Mulheres da Zona Norte enfrentam obstáculos para denunciar violência doméstica

Com 21.766 notificações de violência contra a mulher no município do Rio, a zona norte da região sofre com a falta de atendimento especializado e recorrem a delegacias comuns ou a centros de referência para buscar ajuda.

Por Jonatas Maia, Maria Alice Barros, Letícia Bernardina e Adão Alifias,

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Milhares de mulheres da Zona Norte do Rio enfrentam dificuldades para romper o círculo da violência;

Casos como de Samara Santos revelam como a demora no atendimento e a escassez de equipamento especializados podem agravar situações de violência doméstica;

Com altos índices de violência contra à mulher no Rio, a oferta limitada de atendimento especializado dificulta denúncias e amplia a vulnerabilidade das vítimas.

No ano de 2025, no estado do Rio de Janeiro, 30.006 meninas e mulheres foram vítimas de violência física, segundo o Observatório do Feminicídio, plataforma elaborada de forma colaborativa por diferentes órgãos. Ainda de acordo com o levantamento, o número de notificações de violência física registradas nos últimos dez anos (de 2015 a 2025) soma 84.190 casos.

Já no âmbito municipal, em 2025, foram contabilizadas 21.766 notificações de violência contra a mulher, conforme mostra o relatório Mapa da Mulher Carioca. O mesmo documento constata que 20,6% das agressões sofridas por mulheres partem dos próprios maridos, sendo a maioria das vítimas pretas e pardas (14.706 casos).

Embora não existam dados oficiais específicos para a Zona Norte do Rio de Janeiro, estimativas baseadas em dados do Instituto de Segurança Pública e do Observatório do Feminicídio, indicam que a região pode ter concentrado entre 6 mil e 8 mil casos de violência doméstica contra mulheres em 2025. 

Rede de atendimento limitado no Rio

Por outro lado, apesar de a Zona Norte ser composta por quase 90 bairros, apenas três Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), localizadas no Centro do Rio, na Zona Sul e em Jacarepaguá, atendem toda a demanda de violência de gênero no município do Rio, sendo a DEAM do Centro da cidade a mais próxima da Zona Norte. Diante dessa limitação, as vítimas recorrem a delegacias comuns ou a centros especializados para buscar ajuda.

“A Zona Norte concentra uma população enorme, com mulheres em situação de vulnerabilidade social, muitas vezes dependentes financeiramente do agressor, e que enfrentam obstáculos concretos para romper o ciclo da violência, como dificuldade de deslocamento, falta de informação, medo, ausência de acolhimento qualificado e sobrecarga dos equipamentos públicos”, explica a advogada feminista, mestranda em Direito pela PPGD da Universidade Federal Fluminense (UFF), Marina Sanches.

Com isso, mulheres desistem da denúncia ainda no início do processo e, como resultado, episódios de violência doméstica não são registrados oficialmente. Ou seja: a agressão existe, mas não aparece nas estatísticas da polícia, hospitais ou órgãos públicos.

“É importante lembrar que a mulher em situação de violência geralmente chega à delegacia em estado de medo, exaustão emocional e vulnerabilidade extrema. Quanto mais barreiras ela encontra, maior a chance de desistir da denúncia”

Marina Sanches – Advogada
Mapa de áreas de atendimento à mulher na Zona Norte do Rio – Arte: Adão Alifias

Jovem vítima de feminicídio no Rio

“Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180. Vou entregar teu nome e explicar meu endereço. Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço e jogo água fervendo se você se aventurar… Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim.” Nos versos da música ‘Maria da Vila Matilde‘, a cantora Elza Soares fala de forma direta contra a violência doméstica sofrida por mulheres. Neles, é possível ver como a personagem rompe, de forma contundente, com o ciclo de violência sofrida por ela por parte do marido ou namorado.

Infelizmente, a história da jovem Samara Santos de Oliveira, de 21 anos, teve um fim diferente da personagem desta música. Ao tentar romper com um ciclo de violência que teve início nos primeiros meses do relacionamento, a estudante de Publicidade e Propaganda foi morta minutos depois de chegar em casa, após retornar de uma festa de trabalho.

