Quando a mulher negra se aproxima do rock: a expectativa por um possível Ato III de Beyoncé

Da invisibilização de Rosetta Tharpe ao veto de um álbum de rock de Mariah Carey, trajetória de artistas negras no gênero ajuda a entender o impacto simbólico de uma possível nova fase da cantora

Por Vitor Fonseca – Estudante de Jornalismo

Desde que Beyoncé passou a estruturar sua carreira recente em atos, cada novo lançamento deixou de ser interpretado apenas como um álbum e passou a representar um movimento artístico, cultural e político. Em Renaissance, a cantora revisitou as raízes negras e LGBTQIA+ da música eletrônica. Já em Cowboy Carter, questionou a ideia de que o country seria um território exclusivamente branco.

Agora, a expectativa em torno de um possível Ato III, associado ao rock, abre uma discussão que vai além da sonoridade. A possibilidade coloca em evidência uma história marcada por apagamentos, limites impostos pela indústria musical e pela dificuldade de mulheres negras ocuparem plenamente um gênero que nasceu a partir de referências negras, mas se consolidou como um espaço majoritariamente branco e masculino.

Um gênero criado por artistas negras, mas que as apagou

Apesar de suas origens ligadas ao blues, ao gospel e às tradições musicais negras dos Estados Unidos, o rock passou por um processo de transformação comercial que afastou muitos dos seus criadores originais. Nesse movimento, artistas negros tiveram suas contribuições reduzidas ou invisibilizadas, como aconteceu com Rosetta Tharpe, considerada uma das pioneiras do gênero.

Para as mulheres negras, essa exclusão assumiu uma dimensão ainda maior. Enquanto alguns artistas homens conseguiram ocupar espaços dentro do rock, mesmo enfrentando barreiras, mulheres negras frequentemente foram tratadas como exceções, e não como parte de uma continuidade histórica do gênero.

Tina Turner e o lugar da exceção

Uma das trajetórias mais emblemáticas é a de Tina Turner. Nos anos 1970 e 1980, a artista construiu uma carreira profundamente ligada ao rock, especialmente ao blues rock e ao hard rock, tornando-se uma das maiores performers de sua geração.

Reprodução: Instagram/Meta @tinaturner

No entanto, sua presença no gênero também revelou contradições. Tina foi constantemente associada à ideia de excepcionalidade: uma mulher negra que conquistou espaço em um território visto como distante dela. Ao mesmo tempo em que sua potência artística era celebrada, sua imagem foi marcada pela sexualização e pela exploração de sua performance como produto da indústria.

Mesmo sendo reconhecida como uma das maiores figuras do rock, seu lugar dentro da história do gênero ainda carrega debates sobre pertencimento e reconhecimento.

O álbum de rock de Mariah Carey que nunca chegou ao público

Nos anos 1990, outra situação evidenciou os limites impostos às artistas negras dentro da indústria. Durante o auge de sua carreira, entre os álbuns Daydream e Butterfly, Mariah Carey gravou um projeto de rock alternativo sob o pseudônimo “Chick”.

A proposta apresentava uma versão diferente da artista, com vocais mais agressivos e uma sonoridade distante da imagem de diva pop construída por sua gravadora. O álbum, porém, nunca foi lançado oficialmente.

A decisão partiu da própria indústria, que considerou o projeto incompatível com a identidade comercial de Mariah. O episódio demonstra como artistas negras muitas vezes tiveram suas possibilidades criativas direcionadas para espaços considerados mais seguros pelo mercado, limitando experimentações fora das expectativas criadas para elas.

Uma história de aproximações interrompidas

Outras artistas negras também atravessaram fronteiras entre gêneros e se aproximaram do rock ao longo das décadas. Betty Davis incorporou elementos do funk rock em sua obra, mas enfrentou resistência por sua estética considerada provocativa para a época. O grupo Labelle também explorou referências do glam rock antes de ser direcionado para caminhos mais comerciais.

Mais recentemente, artistas como Rihanna, Willow e Janelle Monáe incorporaram elementos do rock em diferentes momentos de suas carreiras. Porém, essas experiências muitas vezes foram interpretadas como fases ou experimentações, e não como pertencimento definitivo ao gênero.

O padrão se repete: a mulher negra pode se aproximar do rock, mas raramente é reconhecida como alguém que pertence a esse espaço.

O significado de um possível Ato III

É nesse contexto que um possível projeto de Beyoncé ganha uma dimensão simbólica maior. Caso o rock seja o caminho escolhido para o próximo ato de sua carreira, a discussão não estará apenas na estética musical, mas no lugar de onde essa ocupação acontece.

Diferentemente de outras artistas negras que precisaram disputar legitimidade dentro da indústria, Beyoncé construiu uma autonomia artística que permite explorar diferentes territórios sem depender da aprovação de um mercado que historicamente delimitou caminhos para mulheres negras.

Um Ato III ligado ao rock representaria menos uma descoberta e mais uma reivindicação histórica: a reafirmação de que mulheres negras nunca foram visitantes nesse gênero, mas parte fundamental da sua construção.

Enquanto esse possível capítulo ainda não se confirma, a expectativa já revela a dimensão da conversa. Pensar Beyoncé no rock significa revisitar trajetórias como as de Rosetta Tharpe, Tina Turner, Mariah Carey e tantas outras artistas que tiveram suas possibilidades reduzidas ou questionadas. O debate, portanto, não é apenas sobre um novo álbum, mas sobre quem tem o direito de ocupar todos os espaços da música.

Imagem destaque: Reprodução Instagram/Meta @beyonce

Beatriz Bruno
Beatriz Bruno
Estudante de Jornalismo pela Escola de Comunicação do Centro Universitário Augusto Motta. Carioca da gema, praia e samba na palma da mão. Acredito em uma comunicação acessível e abrangente.

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