Entre a fé e a intolerância: terreiros resistem à pressão urbana e ao preconceito religioso

Mesmo diante da especulação imobiliária, do medo e da intolerância religiosa, lideranças do Candomblé mantêm viva a tradição afro-brasileira na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Por Vitor Fonseca

Apesar do valor histórico dos espaços de matriz africana no Rio de Janeiro, muitos terreiros ainda enfrentam desafios para preservar seus territórios e manter suas atividades religiosas. Na região central da cidade, onde está localizada a Pequena África, lideranças do Candomblé relatam dificuldades para falar publicamente sobre o avanço da especulação imobiliária e dos casos de intolerância religiosa por receio de represálias.

Em meio ao silêncio de algumas comunidades religiosas, a voz de Babá Rodrigo Fonseca, Babalorixá de um terreiro localizado no bairro da Lagoinha, em Nova Iguaçu, revela uma realidade presente em diferentes territórios da região metropolitana: a luta pela permanência dos espaços sagrados e pela preservação da cultura afro-brasileira.

A ameaça aos espaços de axé

Segundo Babá Rodrigo, a pressão sobre os terreiros não está relacionada apenas ao preconceito religioso, mas também envolve disputas territoriais e interesses econômicos. Para o sacerdote, muitos espaços de Candomblé estão localizados em áreas periféricas onde enfrentam diferentes formas de vulnerabilidade.

“Já passamos por situações de pressão e tentativas de remoção. Isso acontece porque muitos terreiros estão em áreas periféricas, com forte presença evangélica e atuação de milícias. É um ambiente hostil, mas respondemos com união e a força da nossa espiritualidade”, afirmou.

O terreiro comandado pelo Babalorixá já foi alvo de ameaças. Ele relata ter recebido ligações anônimas atribuídas inicialmente a grupos criminosos, mas que posteriormente foram associadas a um vizinho motivado por intolerância religiosa. O caso foi denunciado às autoridades, mas, segundo ele, representa uma realidade enfrentada por diversas casas de axé.

Para Babá Rodrigo, muitos terreiros acabam encerrando suas atividades por falta de apoio jurídico e redes de proteção. Quando um espaço religioso deixa de existir, afirma o sacerdote, a perda ultrapassa a dimensão espiritual e atinge também a memória cultural e comunitária.

Resistência e ancestralidade na Baixada Fluminense

Para o Babalorixá, manter um terreiro ativo na Baixada Fluminense representa uma forma de preservar a ancestralidade e reafirmar a presença negra no território.

Cada toque de atabaque, cada ritual e cada elemento da natureza utilizado nas práticas religiosas carregam, segundo ele, um significado de continuidade histórica. A permanência desses espaços se torna também uma forma de impedir que o preconceito apague tradições construídas ao longo de gerações.

Além da atuação religiosa, os terreiros também desempenham funções sociais dentro das comunidades onde estão inseridos. No espaço comandado por Babá Rodrigo, festas e obrigações do egbé também se transformam em ações de acolhimento, com distribuição de alimentos, apoio a moradores em situação de vulnerabilidade e fortalecimento dos vínculos comunitários.

“A gente mostra, na prática, que o axé também é solidariedade. Assim conquistamos respeito, até de quem antes nos via com preconceito”, afirma.

A busca por políticas públicas efetivas

Ao falar sobre ações de proteção aos terreiros, Babá Rodrigo destaca que o reconhecimento simbólico não é suficiente para garantir segurança e direitos às comunidades religiosas.

“Colocar uma placa na porta não garante direito a ninguém”, afirma o sacerdote, ao criticar iniciativas que, segundo ele, não alcançam efetivamente as casas de axé.

Para o Babalorixá, muitos líderes religiosos encontram dificuldades para acessar programas públicos devido à burocracia e à falta de orientação. Ele defende políticas que ofereçam suporte jurídico, proteção e mecanismos reais de preservação dos territórios religiosos.

O axé como resistência

A experiência relatada por Babá Rodrigo evidencia uma realidade enfrentada por diversas lideranças de religiões afro-brasileiras: a necessidade de equilibrar a preservação da fé com os desafios impostos pelo preconceito e pelas disputas urbanas.

Entre o medo e a resistência, cada terreiro que permanece aberto representa a continuidade de uma história marcada pela ancestralidade, pela cultura e pela luta por reconhecimento. No Rio de Janeiro, onde a formação cultural também passa pelas tradições africanas, o toque dos tambores segue reafirmando uma memória que insiste em permanecer viva.

Imagem destaque: Mídia Ninja

Beatriz Bruno
Beatriz Bruno
Estudante de Jornalismo pela Escola de Comunicação do Centro Universitário Augusto Motta. Carioca da gema, praia e samba na palma da mão. Acredito em uma comunicação acessível e abrangente.

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