Dados mostram crescimento de interrupções das aulas entre 2023 e 2024 e fontes falam sobre efeitos no aprendizado, no dia a dia e na saúde mental de alunos e profissionais da educação
Por Pérola Fégalo e Yasmin Koppe.
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- Dados apontam aumento das operações policiais e das interrupções das aulas na Maré entre 2023 e 2024.
- Estudantes relatam medo, insegurança e impactos no processo de aprendizagem.
- Responsáveis e profissionais da educação destacam desafios para manter a rotina escolar durante operações policiais.
- A análise sugere que a violência armada afeta o cotidiano escolar, a saúde mental e o acesso à educação no território.
Mais operações, mais interrupções

A análise dos dados da Rede da Maré (De Olho na Maré) aponta um aumento das operações policiais identificadas na região entre os anos de 2023 e 2024. Em 2023 registraram 34 operações, já em 2024, aumentou para 42, totalizando um crescimento de 23,5%.
O crescimento das operações policiais foi seguido por um aumento das interrupções das aulas. No ano de 2023, as escolas das região do Complexo da Maré tiveram 25 dias de atividades escolares afetadas por ações policiais, e em 2024, esse número totalizou a 37 dias, o que significa 12 dias a mais de interrupção durante o ano.
As consequências dessas interrupções afetam diversos alunos. Com base nos dados analisados, 8.099 estudantes foram prejudicados pelas interrupções em 2023. O número cresceu para 8.217 no ano de 2024. Ainda que a diferença seja relativamente pequena diante ao total de estudantes afetados, ela mostra a continuação do problema e seu alcance na comunidade.
Os dados apontam que o crescimento das operações policiais esteve seguido por um aumento dos dias de aula interrompidos na Maré. Além de números, esses dados permitem entender como a violência armada compromete o funcionamento escolar e no dia a dia de estudantes, professores e famílias. Os depoimentos coletados no decorrer da apuração reforçam que os impactos dessas interrupções vão além da suspensão das atividades escolares, atingindo fatores com relação à aprendizagem, a saúde mental e a percepção de segurança no ambiente escolar.
Quando o medo entra na sala de aula

Os números mostram o crescimento de interrupções de aulas na Maré, mas os relatos dos que viveram essa realidade permitem entender como afetou seu dia a dia. A ex-aluna Mariana, de 20 anos, estudou na Escola Municipal IV Centenário desde a infância e lembra que as operações policiais ocorriam de repente.
De acordo com ela, quando os confrontos iniciavam enquanto as aulas aconteciam, alunos e professores precisavam cumprir normas de segurança.
“Quando acontecia operação, muito tiro ou alguma coisa assim, eles mandavam a gente se jogar no chão e sair de dentro da sala porque era menos perigoso.”
Mariana, ex-aluna da Escola Municipal IV Centenário.
Mariana alega que ficou sem aula por vários dias ao decorrer dos anos e afirma que isso afetou seu desempenho na escola. Entre as memórias mais marcantes, ela relata um fato em que um tiro acertou a janela da escola durante um tiroteio. “Eu lembro que começou um tiroteio do nada. As professoras mandaram todo mundo sair da sala e ir para o corredor. Chegou a pegar um tiro na janela e foi uma gritaria, muita criança chorando.”, disse a ex-aluna.
Além das interrupções nas aulas, ela ressalta que o medo também impactava sua vontade de ir à escola.
“Eu não queria muito ir porque ficava com medo de acontecer alguma coisa comigo ou com a minha família.”
Mariana, ex-aluna da Escola Municipal IV Centenário.
A entrevista mostra que os efeitos da violência armada são maiores que dias de aulas perdidos, impactando também a sensação de segurança e a rotina de estudo dos alunos.
O impacto para as famílias
Os resultados da violência armada na educação não se restringem à escola. Para várias famílias da Maré, operações policiais também mudam o cotidiano e geram preocupação o tempo todo com a proteção das crianças.
Fernanda, responsável de Mariana, afirma já ter precisado para de fazer suas atividades para buscar seus filhos e sobrinhos na escola enquanto ocorria uma operação. Segundo ela, não saber o que pode acontecer durante os confrontos causava medo e aflição tanto para as crianças, quanto para seus responsáveis.
Além do medo e da insegurança, situações desse tipo necessitam de mudança de forma repentina no dia a dia das famílias, que precisam se organizar para assegurar que as crianças voltem para casa seguras. Para família, a violência passa a ser outro obstáculo no acompanhamento escolar das crianças.
Os impactos das operações policiais saem da escola e chegam a toda comunidade, atingindo de forma direta o dia a dia das família da Maré.
Como as escolas tentam manter o ensino?
Com as interrupções causadas pelas operações policiais, as escolas da Maré procuram soluções para diminuir os impactos na aprendizagem. Na Escola Municipal IV Centenário, por exemplo, as aulas são feitas de forma online quando não há possibilidade de aulas presenciais.
De acordo com Elaine, profissional da educação, os conteúdos são mandados aos grupos de WhatsApp das turmas e feitos em um caderno específico para aulas online. Quando há a volta das aulas presenciais, esses mesmos exercícios são corrigidos pelos professores.
Mesmo com essas medidas, a violência permanece afetando a comunidade escolar. Elaine conta sobre uma operação que aconteceu em fevereiro de 2026, que acabou tendo um forte confronto próximo à escola.
“Trabalho há 25 anos na Maré e nunca vivi um confronto como esse. Passei dias desanimada, com o barulho dos tiros na mente.”
Elaine, profissional da Escola Municipal IV Centenário.

O relato mostra que, mesmo que a escolas encontrem um jeito de continuar com o ensino, os impactos da violência armada afetam também os profissionais da educação.
O que os dados sugerem?

A apuração dos dados e das entrevistas feitas indica que a violência armada prejudica no dia a dia escolar da Maré de diversas maneiras. O crescimento das operações policiais ocorridos entre 2023 e 2024 veio acompanhado pelo aumento da quantidade de dias de aula prejudicados e total de alunos afetados pelas interrupções.
As entrevistas realizadas permitem entender as consequência desses números na rotina. Alunos revelam insegurança, medo e dificuldades causadas pelas interrupções das aulas. Já os responsáveis e profissionais da educação mostram os obstáculos para continuar a rotina e manter o processo de aprendizagem.
Além dos dados que conseguimos das interrupções das aulas, os indicadores da Escola Municipal IV Centenário indicam que eles mantiveram a taxa de aprovação em 100% nos anos de 2023 e 2024, e nos mesmos anos, a taxa de reprovação e abandono escolar continuaram em 0%. Esses indicadores condizem com a entrevista de Elaine, que confirma não ver relação entre a violência armada e o abandono escolar na unidade em que trabalha.
Por mais que os dados coletados não possibilitem definir uma relação de causalidade direta entre a violência armada e índices de evasão ou abandono escolar, eles mostram que os confrontos e operações policiais participam da realidade escolar da Maré. Assim, o acesso a educação enfrenta barreiras que passam do limite da sala de aula.
Você já deixou de ter aula por conta de operações policiais? Deixe aqui seu relato!
Foto destacada: Yasmin Koppe



