Insegurança altera hábitos da população, afeta o comércio e reforça a sensação de vulnerabilidade em uma das regiões mais populosas da cidade
Por Lucas Costa, Luan Santos, Taianne Carvalho e Stephanie Marinho
- Mais da metade dos roubos do Rio de Janeiro aconteceram na zona norte em 2025 segundo dados do ISP.
- Turiaçu e Tomas Coelho aparecem com maior crescimento de roubos de veículos.
- Moradores e comerciantes tem suas rotinas mudadas com medo da violência
- Segundo a especialista esses fatores estão relacionados a desigualdade social
Mais da metade dos roubos registrados no Rio de Janeiro em 2025 aconteceu na Zona Norte da cidade. Os dados mais recentes do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que o cenário se estendeu para o primeiro trimestre de 2026 — uma realidade percebida diariamente por quem vive, trabalha ou circula pelos bairros da região.

O impacto vai além das estatísticas. Moradores mudam trajetos e evitam sair à noite; comerciantes investem em segurança privada; trabalhadores relatam prejuízos financeiros e emocionais provocados pela violência.
Apesar da relevância econômica e social, a região enfrenta desafios históricos relacionados à desigualdade social, urbanização desigual e déficit de infraestrutura em determinados territórios. Segundo Lidia Medeiros, professora e doutora em Ciências Sociais, décadas de desindustrialização, redução de investimentos públicos e crises econômicas contribuíram para o enfraquecimento da região.
A Zona Norte foi severamente impactada pela perda de postos de trabalho, fechamento de indústrias e abandono do espaço urbano, fatores que contribuíram para o aumento da vulnerabilidade social e da insegurança.
Lidia Medeiros, professora e doutora em Ciências Sociais
Bairros registram crescimento expressivo nos roubos
Os números do Instituto de Segurança Pública (ISP) do primeiro trimestre de 2026 mostram aumento expressivo nos roubos de veículos em parte da Zona Norte. Nas regiões de Madureira, Piedade, Inhaúma, Bonsucesso e Penha, os registros saltaram de 817 para 1.133 ocorrências em relação ao mesmo período de 2025 — alta de 38,7%.

Medo muda hábitos da população
Se os números ajudam a dimensionar o problema, os relatos mostram como a violência interfere diretamente na vida cotidiana.
O auxiliar administrativo Fillipe Baêta, morador de Cordovil, conta que a violência o forçou a tomar uma decisão drástica.
Eu estava fazendo um tratamento de saúde e a área onde morava virou rota de confronto entre facções. Tive que me mudar para passar por essa fase com mais tranquilidade.
Fillipe Baêta, morador de Cordovil
Hoje, ele e a esposa evitam ficar na rua depois das 22h30 — um limite que passou a fazer parte da rotina do casal.
Priscilla Colaço, esposa de Fillipe, diz que evita usar o celular na rua e, quando precisa, faz isso com cautela. No ônibus, o hábito é esconder o aparelho durante todo o trajeto. O casal abandonou a prática de atividades físicas noturnas — o único horário disponível na rotina de ambos — por receio de assaltos
Você fica esperando que algo aconteça. Nunca consegue ficar totalmente tranquila.
Priscilla Colaço, moradora de Cordovil
Transporte e mobilidade: deslocamento sob risco
O crescimento da violência também afeta a mobilidade urbana. Enquanto o BRT amplia sua presença em algumas áreas da cidade, moradores relatam dificuldades provocadas pela redução de linhas de ônibus e pela insegurança em determinados pontos e horários. Muitos afirmam recorrer com mais frequência a aplicativos de transporte, mesmo com custo mais elevado. O objetivo é reduzir a exposição nas ruas e garantir um deslocamento mais seguro.

Para o motorista de aplicativo Wagner da Costa, a violência transformou a forma como ele exerce a profissão. Ele passou a avaliar cada passageiro antes de aceitar a corrida — uma leitura corporal rápida que virou parte do trabalho desde que a violência se intensificou na região. Após sofrer um assalto, abandonou o turno da madrugada.
Antes eu rodava até uma da manhã. Hoje não trabalho mais à noite por causa da violência.
Wagner da Costa, motorista de aplicativo

O episódio deixou marcas — por mais de um mês, ele reviveu mentalmente tudo o que aconteceu.
Lidia Medeiros alerta que o medo tem consequências que vão além do individual.
Quando as pessoas deixam de circular por medo, há impactos econômicos, sociais e emocionais. A cidade perde vitalidade e os espaços públicos ficam esvaziados.
Lidia Medeiros, Professora e doutora em Ciências Sociais
Comércio sente os efeitos da insegurança
Os efeitos chegam também ao comércio local. Um comerciante de Madureira, que atua há duas décadas na região e preferiu não ter o nome divulgado por receio de retaliações, conta que a insegurança mudou o comportamento dos consumidores.
Clientes com maior poder aquisitivo passaram a frequentar outros centros comerciais que oferecem melhores condições de estacionamento e maior sensação de segurança.
Comerciante entrevistado, Madureira
Para compensar, ele passou a investir em proteção: câmeras, segurança privada e retirada das mercadorias mais valiosas das vitrines.
Entre números e rotinas interrompidas
Lidia Medeiros reforça que a violência vai além dos índices criminais, ela afirma que: “A violência precisa ser compreendida à luz das desigualdades estruturais, da exclusão social e da ausência do Estado ao longo de gerações.”
O enfrentamento da criminalidade passa por ações que combinem segurança pública, planejamento urbano e investimentos sociais — um caminho que, para moradores, ainda parece distante do cotidiano.
A reportagem procurou o Instituto de Segurança Pública (ISP) para comentar os dados e esclarecer aspectos da metodologia. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno.
Segue um resumo da reportagem em áudio:
De que forma a preocupação com a segurança alterou os seus hábitos diários na Zona Norte? Conta pra gente nos comentários.



