Após queda em 2025, número de roubos volta a subir e expõe o impacto da violência na rotina de trabalhadores e motoristas da Zona Norte do Rio de Janeiro.
Por Victor Santos, Felipe Formoso, Kayo Lucca, Elaine Ribeiro, Lincoln Aguiar
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- Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que os roubos de veículos cresceram 32% na Zona Norte do Rio de Janeiro entre janeiro e maio de 2026. Foram 4.431 ocorrências registradas, contra 3.366 no mesmo período de 2025.
- Especialistas apontam que o aumento está relacionado à atuação do crime organizado, que utiliza veículos roubados em esquemas de receptação, desmontagem e outros crimes. Segundo eles, a presença de grandes corredores viários na região também facilita a ação dos criminosos.
- Entre janeiro e abril de 2026, cinco CISPs concentraram mais da metade dos roubos de veículos registrados. A CISP 29 liderou o ranking com 398 ocorrências, seguida pelas CISPs 27 (307), 44 (237), 40 (195) e 31 (191).
- Os crimes se concentram principalmente entre 17h e 20h, com pico registrado às 20h de terça-feira.
- Procurada pela reportagem, a Polícia Militar informou que tem ampliado operações, investimentos em tecnologia e reforço do policiamento. Especialistas, porém, avaliam que as medidas ainda produzem resultados pontuais e defendem ações permanentes de inteligência para combater as estruturas que financiam esse tipo de crime.
Os roubos de veículos representaram alta recente na Zona Norte do Rio de Janeiro em 2026. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, entre janeiro e maio deste ano, foram registradas 4.431 ocorrências, contra 3.366 no mesmo período de 2025, um aumento de 32%. Segundo especialistas, tudo isso está relacionado à atuação do crime organizado, que utiliza veículos roubados para abastecer uma cadeia criminosa que inclui receptação, desmontagem e uso em outras ações ilícitas.
A alta descontinua a queda registrada em 2025, quando o número de roubos havia recuado 26% em relação ao ano anterior. Com isso, 2026 registra o maior volume de ocorrências para o período desde 2024, reforçando uma tendência de crescimento observada nos últimos anos.
Os dados mais recentes também revelam a concentração territorial. Entre janeiro e abril de 2026, apenas cinco CISPs (Circunscrição Integrada de Segurança Pública) responderam por mais da metade dos roubos de veículos registrados. A CISP 29 (Madureira) liderou o ranking, com 398 ocorrências, seguida pelas CISPs 27 (Vicente de Carvalho – 307 casos), 44 (Inhaúma – 237 casos), 40 (Honório Gurgel – 195 casos) e 31 (Ricardo de Albuquerque – 191 casos).
A análise temporal mostra ainda que os crimes se concentram principalmente no fim da tarde e no início da noite. O período entre 17h e 20h apresentou os maiores índices de ocorrência, com pico registrado às 20h de terça-feira.
Consequências no cotidiano
O impacto desse cenário pode ser percebido na rotina de quem depende do veículo para trabalhar. Thiago Nascimento, um dos entrevistados pela equipe teve sua moto roubada enquanto realizava uma corrida: “Dois elementos em cima de uma moto chegaram já apontando a arma, mandando eu descer da moto, falando para eu entregar a moto e que, se eu tentasse alguma coisa, eles iam me matar”, relembra.
“O roubo da minha moto impactou drasticamente a minha vida. Não só financeiramente, mas também mentalmente. Não tem um dia que passe que eu não lembre do episódio. Minha moto era meu meio de locomoção e minha ferramenta de trabalho.”
Thiago Nascimento
Para Amanda Guimarães, especialista em segurança pública, o crescimento dos roubos na Zona Norte não ocorre por acaso: “O crescimento desse tipo de crime resulta de uma combinação de fatores. Há uma atuação mais intensa desses grupos criminosos organizados, aliada à presença de importantes vias de circulação, que facilitam tanto a abordagem das vítimas quanto a fuga.”
Ela explica que o roubo de veículos deixou de ser apenas um crime patrimonial e passou a integrar uma estrutura criminosa mais ampla: “Hoje ele faz parte de uma cadeia que envolve desde a subtração até a revenda ou reutilização em outras práticas ilícitas.”
De acordo com a especialista, comunidades dominadas por facções frequentemente são utilizadas para esconder, desmontar ou reutilizar veículos roubados: “As próprias forças de segurança já reconhecem esse tipo de delito como uma importante fonte de financiamento dessas organizações.”, ela afirma.

Os efeitos da violência também atingem motoristas que utilizam o carro apenas para deslocamentos pessoais. Diogenes, morador da região, assaltado no fim de 2025 enquanto trafegava pelo acesso da Avenida Brasil, afirma que nunca recuperou o veículo roubado: “Passei a ter medo de dirigir, algo que sempre gostei muito”.
Segundo ele, seis criminosos divididos em três motocicletas fecharam seu carro e o obrigaram a entregar o veículo sob ameaça. Apesar de não ter sofrido agressões físicas, as consequências permanecem.
“Evito dirigir muito tarde da noite e, em algumas situações, chego a ter crises de ansiedade quando estou dirigindo”.
Diogenes Santos
Geografia dos dados
Para o geógrafo Hugo Costa, criador do mapa que sinaliza as chances de uma pessoa ser roubada no Rio de Janeiro, a concentração dos roubos na Zona Norte é um fenômeno histórico: “Os dados do ISP ao longo de toda sua série temporal mostram duas regiões com predominância absoluta: a Zona Norte da capital e os municípios da Baixada Fluminense. Juntas, essas áreas representam mais de 70% dos roubos registrados em todo o Estado do Rio de Janeiro”.
Costa destaca que os roubos passaram por diferentes ciclos ao longo das últimas décadas. Segundo ele, houve forte crescimento entre 2013 e 2018, seguido de redução durante a pandemia de Covid-19.
“O lockdown auxiliou na redução dos crimes, seja pelo auxílio financeiro ou pelo fato de menos pessoas estarem circulando nas ruas. Hoje os patamares de roubos se assemelham aos do período entre 2008 e 2012.”
Hugo Costa – Geógrafo
Resposta do Estado
Procurada pela reportagem, a Polícia Militar enviou uma nota informando que realiza operações planejadas em todo o estado por meio de suas unidades operacionais. Segundo a corporação, a Operação Impacto vem sendo ampliada em áreas estratégicas da capital para reduzir crimes de rua e aumentar a presença policial.
A PM também destacou investimentos em tecnologia, como sistemas de videomonitoramento, reconhecimento facial e leitura de placas, além da instalação de barreiras físicas em comunidades para dificultar a circulação de criminosos envolvidos em roubos de veículos e cargas.
A corporação informou ainda que mais de 14,7 mil pessoas foram presas em todo o estado neste ano e ressaltou a redução dos roubos de rua nos primeiros meses de 2026. Porém, os resultados obtidos até agora ainda são insuficientes para conter o avanço dos roubos de veículos.
Enquanto especialistas discutem estratégias de combate e as autoridades anunciam operações, milhares de moradores seguem adaptando seus trajetos, horários e hábitos diante de um problema que continua fazendo parte da rotina da população.
E você? Se sente seguro para circular na Zona Norte? Deixe o seu comentário!




Matéria importantíssima, parabéns pelo conteúdo!