Dia a dia dos moradores da Zona Norte é diretamente impactado pela recorrente violência na região
Por Bernardo Andrade, João Martins, Kauan Gurgel, Miguel Salbego, Temer Abrão e Thiciany Menezes
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Cativeiro do medo: Tiroteios frequentes na Zona Norte obrigam moradores a mudar hábitos e geram isolamento e pânico dentro de casa.
Estudo interrompido: Escolas fecham ou improvisam “protocolos de guerra” — usando TV e música para abafar tiros — para tentar proteger as crianças.
Transporte paralisado: Entre 2023 e 2025, os confrontos interromperam o transporte público mais de 2.200 vezes, afetando a rotina de 190 mil estudantes.
Dados desiguais: Apesar da queda de 10,8% na violência do estado no início de 2026, os assassinatos subiram 10,5% no Norte e Noroeste Fluminense.
Segregação social: A concentração da violência na Zona Norte e nas periferias evidencia escolhas políticas que abandonam e isolam as populações mais vulneráveis.
Os constantes tiroteios e episódios de violência em bairros da Zona Norte do Rio de Janeiro têm impactado diretamente a rotina dos moradores, que convivem com interrupções no transporte, fechamento de escolas e sensação permanente de insegurança.
Segundo relatório publicado em março de 2026 pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegismo (GENI) Instituto Fogo Cruzado e UNICEF, foi analisado que o risco elevado na mobilidade educacional da Zona Norte do Rio de Janeiro está concentrado em um único corredor territorial.
De 71 escolas, 70 foram classificadas como alto risco ou muito alto, localizadas no eixo Penha–Alemão–Ramos–Irajá–Madureira, associado a grandes vias estruturais como Avenida Brasil, Linha Vermelha, Linha Amarela e outras, que organizam os principais fluxos de circulação da região.
Além disso, moradores da região da Zona Norte se sentem ameaçados e inseguros pelos frequentes tiroteios, sendo até mesmo obrigados a mudar a rotina em decorrência dos confrontos.

Kauanny Souza, moradora do bairro Cavalcanti, relata que os tiroteios começam em horários inesperados, deixando os moradores inseguros e presos em casa. A jovem relata um dos momentos mais assustadores que passou enquanto moradora da região.
“Uma situação que me marcou foi quando eu estava na escola, que fica dentro da comunidade. Durante um tiroteio, criminosos acabaram entrando na escola para se esconder. Os alunos precisaram se abrigar dentro da unidade, enquanto os responsáveis tiveram que sair de casa em meio ao confronto para buscar os filhos.”
Kauanny Souza
Assim como a moradora, o policial Thiago Gomes reforça a insegurança da população, dizendo que as leis precisam ser mais severas e corretivas.

“Os confrontos atrapalham a rotina dos moradores da região pelo fato dos serviços essenciais acabarem sendo paralisados para evitar os efeitos colaterais e garantir a segurança dos cidadãos durante o tempo de operação“, relata o policial.
Dados do Instituto Fogo Cruzado mostram que, entre os bairros mais afetados por tiroteios e disparos de arma de fogo na Região Metropolitana do Rio, os bairros da Zona Norte estão em destaque.

Como a violência armada afeta a garantia do direito à educação?
A pesquisadora associada ao Laboratório de Estudos sobre Conflitos, Cidadania e Segurança Pública da UFF, Elizabete Albernaz, avalia que a violência armada gera um impacto na distribuição de direitos, influenciando diretamente o direito à educação e até mesmo o direito de ir e vir, que é afetado pelos confrontos.

Com a violência armada no Rio, entre janeiro de 2023 e julho de 2025, foram registradas 2.228 interrupções no transporte público na cidade, segundo estudo do UNICEF, Instituto Fogo Cruzado e GENI/UFF. Ao menos 188.694 crianças e adolescentes da rede municipal tiveram seus trajetos de casa para escola afetados por interrupções no transporte público.
Já Alessandra Aguiar, diretora de uma escola localizada na Maré, compartilha seus métodos para proteger seus alunos quando estão em uma situação vulnerável.
“Já quando estamos dentro da escola durante um confronto, seguimos outro protocolo. Observamos de onde vêm os disparos e identificamos quais salas precisam ser evacuadas. Aqui temos uma política de não expor as crianças a situações traumáticas, então não as colocamos deitadas no chão. Utilizamos recursos como televisão, som e atividades lúdicas para mantê-las tranquilas enquanto as transferimos para locais mais seguros.”
Desigualdade estrutural
Os direitos sociais, como segurança, saúde, transporte e lazer, são fundamentais para população. As interrupções do direito de ir e vir ocorrem de forma desproporcional às outras regiões, conforme demonstram dados fornecidos pelo Instituto Fogo Cruzado e pela UNICEF. Isso gera um grande impacto na mobilidade urbana, interferindo no desenvolvimento social e fazendo com que os cidadãos deixem de ter acesso a direitos garantidos, como, por exemplo, a educação.

Elizabete Albernaz ressaltou também que a educação é o principal instrumento de formação cívica. Esse cenário afeta a coesão social, impactando a formação de cidadãos.
“A violência armada pode ser vista como desigualdade estrutural, mas a partir do momento que a gente não entende como pobreza, pois as criminalizam e as responsabilizam pelos seus malefícios, isso contribui para um processo de segregação socioespacial. Também é uma escolha política do estado do Rio em enfrentar essa situação dessa maneira,” analisa.
Elizabete Albernaz
Por fim, a pesquisadora cita Vida Sob Cerco, livro de Luiz Antônio Machado da Silva, que sintetiza o cotidiano marcado por constantes conflitos e violações de direitos, problemas esses que ainda se fazem presente na Zona Norte do Rio de Janeiro, afetando grande parte da população.
A violência na Zona Norte afeta ou já afetou a sua rotina? Deixe aqui o seu relato.