E o principal suspeito do crime é o ex-namorado, Vinícius Gomes Castro, que segue preso temporariamente. A reportagem conversou com a mãe de Samara, a representante comercial Amanda Santos, no Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam), lugar onde a filha cursava Publicidade e Propaganda e onde ela também chegou a estudar.

Amanda Santos com a camisa em memória da filha, Samara Santos – Foto: Letícia Bernardina

Ao subirmos as rampas da faculdade que dão acesso às salas de aula, Amanda comentou sobre como Samara era esforçada e se dedicava à faculdade enquanto dividia o tempo com o trabalho de promotora de eventos. Trabalho esse, inclusive, que esperava deixar, já que buscava um estágio em sua área de formação.

Quando encontramos uma sala reservada para conversarmos, a mãe da jovem confessou que Samara tinha medo do namorado e um bloqueio que a impedia de pedir ajuda. Segundo a representante comercial, a filha conheceu Vinícius no final de 2024, depois do término de um outro relacionamento. No ano seguinte, os dois jovens começaram a “ficar”, termo bastante utilizado para definir um relacionamento casual, sem assumir um compromisso sério.

O início das agressões

Depois de um tempo, Samara começou a reclamar com o rapaz que ele deveria assumi-lá e ter uma postura de alguém que realmente tivesse responsabilidade afetiva. Porém, Vinícius se esquivava disso e não demonstrava nenhum interesse em atender o pedido da jovem.

A partir daí, conforme relata Amanda, mãe da estudante, ele começou a “mostrar as garras”. A primeira agressão ocorreu em março, quando Vinícius arranhou Samara enquanto lhe dirigia diversas ofensas. Além disso, ele a arrastou e tentou empurrá-la de uma escada. Amanda ainda guarda as fotos que registram as escoriações pelo corpo da filha.

“Ele era controlador e não queria que ela trabalhasse”

Amanda Santos

Após o ocorrido, Vinícius pediu desculpas aos pais de Samara. Ainda assim, Amanda não acreditou na sinceridade do pedido e temeu pela vida e pela segurança da filha. Em conversa com a reportagem, a representante comercial relatou que frequentemente alertava a jovem sobre seu descontentamento com a situação e a aconselhava a encerrar o relacionamento com o agressor. “Isso não vai acabar bem, Samara. Você não quer ser mais uma na estatística. Foi isso que eu disse a ela”, explica a mãe da jovem.

Mãe temia pela vida da filha

As agressões continuaram, e Vinícius sempre agia da mesma forma: com pedidos de desculpas, presentes, flores e promessas de mudança. “Ele sempre fingia que estava tudo bem. Daqui a pouco, começava a agredir de novo. Pedia para voltar, levava ela ao restaurante, dava flores, perfume, fazia tudo do melhor. Mas, em compensação, voltava a humilhá-la na frente dos amigos, queria pisar nela, queria bater, queria fazer tudo isso”, conta Amanda.

Numa das agressões, Vinícius jogou lança-perfume nos olhos de Samara. Neste dia, segundo relato da mãe, a jovem foi trabalhar na ginkeria do rapaz, o mesmo lugar onde aconteceu a primeira agressão. Depois do expediente, os dois foram para um baile em Belford Roxo, onde Vinícius morava. Ali, ele jogou o conteúdo do frasco nos olhos da jovem.

Entre idas e vindas, o último episódio de agressão foi decisivo para que Amanda levasse Samara para uma delegacia. O fato aconteceu em novembro de 2025. Depois que o casal foi para um chá de bebê, o rapaz levou a jovem para a casa da mãe dele. No carro de aplicativo, ele socou por diversas vezes o rosto da menina.

Vendo a gravidade da situação, Amanda temeu pela vida da filha. Com isso, em vez de levá-la a um hospital, mudou a rota e foi para uma delegacia. Chegando à 21ª DP, em Bonsucesso, a jovem foi atendida e ouvida pelo investigador de plantão, como a mãe explicou.

