Escolas da Zona Norte sofrem com pouco investimento e enfrentam problemas de infraestrutura

Por Enzo Antunes, Lucas Araújo, Gabriela Sgalbiero, Agatha Real e Mariano Santos

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  • Orçamento da Educação: R$ 5,6 bilhões empenhados em educação no município do Rio no primeiro quadrimestre de 2026; apenas R$ 91 milhões (1,6%) destinados às CREs da Zona Norte.
  • Predominância de Despesas Correntes: Concentração em contratos de gestão e terceirização; investimentos inexistentes (R$ 16 mil na 3ª e 5ª CRE, não registrado na 4ª).  
  • Relatório de Gestão 2025: Aponta expansão. 26 mil novas vagas, 52% dos alunos em tempo integral. 
  • Dificuldade de acesso às fontes: Empecilhos nas entrevistas institucionais; funcionária aceitou falar sob anonimato. 
  • Relatos Internos: Mesma verba para escolas com tamanhos diferentes; professores e pais custeiam materiais; infraestrutura vulnerável com paredes de drywall. 
  • Relatos dos Alunos: Falta de água, ventiladores quebrados, banheiros interditados, merenda sem variedade, direção e professores suprindo carência com recursos próprios.

Nos quatro primeiros meses de 2026, a Prefeitura do Rio empenhou mais de R$ 5,6 bilhões para a educação municipal, desse montante apenas R$ 91 milhões (cerca de 1,6%) foram destinados às escolas da 3ª, 4ª e 5ª Coordenadorias Regionais de Educação (CRE), que concentram a maioria das unidades escolares da Zona Norte. Grande parte desses recursos foi aplicada em contratos de gestão e despesas correntes, enquanto os investimentos tiveram participação reduzida no orçamento. 

Infografia: Gabriela Sgalbiero

Destrinchando os dados

O Portal da Transparência da Prefeitura do Rio reúne dados sobre receitas e despesas municipais, permitindo a análise das coordenadorias regionais mencionadas. Os dados recolhidos acerca da 3ª, 4ª e 5ª CRE mostram predominância de despesas com manutenção, contratos de gestão e terceirização de serviços, enquanto os investimentos são mínimos: apenas R$ 16 mil para a 3ª e 5ª CRE cada e sem registros de valores para a 4ª durante o período observado. 

Os dados do Portal da Transparência que indicam baixo volume de despesas em melhorias nas CREs da Zona Norte coexistem com indicadores de expansão divulgados pela Secretaria Municipal de Educação (SME). 

Segundo o Relatório Anual de Gestão, em 2025 foram abertas 26 mil novas vagas e 52% dos alunos passaram a estudar em tempo integral. Apesar dos avanços na oferta educacional, permanece a necessidade de compreender como os recursos chegam às escolas, o que exigiria ouvir diretamente os profissionais da SME e das CREs, etapa que enfrentou obstáculos na realização das entrevistas.

Acesso às Fontes

Durante a apuração, profissionais da rede municipal informaram que entrevistas sobre o funcionamento das escolas dependiam de autorização da SME. A equipe enviou pedidos formais mas, devido ao prazo de retorno e às etapas exigidas, não foi possível realizar as entrevistas institucionais. A 3ª Coordenadoria Regional também não pôde atender, alegando alta demanda.

A tentativa de contato foi realizada pelo repórter Mariano Santos.

Diante da dificuldade de acesso às fontes oficiais, uma funcionária da rede municipal aceitou relatar a própria experiência sob condição de anonimato.

A perspectiva interna

A fonte relatou para a equipe que o dinheiro recebido na escola que trabalha chega através do Sistema Descentralizado de Pagamento e que essa verba tem fins específicos, não podendo ser utilizada para outros objetivos. Segundo ela, o mesmo valor é enviado para diferentes escolas: “A mesma verba que vem para minha unidade escolar, que tem 300 crianças, vai para uma que tem 100 alunos.”

