Projetos de incentivo, políticas públicas e oportunidades de retomada dos estudos ajudam a reduzir o abandono escolar no Rio de Janeiro
Por Alexia Rosa, Betinho Casas Novas, Emelly Silva e Marllon Fortunato
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A evasão escolar ainda é um desafio no Brasil, mas programas de incentivo, políticas públicas e oportunidades de retomada dos estudos têm contribuído para reduzir o abandono escolar e ampliar as oportunidades de jovens e adultos. A educação segue sendo uma importante ferramenta de transformação social.
Causas da evasão escolar no Brasil
Programas e políticas de combate ao abandono escolar
A evasão escolar continua sendo um dos principais desafios da educação brasileira. Todos os anos, milhares de estudantes interrompem sua trajetória acadêmica por motivos que vão desde dificuldades financeiras até a necessidade de ingressar precocemente no mercado de trabalho. No entanto, iniciativas recentes têm contribuído para mudar esse cenário, especialmente no estado do Rio de Janeiro, onde programas de permanência e reinserção escolar vêm apresentando resultados positivos.
Para muitos estudantes, a rotina de frequentar a escola diariamente parece algo comum. Para outros, porém, ela foi interrompida por circunstâncias que ultrapassam os muros da sala de aula. Dados de órgãos como o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que reprovações sucessivas, vulnerabilidade social, falta de incentivo familiar e dificuldades de aprendizagem estão entre os fatores que mais contribuem para o abandono escolar.
Além desses obstáculos, questões relacionadas à violência urbana também impactam diretamente a permanência dos alunos nas escolas. Em comunidades marcadas por conflitos armados, interrupções frequentes das aulas e dificuldades de deslocamento acabam comprometendo o processo de aprendizagem e aumentando o risco de evasão.
Foi o que aconteceu com Rodrigo dos Santos, de 34 anos. Ainda jovem, ele precisou abandonar o ensino médio para trabalhar e ajudar no sustento da família. Com o passar dos anos, percebeu que a falta da conclusão dos estudos limitava suas oportunidades profissionais.

Foto: Acervo pessoal
“Eu acabei saindo da escola porque precisava trabalhar. Fui deixando os estudos de lado. Hoje estou tentando recuperar esse tempo pelo Encceja para não ficar sem estudo”, relata.
Após concluir o ensino médio por meio do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), Rodrigo conseguiu ingressar no ensino superior e ampliar suas perspectivas profissionais.
Histórias como a dele ainda são comuns em todo o país. Muitos jovens acabam priorizando o trabalho em detrimento da educação, especialmente em famílias que enfrentam dificuldades econômicas. Outros desistem diante da sensação de fracasso provocada por reprovações consecutivas ou pela falta de identificação com o ambiente escolar.
Para enfrentar essa realidade, o poder público tem desenvolvido novas estratégias de prevenção ao abandono escolar. Uma delas é a legislação estadual sancionada em 2024, que instituiu a Política de Prevenção ao Abandono e à Evasão Escolar no Rio de Janeiro. A medida estabelece diretrizes para que escolas e órgãos públicos identifiquem precocemente alunos em situação de risco, promovendo acompanhamento pedagógico e ações voltadas à permanência dos estudantes na rede de ensino.
Segundo especialistas da área da educação, o combate à evasão exige um trabalho conjunto entre escola, família e governo. Mais do que garantir a matrícula, é necessário criar condições para que o estudante permaneça aprendendo e se desenvolvendo.

Foto: Acervo pessoal
A pedagoga Márcia Avelar, 46 anos, destaca que a escola desempenha um papel fundamental na construção do futuro dos jovens.
“A educação é uma ferramenta de transformação social. Quando conseguimos trazer um aluno de volta para a escola e garantir que ele permaneça estudando, estamos ampliando suas oportunidades de vida e fortalecendo toda a sociedade”, afirma.
Os resultados dessas iniciativas já começam a aparecer. Dados recentes mostram uma redução gradual dos índices de abandono escolar no estado do Rio de Janeiro. Algumas unidades de ensino chegaram a registrar evasão zero, resultado atribuído à atuação integrada entre gestores, professores, equipes pedagógicas e programas de acompanhamento estudantil.
Entre 2023 e 2024, a taxa média de abandono no ensino médio estadual ficou em torno de 5,6%.


Na rede municipal, a evasão caiu pela metade entre 2022 e 2023, atingindo o menor índice registrado em mais de quinze anos.
A estudante Mariana Beatriz, de 19 anos, faz parte dessa estatística positiva. Ela deixou o ensino médio ainda no primeiro ano para trabalhar. Segundo conta, os horários e a rotina profissional acabaram dificultando a continuidade dos estudos.
“Eu parei porque estava desmotivada. Trabalhava o dia inteiro e não conseguia conciliar tudo. Depois de um tempo percebi que precisava voltar. Hoje estudo à noite pela EJA e vejo que ainda dá tempo de correr atrás”, conta.

Foto: Betinho Casas Novas
Programas como o Pé-de-Meia também têm desempenhado papel importante nesse processo. A iniciativa oferece incentivo financeiro para estudantes que mantêm frequência escolar regular, ajudando a reduzir a evasão entre jovens em situação de vulnerabilidade social.

Outra estratégia adotada é o fortalecimento da Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade que permite a retomada dos estudos por pessoas que interromperam a formação escolar. Para muitos brasileiros, ela representa uma segunda oportunidade de reconstruir sonhos e ampliar perspectivas profissionais.
Nesse contexto, o letramento surge como uma ferramenta essencial. Mais do que ensinar a ler e escrever, ele promove autonomia, inclusão social e participação cidadã. Ao desenvolver competências de interpretação, comunicação e pensamento crítico, o estudante passa a compreender melhor o mundo ao seu redor e suas possibilidades dentro dele.
Embora os desafios ainda sejam significativos, cada aluno que retorna à escola representa uma vitória coletiva. A redução da evasão escolar depende de políticas públicas consistentes, investimentos em educação e ações permanentes de acolhimento.
Entre o abandono e o recomeço, milhares de estudantes seguem escrevendo novas histórias. Histórias que demonstram que, mesmo após a interrupção dos estudos, sempre existe a possibilidade de voltar, aprender e transformar o próprio futuro.
“Quantas vidas podem mudar quando a educação recebe uma segunda chance?”
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