Ainda de acordo com a mãe da vítima, a filha foi bem atendida no local. Foi ouvida e até aconselhada pelo investigador. “Ele, inclusive, falou: ‘A força do homem é diferente da força da mulher’”, explicou Amanda. Ali, Samara conseguiu registrar a ocorrência e solicitar a medida protetiva.

Depois, ela precisou ser transferida para a Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM) de Belford Roxo, onde foi instaurado o inquérito policial contra Vinícius e realizado o encaminhamento de Samara para o exame de corpo de delito, já que a unidade é responsável pela área onde o rapaz residia.

Demora no inquérito deixa jovem exposta

Segundo Amanda, mãe da jovem, todo o ocorrido, desde a agressão até o registro da ocorrência policial, aconteceu no mês de novembro de 2025. No entanto, Vinícius só foi intimado em fevereiro de 2026. Enquanto isso, Samara tinha medo de sair de casa porque ainda não havia sido concedida a medida protetiva de urgência.

E foi aí que o pesadelo ganhou força. Em entrevista à reportagem, a mãe relatou que o agressor passou a perseguir a filha. “Ele ficava atrás, mandando mensagem o tempo todo, insistindo. Mesmo tendo sido intimado”, relatou Amanda. Vinícius chegou a expor conteúdos sexuais de Samara na internet.

“E ele fazia isso o tempo todo, ficava cercando, mandando mensagem de vários telefones. Ela bloqueava, e ele conseguia contato por meio de colegas, de outras pessoas, da irmã, da mãe, pelas redes sociais, por tudo. Ele expôs ela. Ela ficou tão nervosa, com tanto medo, que cheguei a temer que ela mesma tirasse a própria vida por causa disso.” desabafou Amanda.

Na noite de quinta-feira, dia 30 de abril deste ano, Samara voltava de uma festa de trabalho de carona com um amigo, que a deixou em casa, no bairro de Bonsucesso, após o evento. Segundo investigações, o ex-namorado a esperava na porta de casa e teria coagido e ameaçado Samara a acompanhá-lo até um motel em Belford Roxo. Uma linha de investigação aponta que a jovem teria sido estrangulada.

Após o crime, o rapaz teria levado a jovem para a casa da mãe e do padrasto, que também fica na Baixada Fluminense. Em seguida, eles teriam levado a vítima a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da região, já sem vida.

Centros de atendimento longe da zona norte

No site do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro, é possível encontrar uma rede de atendimento com endereços de centros especializados de apoio às mulheres e casas de acolhimento, alguns mantidos em sigilo por questões de segurança, além de três Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs). A maior parte desses serviços de atendimento está concentrada em regiões como o Centro da cidade, Campo Grande, Jacarepaguá e Santa Cruz.

Ainda no site, é possível encontrar endereços de Núcleos de Atendimento à Mulher, incluindo uma unidade que funcionaria na 45ª DP, no Complexo do Alemão. No entanto, ao entrarmos em contato com moradores da região, fomos informados de que o local não existe mais.

Além disso, um outro obstáculo surge para as mulheres vítimas de violência e moradoras da Zona Norte do Rio: a violência urbana e os conflitos territoriais em áreas sob influência de diferentes grupos criminosos, que dificultam o deslocamento e o acesso aos serviços de atendimento. Como mostrado no site do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro, algumas das Casas de referência e Núcleos de Atendimento ficam comunidades, como Rocinha e Maré.

“A consequência disso é a revitimização: a mulher, que já sofreu violência dentro de casa, acaba enfrentando novo sofrimento institucional ao buscar ajuda”, afirma Marina Sanches.

Unidades básicas também recebe vítimas

Em 2025, segundo dados disponíveis no portal EpiRio, a cada 36 minutos uma mulher foi atendida em uma unidade da rede municipal de saúde vítima de algum tipo de violência. Esses números foram coletados a partir de registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação e demonstram que até as unidades básicas de saúde têm funcionado como porta de entrada para a rede de proteção e apoio a mulheres em situação de violência.