Ao ser abordada acerca de materiais, ela relata que certos recursos não são fornecidos pela prefeitura, obrigando-a a arcar com o próprio dinheiro. “Papel corrugado não tem, EVA de qualidade não tem… Várias eram as vezes que, para fazer um trabalho legal, eu precisava tirar do próprio bolso”. Ainda neste tópico, a educadora afirma contar com doação dos professores e dos pais para que seja possível a realização de atividades lúdicas de qualidade, garantindo o desenvolvimento infantil pleno. 

Em relação à infraestrutura, a fonte conta que as paredes de drywall acabam colocando os profissionais e alunos em situações vulneráveis. “O tiro perfura com muita facilidade”

“A gente vê um sistema puramente meritocrático. Não tem como você exigir um ensino igualitário para alguém que mora numa comunidade que tem muita violência, sofre com operações policiais e deixam de receber aula (por isso)”

Funcionaria de escola pública do Rio de Janeiro.
Produção: Agatha Real e Lucas Araújo

O lado dos alunos

A reportagem, sob autorização da família, ouviu outros 4 estudantes com idades entre 11 e 14 anos. Alexia (13) e Isadora (11), que optaram por não revelar a instituição que frequentam; Ana e Emanoel (14), alunos da Escola Municipal Zélia Braune. 

Durante a conversa, um fator comum foi a falta de água. Alexia e Isadora já ficaram cerca de uma semana sem aula, enquanto os horários de Ana foram encurtados por problemas nas bombas d’água e bebedouros. 

Sobre infraestrutura, os alunos denunciaram ventiladores quebrados, banheiros interditados, quadras deterioradas e demora na realização de reparos. 

Segundo Isadora, algumas cabines do banheiro são fechadas por apresentarem defeitos, causando grandes filas e dificuldade no acesso aos sanitários. Ela acrescenta, também, a falta de carteiras para a quantidade de estudantes. “A prefeitura bota muitos alunos sem ter condição de cuidar de todos”

Emanoel e Ana citam os ventiladores quebrados e Emanoel conta já ter precisado mudar de sala para uma com ar condicionado, mas que, mesmo assim, não dava vazão. 

Além da infraestrutura, Alexia demonstra insatisfação com a merenda. Apesar de nunca faltar, a escola não oferece variação nos alimentos. Conta ainda que, em um momento de dificuldade, ela e as irmãs contavam com a comida da escola: “…fomos para a escola comer, mas quando chegamos lá não tinha mistura”, relembra. “Teve um dia que o arroz tava [sic] duro e o feijão era só caldo”.

As fontes também indicaram situações em que profissionais da educação acabam suprindo carências da estrutura escolar. Emanoel afirmou que “a maioria dos materiais são os professores que compram”. Ana revela situação semelhante envolvendo a direção da instituição: “Às vezes o diretor tira do bolso dele para poder ajudar a gente na escola”

Quando questionadas sobre a relação entre expansão da rede e qualidade do ensino, as opiniões divergiram. Ana acredita que a prefeitura tem buscado melhorar as escolas e citou avanços recentes na climatização das salas e na estrutura esportiva. Já Emanoel avalia que a prioridade está no aumento do número de matrículas: “A cada ano que passa, eu sinto mais alunos na sala do que mais melhorias”, afirmou.

Embora o Relatório de Gestão de 2025 registre expansão da rede municipal, os dados de despesas entre janeiro e abril de 2026 e os relatos da Zona Norte evidenciam uma distribuição desigual de recursos. Situações como falta de água, materiais custeados por professores e demora na manutenção revelam lacunas estruturais. A diferença entre as metas alcançadas no ano passado, a aplicação dos recursos no início de 2026 e o cotidiano escolar expõe uma questão de desigualdade e prioridade na educação pública carioca.

Como você avalia a infraestrutura da escola pública da sua região? Deixe o seu comentário!

Redação Gestão e Tratamento de Dados
Redação Gestão e Tratamento de Dados
Matéria produzida pelos alunos do módulo Gestão e Tratamento de Dados, da Escola de Comunicação da Unisuam.

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