado ao longo do ano.

Por: Emanuelle Maia

Violência além dos números

Os dados e os relatos ouvidos na reportagem mostram que os roubos de veículos não representam apenas estatísticas de segurança pública. Em muitas regiões da cidade, principalmente na Zona Norte, a violência interfere diretamente em diversos fatores da vida em sociedade.

Os dados das AISPs evidenciam que a distribuição da criminalidade acompanha desigualdades históricas do Rio de Janeiro. Enquanto regiões da Zona Sul apresentam baixos índices e maior presença de policiamento ostensivo, bairros da Zona Norte convivem com ocorrências mais frequentes e uma percepção constante de vulnerabilidade.

Essa diferença aparece não apenas nos números, mas também nos relatos das vítimas. Mudanças de trajeto, redução de horários de trabalho, medo ao circular pela cidade e impactos psicológicos prolongados demonstram como a violência altera comportamentos e afeta diretamente a qualidade de vida da população.

Os dados mostram que a violência no Rio de Janeiro não atinge todos os territórios da mesma forma. Embora os índices de roubos de veículos tenham apresentado redução em algumas áreas, a discrepância entre a Zona Norte e a Zona Sul permanece evidente. Mais do que contabilizar ocorrências, compreender esse cenário através dos dados auxilia numa busca para evidenciar uma metrópole marcada por contrastes. Os dados revelam que a violência acompanha as desigualdades socioeconômicas, influenciando diretamente a mobilidade, o acesso a oportunidades e a sensação de segurança da população.

Como caminho para reduzir essa desigualdade, a população reivindica a ampliação da presença do Estado em áreas mais vulneráveis, combinando investimentos em policiamento, infraestrutura urbana e políticas públicas (principalmente na área da educação). Essas medidas têm como finalidade não só combater a violência, mas enfrentar suas causas e garantir a segurança e os direitos dos cidadãos de forma mais equilibrada entre os diferentes territórios da cidade.

E você? Já foi vítima da violência? Percebe a diferença em termos de segurança entre as Zonas Norte e Sul? Deixe o seu comentário!

Foto destacada: Victor Gama
Multimidia: Emanuelle Maia, Victor Gama, Joyce Lopes e Site Magnific.

Redação Gestão e Tratamento de Dados
Redação Gestão e Tratamento de Dados
Matéria produzida pelos alunos do módulo Gestão e Tratamento de Dados, da Escola de Comunicação da Unisuam.

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