“Enquanto o enfrentamento à violência contra a mulher não for tratada como prioridade estrutural do Estado e da sociedade como um todo, continuaremos enxugando gelo diante de um problema que mata mulheres todos os dias”, afirma a advogada Marina Sanches.

A reportagem tentou entrar em contato com a Secretaria Municipal de Saúde e com a Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres e Cuidados para esclarecimentos sobre o número de casos de violência contra a mulher no município do Rio e para saber como as pastas enfrentam esse desafio, porém não tivemos respostas.

A evolução dos direitos de proteção às mulheres

Ao longo da história, vem sendo ampliado a discussão sobre os direitos das mulheres no Brasil. Abaixo, veja as principais leis conquistadas até o ano de 2023.

Evolução do direito das mulheres ao longo da história brasileira – Arte: Letícia Bernardina

Busca pela equidade de gênero em todos os territórios

Casa das Mulheres da Maré – Foto: Maria Alice Barros

A Casa de Mulheres da Maré é um dispositivo da Redes da Maré, criado em 2016 com o objetivo de fortalecer o protagonismo das mulheres da região, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida delas e, consequentemente, de todo o território. Nela as mulheres têm cursos de capacitação profissional, informações sobre seus direitos sexuais e reprodutivos, além de atendimento psicossociais e sociojurídicos.

“A gente acolhe 200 a 250 mulheres por mês, esse número tem aumentado expressivamente nos últimos anos. As mulheres estão entendendo mais sobre as violências que as atravessam e que elas precisam de um lugar seguro. O perfil de mulheres atendidas são principalmente mulheres pretas e pardas que já passaram por alguma violência de gênero, seja violência física, verbal, patrimonial”, segundo a educadora e ativista formada pela UFRJ, com Pós em Saúde e Ética Racial, que atua dando aulas no curso de Gênero e Sociedade na Casa de Acolhimento às Mulheres da Maré, Lua Brainer.

Em entrevista, a educadora nos contou sobre seu trabalho no acolhimento e letramento de gênero na Casa de Acolhimento às Mulheres da Maré. As aulas de seu curso são uma ferramenta de formação política e social, disponibilizada a partir dos cursos profissionalizantes de gastronomia, confeitaria e do Maré de Belezas, serviços disponibilizados para mulheres da maré e do entorno do território. Seu trabalho pedagógico conta com a presença de textos, vídeos, cartilhas, uma pasta no drive compartilhado com as alunas, e rodas de conversas em que as turmas dividem suas vivências.

Lua Brainer durante aula na Casa das Mulheres na Maré – Foto: Maria Alice Barros

Lua atua dando aulas de letramento de gênero e sociedade para mulheres e ressalta as complexidades envolvidas na questão de gênero dentro do território de favela. Visto que, além de todos os desafios e violências que perpassam a vida das mulheres em nossa sociedade, há também o agravante territorial dos enfrentamentos de violências que as mulheres periféricas são submetidas. Uma vez que, ainda existe forte presença de violências em abordagens e assédios policiais, de modo que, atuam infligindo para além da saúde física, mental, institucional na vida dessas mulheres.

“Os dados que acontecem aqui não chegam totalmente dentro dos órgãos públicos que defendem a vida das mulheres, devido a dificuldade de denúncia. Ainda existe ainda muita subnotificação sobre a violência de gênero e violência policial, que tem na vida delas”, afirma Lua Brainer.

A agressão física não é o único tipo de violência que atravessa a vida das mulheres. O Instituto Maria da Penha, cita os principais tipos:

Tipos de violência contra as mulheres – Arte: Maria Alice Barros

Fomentar o protagonismo das mulheres em espaços como esse é caminhar em direção a igualdade e equidade de gênero. Dar a luz à esse tema é necessário e apoiar essa luta é urgente!

E você, já conhecia sobre esses diferentes tipos de violência à mulher e os centro de acolhimento? Deixe nos comentários.

Redação Gestão e Tratamento de Dados
Redação Gestão e Tratamento de Dados
Matéria produzida pelos alunos do módulo Gestão e Tratamento de Dados, da Escola de Comunicação da Unisuam.

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